Um comunicado do Banco BPI, datado de 3 de Setembro de 2026, informa que o banco e a Congolian Financial, S.A. (CFSA), braço financeiro do conglomerado Carrinho e sediada no Lobito, chegaram a acordo para a venda, por parte do BPI, da totalidade da sua participação de 33,35% no Banco de Fomento Angola (BFA).
A operação só se concretizará após o cumprimento de várias condições legais e regulamentares, como a não oposição do Banco Nacional de Angola, a confirmação por parte da Comissão de Mercado de Capitais de que não há obrigação de lançamento de OPA pela CFSA e a não utilização pela Unitel do seu direito de preferência, previsto em acordo parassocial.
O preço acordado inclui uma tranche fixa de 345 milhões de euros, paga na data da transacção, outra tranche fixa diferida, no valor de cerca de 43,5 milhões de euros, e uma tranche variável, correspondente a metade do dividendo do BFA relativo a 2026, com pagamento das tranches diferidas em Maio de 2027.
Esta não é uma operação ordinária e tem impacto sistémico no mercado bancário angolano. Por isso, merece uma reflexão aprofundada.
Em Fevereiro deste ano, explicava-se nestas colunas que, entre 2021 e 2025, o conglomerado Carrinho consolidara uma estratégia de expansão que o projectava para uma posição de influência transversal na economia angolana, estendendo‑se da agro‑indústria à logística e, de forma crescente, ao sector bancário.
A entrada na banca iniciou‑se a 17 de Dezembro de 2021, quando o conglomerado se tornou proprietário do Banco de Comércio e Indústria (BCI). Dois anos e meio depois, em Agosto de 2024, a Autoridade Reguladora da Concorrência autorizou uma nova operação de concentração, permitindo ao conglomerado Carrinho assumir o controlo do Banco Keve, dependente ainda da aprovação do Banco Nacional de Angola. Continua a não haver informação pública sobre o actual e real desempenho da Carrinho no banco Keve.
Em 2025, o conglomerado adquiriu 7,61% do capital social do BFA através da Congolian, a sua subsidiária financeira.
Na altura, o alerta para a criação de um oligopólio bancário que lançámos no Maka Angola mereceu várias invectivas verbais e escritas, ameaças e desmentidos. No entanto, agora esse alerta fica inteiramente confirmado, como se verá abaixo.
Recentemente, a Congolian Financial, veículo financeiro do Grupo Carrinho, transferiu a sua participação de 7,61% no BFA para o fundo AXIOS. Embora tenha deixado de ser accionista directa do banco, a Congolian não perdeu totalmente a sua exposição financeira: recebeu unidades de participação no fundo AXIOS, que representam a sua subscrição no património do fundo e funcionam como instrumento de continuidade económica. Com a aquisição das acções, o AXIOS passou a controlar cerca de 9,85% do capital e dos direitos de voto do BFA, tornando‑se um accionista qualificado. A operação reorganizou a presença do conglomerado Carrinho no sector financeiro: formalmente, o grupo sai da estrutura accionista do BFA, mas na prática preserva influência económica através da participação no fundo.
Agora, vão somar-se os 33,35% do BFA, ficando a Carrinho com a maior posição dentro da estrutura accionista do banco, seguida da Unitel, com 36,9%. Veremos ainda se o Grupo Carrinho não tem já uma posição na Unitel. Recorde-se que Nelson Carrinho tem negado interesse na Unitel, ao contrário dos rumores persistentes no mercado. Quando se souberem as posições dos novos accionistas da Unitel, veremos se a Carrinho está lá ou não, directa ou indirectamente.
A isto acresce a Prospectum Capital, braço de intermediação financeira do Grupo Carrinho, que se tornou um actor cada vez mais relevante no mercado de capitais angolano, acompanhando de perto a fase de maior dinamismo financeiro do Grupo Carrinho. Em 2025 — ano marcado pela privatização do BFA e pela entrada agressiva de novos investidores — a Prospectum deu um salto significativo para a quarta posição no mercado, movimentando 701,290 mil milhões de kwanzas. A ascensão da Prospectum no volume de transacções reflectiu, assim, um mercado em transformação e um ambiente financeiro em que o conglomerado Carrinho se tornou um dos principais motores de movimentação accionista no país.
