Sociedade

Eu Sou Cabo Delgado Deslocado:  Escorraçado pelo Terror Jihadista, Espezinhado pelo Estado, Vendido ao Capital

Por Tiago J.B. Paqueliua
⁠“Que os Deslocados Reinventem-se. O Governo desencoraja mendicidade por muito tempo”
— Porta-voz do Governo de Moçambique, por Ocasião da 27ª Sessão do Conselho de Ministros
A maldição de ser deslocado em Moçambique
Eu sou Cabo Delgado deslocado, forçosamente. Não um simples migrante interno, mas um corpo fora do lugar — expulso das raízes pela fúria jihadista, ignorado pelo cinismo dos governantes, e agora assisto, impotente, à venda da minha terra natal para megaprojectos que nunca me darão abrigo.
Desloquei-me do centro dos interesses — demasiado pobre para ser prioridade, demasiado vivo para ser esquecido. Nem os que matam nem os que deviam proteger me querem de facto vivo. Para os primeiros, sou kafir. Para os segundos, sou estatística. Para os investidores, sou empecilho.
Os “acampamentos” da vergonha
Chamam “centros de acolhimento” aos antros da periferia extrema da humanidade. Mães e crianças e idosos  com olhares que dispensam tradução, e um tempo suspenso entre o desalento e o esquecimento.
— Reinventem-se… reinventem-se… A voz do cinismo verbera, como se fosse possível alguém reinventar-se onde não há pão, nem água e medicamento.
Reinventar-se com a humilhação de ver as filhas trocarem o corpo por antibióticos de prazo
inválido, feijão e farinha podres? Reinventar-se como? Tornar-se ladrão? Tornar-se lixo? Ou suicidar-se?
Filosofias de ruína: o mundo como cemitério de empatia
Aristóteles falaria de uma polis sem virtude. Confúcio, de uma ordem corrompida. Hannah Arendt diria que aqui triunfa a banalidade do mal. Achille Mbembe falaria do necropoder — da gestão cínica da morte em vez da promoção da vida.
É isso. Eu  Cabo Delgado sou hoje o laboratório do necropoder globalizado. Em mim  testa-se a eficiência de megaprojectos sem povo, de zonas económicas sem humanidade, de crescimento do PIB com cadáveres frescos como adubo e o meio ambiente em degradação.
Mandela, que acreditava num mundo onde “ninguém nasce odiando o outro”, não reconheceria este Moçambique de segregações disfarçadas, elites desumanas e democracia capturada. Gilles Cistac morreu por nos lembrar que a Constituição deveria proteger os fracos. Hoje, protege contratos.
De vítima a culpado
Sou empurrado para o abismo da prostituição, da mendicidade e da criminalidade juvenil — e depois acusado de ser o próprio problema.
Pergunto, com voz rouca de fome e raiva:
⁠A minha esposa e filhas devem entrar nos antros de prostituição de Pemba como forma de reinvenção?
Os meus filhos devem roubar para comer?
O meu pecado é ter fugido do terrorismo?
Sou agora a escória da vossa independência?
A vergonha global de um Estado ausente
Na ONU, na SADC, nos gabinetes climatizados das ONG, discursa-se em jargão técnico, mas falta um só termo honesto: vergonha.
Vergonha de que um país com tanta terra esteja a vender cada palmo ao capital estrangeiro sem terra para enterrar a dignidade dos seus filhos. Vergonha de um Estado que exibe crescimento económico enquanto tolera campos de deslocados onde não se cresce, sobrevive-se.
Eu sou o vosso espelho
Eu sou Cabo Delgado Deslocado. Não só no mapa, mas no vosso espírito. Deslocado das vossas políticas públicas, dos vossos orçamentos, e até das críticas pastorais aos verdadeiros culpados. Deslocado da vossa ética.
Eu sou o espelho que recusam olhar. O reflexo do que o vosso silêncio fabrica. A prova viva de que o vosso desenvolvimento é amputado de humanidade.
Conclusão: entre a denúncia e o clamor
Eu Cabo Delgado não peço piedade. Clamo por justiça. Convoco a academia a falar de necropolítica com nomes, datas e sangue. Convoco os políticos a debaterem segurança que não seja só militar. Convoco os juristas a revisitarem a função social do Estado. Convoco a juventude a recusar o cinismo generalizado.
Convoco os jornalistas a comunicar a verdade.
Se esta terra é mesmo de todos os moçambicanos — como gritam nas vossas campanhas — então devolvam-na a quem nela nasceu, sofreu, enterrou os pais e pariu os filhos. Deixem-nos viver. Ou assumam de vez: não somos cidadãos. Somos lixo reciclável da vossa utopia. Cabo Delgado deslocado, forçosamente.

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