Cultura

Crítica | Jazz ao Pôr do Sol: nome bonito, conceito em falta? Ponta Haparty Hotel, Ponta D’Ouro – 4ª Edição

Maputo voltou a ter “Jazz” na ponta da língua este fim de semana. Mas será que o que vimos no Jazz ao Pôr do Sol, no Ponta Haparty Hotel, foi mesmo um festival de jazz?

Pela definição, um festival de Jazz não é só juntar nomes conhecidos num palco bonito. Ele tem alma própria: improvisação, variedade de estilos, jam sessions, encontro de músicos, troca com o público e com a comunidade. É celebração, não desfile.

E é aí que a 4ª edição do evento deixa perguntas no ar.

1. O nome versus a prática
Chama-se “Jazz ao Pôr do Sol”. Só que, tirando as razões climáticas, o sol já tinha ido embora há muito quando as notas começaram. Se o conceito não se cumpre nem no horário, fica difícil levar a sério o resto da proposta. Dar nome certo às coisas é o mínimo de respeito com o público e com os músicos.

2. Quem estava no palco
Sim, tivemos peso: Jimmy Dludlu, Moreira Chonguiça, Zoco Dimande, Khapa Dech, Arnaldo Manhiça, Onesia Moholowe, Assa Matisse. Músicos de enorme qualidade e que honram a nossa música. O problema não é a qualidade de execução. Os “poucos” fazedores que temos são excelentes e o público que ouve, ouve bem.
A questão é: onde estava o jazz como linguagem? Onde estavam a improvisação ao vivo, a troca entre bandas, o risco de um solo que nasce na hora? Em vários momentos pareceu mais um alinhamento de shows individuais de correntes musicais diversas do que um encontro que respira jazz.

3. O que faltou para ser festival
Pegando nos elementos que caracterizam um festival de jazz:
– Jam sessions: não houve espaço aberto para músicos se encontrarem depois do palco principal. A alma do jazz ficou trancada.
– Workshops e conversas: zero. Nenhuma masterclass, nenhuma conversa com os artistas. Perdeu-se a parte educativa e de formação de público.
– Novos talentos e palcos menores: o foco ficou só nos grandes nomes. Cadê os jovens e as bandas locais que sustentam o jazz no dia a dia?
– Atmosfera comunitária: o evento teve cara de “show off”. Elitizado. O que reforça a dor que muitos amantes e músicos vêm sentindo: a sensação de exclusão do próprio estilo e a perda de credibilidade em produções que usam o rótulo “jazz” como capa.

É por isso que ouvimos nas mesas: “em Moçambique já não há festivais de jazz, prefiro sair para ver lá fora”. Frase dura, mas que nasce do cansaço.

4. O que ainda temos
Maputo já viveu bons momentos: Matola Jazz, celebrações do Dia Internacional do Jazz, concertos grandes e pequenos em casas de pasto. Tínhamos mistura local + internacional, tínhamos proximidade. O jazz moçambicano inclusive ganha quando dialoga com marrabenta e outros ritmos nossos. Isso é riqueza, não erro.

Conclusão
O Jazz ao Pôr do Sol teve músicos de primeira, um cenário lindo na Ponta D’Ouro e público. Mas faltou-lhe festival. Faltou-lhe conceito.

Se vamos continuar a usar a palavra “Jazz”, sejamos rigorosos. Não podemos descredibilizar quem veste as cores do jazz todos os dias e vive do estilo, para depois entregar um encontro de show off com playlist variada.

Talvez o caminho seja mesmo esse: chamar os eventos pelos nomes que eles têm de facto. E deixar “Festival de Jazz” para quando tivermos improvisação, jam, formação e comunidade. Só assim não ferimos sensibilidades e não matamos o pouco que ainda respira com autenticidade.

Porque jazz não é só tocar bem. É estar junto e deixar a música acontecer no momento.

E você, esteve lá? Sentiu jazz ou sentiu show? (X)

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