Em 2016, a propósito do controlo ascendente de Isabel dos Santos no mercado bancário, escrevemos o seguinte: “Se uma pessoa domina o sistema bancário de um país, então essa pessoa pode ter acesso a todas as poupanças desse mesmo país. Este é um primeiro perigo: em caso de necessidade, Isabel dos Santos pode pegar em todo o dinheiro dos depósitos nacionais existentes nesses bancos. Pegar não quer dizer que os ‘roube’ ou que levante o dinheiro, o meta num saco e fuja para o Dubai. Quer dizer simplesmente que pode emprestar o dinheiro das poupanças às suas empresas, que também são as mais relevantes de Angola. Teoricamente, pode ser criado um circuito que, numa situação-limite e sempre possível, desencadeará um efeito dominó.”
Neste momento, o Grupo Carrinho, um dos principais conglomerados do país, com um crescimento acelerado, para lá caminha e tornou-se um quase sucessor de Isabel dos Santos. Se o primeiro caso terminou em tragédia, não se pretende que este termine em farsa.
A junção do BFA, do BCI e do Banco Keve, somada à Prospectum como correctora, cria um grupo financeiro que controlará mais de um quarto do mercado bancário angolano.
Em termos práticos, isto significa que a Carrinho passa a ser o maior conglomerado bancário privado angolano com capital nacional, com capacidade de influenciar crédito, financiamento empresarial e fluxos de poupança. No mercado de capitais, a Prospectum reforça este domínio.
O resultado é um conglomerado com peso e perigo sistémico, pela sua capacidade de condicionar crédito, investimento e cadeias de valor essenciais em Angola. Esta escala só encontra contrapeso parcial no BAI, o único banco com dimensão comparável.
Em termos de eficiência económica, a integração entre banca, corretagem e actividades industriais e logísticas cria um circuito fechado de autofinanciamento. O grupo pode captar poupança através da banca, canalizá‑la para projectos próprios, estruturar operações de mercado através da Prospectum e, simultaneamente, controlar cadeias de valor essenciais. Esta arquitectura reduz a disciplina de mercado: projectos internos podem ser financiados independentemente da sua viabilidade económica, distorcendo a alocação de capital e criando riscos de má afectação de recursos em sectores estratégicos.
É uma transformação que pode comprometer a neutralidade das decisões de crédito, limitar o dinamismo empresarial e aumentar a vulnerabilidade do sistema financeiro a choques internos.
As autoridades de supervisão devem ponderar bem os riscos sistémicos e de vulnerabilidade a choques que esta situação oligopolista vai criar.
Se este é um problema de estrutura de mercado e desenvolvimento do país, há uma segunda questão que se tem levantado ao longo dos anos, sem que tenham surgido resultados ou respostas satisfatórias, a qual deve ser encarada. Trata-se do financiamento do conglomerado para todas estas compras bancárias. Os valores despendidos ultrapassam os 500 milhões de dólares. A isto acresce uma série de investimentos que o grupo tem feito noutras áreas, como o Complexo Industrial da Catumbela, que terá custado cerca de 600 milhões de dólares. Portanto, com muita facilidade, alcançamos os 1000 milhões de dólares.
Sendo certo que a lei não exige que o grupo tenha contas públicas e que a Carrinho tem auditores, a verdade é que, para bem da confiança na economia angolana e num dos seus principais conglomerados, seria importante perceber como é que uma fábrica de massas e bolachas se transformou naquele que talvez seja o maior conglomerado angolano na indústria e no sector da banca. Isto é, conhecer as contas, saber os números, as receitas, as fontes de financiamento, os lucros e os prejuízos.
Estará tudo regular e certo, mas, como se disse há séculos: “Non solum honesta esse, sed etiam videri debent.” (“À mulher de César não basta ser séria, tem de parecer séria.”)

