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Governo Assegura Que “há Combustíveis Até Maio” Mas Corrida Massiva Aos Postos Pode Colocar em Risco o Abastecimento

O Presidente da República, Daniel Chapo, assegurou que o País dispõe de reservas suficientes de combustíveis para garantir o abastecimento até finais de Abril ou princípios de Maio, afastando, para já, qualquer cenário de escassez no mercado interno, tal como informou a Agência de Informação de Moçambique (AIM).

A garantia foi dada na noite de sábado (28), em Malabo, à margem de uma conferência de imprensa que marcou o término da visita de trabalho do chefe do Estado à Guiné Equatorial. Na ocasião, o estadista reconheceu que o actual contexto internacional, marcado pela crise no Médio Oriente, poderá vir a ter impactos globais, mas sublinhou que, neste momento, não há efeitos imediatos sobre o País.

“Queríamos tranquilizar os moçambicanos que esta crise pode chegar um dia, mas neste momento não há razões de alarme”, afirmou. Segundo explicou, a estabilidade actual resulta, em grande medida, dos níveis de stock existentes e das encomendas efectuadas antes da recente escalada dos preços no mercado internacional. O Presidente destacou que há navios com combustível já adquiridos a preços anteriores em trânsito para o País, bem como embarcações prestes a atracar nos portos nacionais.

“Quando esta crise começou, já tínhamos muitos navios com destino ao nosso país e este combustível foi adquirido ao preço anterior”, referiu, acrescentando que o volume disponível permite, ainda, assegurar alguma estabilidade nos preços internos nas próximas semanas.

Contudo, advertiu que este cenário poderá alterar-se caso a crise internacional se prolongue. “Se a guerra continuar, podemos começar a ser afectados, porque vão começar a chegar navios com um novo preço”, alertou.

 

O chefe do Estado reconheceu igualmente a existência de sinais de inquietação no País, impulsionados pela circulação de informação falsa nas redes sociais, que tem motivado corridas aos postos de abastecimento.

“Tem havido um alarme de que no dia seguinte as bombas vão ficar sem combustível, o que tem levado à formação de filas”, disse, apelando à calma e ao uso responsável dos recursos disponíveis.

Paralelamente, defendeu a necessidade de reforçar a capacidade produtiva interna como forma de mitigar os efeitos da subida dos preços dos combustíveis. O governante sublinhou que o encarecimento da energia tem impacto directo sobre os custos de transporte e, consequentemente, sobre o preço final dos bens. “Se o combustível for caro, todo o produto vai encarecer”, explicou, apontando a agricultura e a indústria como sectores estratégicos para reduzir a dependência externa e aliviar a pressão sobre a economia.

A intervenção ocorreu à margem da participação do Presidente na cimeira da Organização dos Estados de África, Caraíbas e Pacífico, onde estiveram em debate os desafios económicos globais e a transição energética.

Filas nos postos colocam pressão no abastecimento de combustíveis em Maputo

A cidade de Maputo tem registado longas filas nos postos de abastecimento, numa altura em que se multiplicam relatos de bombas sem gasolina e de automobilistas obrigados a percorrer vários locais antes de conseguirem abastecer. O problema, visível sobretudo desde 27 de Março, está a gerar preocupação entre consumidores e operadores, num contexto em que a pressão sobre a rede de distribuição aumentou de forma significativa o que levou a que, durante o fim de semana, a maioria dos postos de abastecimento de Maputo estivessem sem combustível para vender aos automobilistas.

No terreno, os sinais de escassez são claros: algumas estações operam com limitações, outras chegaram mesmo a ficar sem combustível, enquanto o tempo de espera se agravou nas horas de ponta. A percepção de falta imediata no retalho contrasta, porém, com a posição das autoridades, que insistem em afastar qualquer cenário de ruptura estrutural do abastecimento no País.

O Governo garantiu primeiro, a 24 de Março, que Moçambique dispunha de stock suficiente até à chegada dos próximos navios, prevista entre 26 e 30 de Março. Dias depois, a Direcção Nacional de Hidrocarbonetos e Combustíveis reforçou que o abastecimento continua regular, com importações a decorrerem sem interrupções e com periodicidade quinzenal, ao abrigo de um contrato de fornecimento válido até Maio de 2027.

Segundo os dados oficiais divulgados pelo sector, ao stock equivalente a 12 dias reportado a 24 de Março junta-se o processo normal de reposição em curso, com entregas previstas até 30 de Março no porto de Maputo. Essas reposições deverão acrescentar mais 26 dias de gasolina e 17 dias de gasóleo, enquanto a janela de importações já confirmada para Abril deverá assegurar a cobertura das necessidades do mercado nos meses seguintes, facto a que o PR aludiu na sua intervenção.

A leitura das autoridades é que o problema actual resulta menos de uma falta efectiva de produto no sistema e mais de uma corrida aos postos, motivada pelo receio de escassez. Essa procura anormal terá pressionado os stocks disponíveis no retalho e criado constrangimentos pontuais na cadeia de distribuição, sobretudo em Maputo, onde a percepção de risco se traduziu num comportamento preventivo dos consumidores.

A AMEPETROL sustenta a mesma tese. A associação afirma que os dados que circularam nos últimos dias correspondem a relatórios técnicos semanais com informação logística sobre volumes em trânsito, descargas previstas e encomendas em curso, e não a um sinal de ruptura iminente. Como resposta ao pico de procura, foi mesmo autorizada, no sábado, 28 de Março, a operação extraordinária dos terminais oceânicos, com vista a acelerar a expedição de combustíveis para o mercado de retalho.

O enquadramento externo ajuda a explicar o nervosismo do mercado. Segundo informação divulgada pelo Governo, cerca de 80% das importações de combustíveis de Moçambique provenientes do Médio Oriente transitam pelo Estreito de Ormuz, cuja circulação foi condicionada pela actual tensão geopolítica. Ainda assim, o Executivo tem procurado tranquilizar o mercado, indicando que o País dispõe de cerca de 75 mil toneladas de combustíveis para assegurar o abastecimento até ao início de Maio, além de aproximadamente 85 mil toneladas armazenadas nos terminais oceânicos.

Para já, o quadro que emerge é o de uma crise de abastecimento ao nível dos postos, mas não de uma ruptura nacional de combustível. O teste decisivo será feito nos próximos dias: se as reposições previstas até 30 de Março entrarem no circuito com a rapidez esperada, a pressão sobre os postos poderá aliviar. Caso contrário, Maputo continuará a ser o espelho mais visível de uma tensão que, mesmo sem colapso logístico, já está a afectar o normal funcionamento da mobilidade urbana e da actividade económica. (DR)

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