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Economia Internacional

MUDAM OS PRESIDENTES E CONTINUAM OS CUSTOS DAS INTERVENÇÕES DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Por Jerry Maquenzi

 

A política externa dos Estados Unidos da América (EUA) é frequentemente analisada como um jogo de poder, estratégia e segurança. Fala-se de ameaças, alianças e equilíbrios geopolíticos. No entanto, raramente se coloca a questão mais concreta e, talvez, mais importante. Quanto custam essas guerras, e quem paga por elas?

Dois gráficos analisados neste texto oferecem uma resposta clara e desconfortável. Ao observar a evolução do PIB per capita em países intervencionados e o comportamento dos preços da gasolina nos EUA, torna-se evidente que as intervenções militares não são eventos isolados no tempo e no espaço. Elas produzem rupturas económicas profundas, que se traduzem em perda de rendimento para uns e aumento do custo de vida para outros.

O que emerge não é apenas uma história de guerras, mas uma história de impactos económicos persistentes. E essa história atravessa diferentes administrações presidenciais, sugerindo que o problema não está apenas nas decisões individuais, mas num padrão mais amplo e contínuo.

 

  1. Bill Clinton (1993-2001)

Durante a presidência de Bill Clinton, os EUA intervieram em cenários como Bósnia, Sérvia, Somália e Haiti. Estas intervenções foram frequentemente apresentadas como acções necessárias para travar crises humanitárias e restaurar alguma ordem política (Braga, 2009; Gill, 2017)). E, em certo sentido, cumpriram esse objectivo imediato. Mas os gráficos analisados mostram que parar a guerra não significa reconstruir a economia.

Na Bósnia, por exemplo, o PIB per capita parte de níveis extremamente baixos, abaixo de 1.000 dólares nos anos mais críticos e recupera lentamente para cerca de 2.000 a 3.000 dólares no início dos anos 2000 (gráfico 1). À primeira vista, trata-se de uma melhoria. Mas, na realidade, esse crescimento revela mais sobre a profundidade do colapso anterior do que sobre a força da recuperação. O país não regressa rapidamente a uma trajectória de desenvolvimento robusta, mas permanece dependente de apoio externo e de um processo de reconstrução lento e frágil.

Em contextos como a Somália, o cenário é ainda mais duro. O PIB per capita mantém-se praticamente estagnado, oscilando em níveis extremamente baixos (entre 188 e 244 dólares anual). Aqui, a intervenção não consegue sequer criar as condições mínimas para uma recuperação económica consistente. O resultado é um prolongamento da vulnerabilidade, onde a ausência de instituições impede qualquer transformação estrutural.

Gráfico 1: Evolução do PIB per capita dos EUA e dos países intervencionados, 1993-2024

 

Fonte: Banco Mundial (vários anos)

 

Do lado americano, os preços da gasolina durante este período mantêm-se relativamente estáveis, situando-se entre 1,2 e 1,5 dólares por galão por semana (gráfico 2). Isso sugere que intervenções de menor escala ou com menor impacto geopolítico global não geram pressões significativas nos mercados energéticos. Ainda assim, este período é fundamental porque estabelece um precedente. Os Estados Unidos consolidam a sua posição como potência interventiva, abrindo caminho para fases mais intensas e com impactos económicos mais amplos.

Gráfico 2: Preços Semanais da Gasolina nos EUA (dólares por galão), 1993-2025
Fonte: U.S Energy Information Administration (base de dados)

 

  1. George W. Bush (2001-2008)

A presidência de George W. Bush marca uma mudança profunda na natureza das intervenções. As guerras no Afeganistão e no Iraque não são apenas mais intensas, são estruturalmente transformadoras. E os dados económicos reflectem isso de forma clara.

No Iraque, o PIB per capita, que antes da invasão se situava em torno de 1.266 a 1.435 dólares, mas no ano da invasão registou 818 dólares (gráfico 1). A destruição de infraestruturas, o colapso institucional e a insegurança generalizada criam um ambiente onde o crescimento económico se torna instável e frágil. Mais do que uma queda momentânea, o que se observa é uma década perdida em termos de desenvolvimento.

No Afeganistão, os números contam uma história aparentemente diferente, mas igualmente reveladora. O PIB per capita aumenta de cerca de 200 dólares para valores entre 138 dólares, em 2001 e 381 dólares, em 2008. No entanto, este crescimento não é sustentado por uma base produtiva sólida. Ele depende fortemente de fluxos externos de ajuda e presença internacional. Ou seja, trata-se de um crescimento que existe enquanto a intervenção existe, e que não garante continuidade no longo prazo.

Enquanto isso, nos EUA, o impacto manifesta-se de forma directa no quotidiano das famílias. O preço da gasolina sobe de cerca de 1,5 dólares por galão no início da década para mais de 4 dólares em 2008. Este aumento superior a 160% não é apenas um número; é uma transformação concreta no custo de vida. O transporte torna-se mais caro, os bens encarecem e o orçamento das famílias sofre pressão.

Aqui, a ligação é clara. A instabilidade no Médio Oriente, intensificada pela guerra no Iraque, afecta os mercados petrolíferos globais, transmitindo os custos da guerra para dentro dos EUA. A guerra deixa de ser um fenómeno externo e passa a ser uma realidade económica interna.

  1. Barack Obama (2009-2017)

Com Barack Obama, a estratégia muda, mas os resultados económicos mantêm uma lógica inquietante. Em vez de grandes invasões, multiplicam-se intervenções em países como Líbia, Síria e Iémen. São conflitos menos visíveis para o público americano, mas não menos devastadores para as economias locais.

Na Líbia, o PIB per capita, que antes de 2011 rondava os 11.600 dólares, cai para cerca de 7.594 dólares (gráfico 1). Trata-se de uma redução de aproximadamente 35% no rendimento médio. Para a população, isso significa uma ruptura abrupta no padrão de vida. Significa menos acesso a serviços, menor poder de compra e maior incerteza económica.

Na Síria, o cenário é ainda mais dramático. O PIB per capita cai de cerca de 1.898 dólares para menos de 1.000 dólares. Este colapso superior a 40% reflecte não apenas a guerra, mas a destruição prolongada de uma economia inteira. O país não entra apenas em recessão, entra em colapso.

No Iémen, a trajectória é de deterioração contínua, com o rendimento per capita a cair para níveis extremamente baixos. Aqui, a guerra não produz um choque único, mas um desgaste prolongado que impede qualquer recuperação.

Nos Estados Unidos, os preços da gasolina continuam a oscilar, atingindo níveis entre 3 e 4 dólares por galão em vários momentos (gráfico 2). Embora haja períodos de queda, a volatilidade permanece elevada. Isso indica que a multiplicação de conflitos, mesmo sem grandes invasões, mantém os mercados energéticos em constante tensão.

O padrão torna-se evidente. Quanto mais difusas são as intervenções, mais difusos são os impactos, mas não menos reais.

  1. Donald Trump (2017-2021 e 2025-presente)

A administração de Donald Trump introduz uma nova forma de intervenção, onde o uso de sanções económicas ganha centralidade. Países como Irão e Venezuela tornam-se exemplos claros de como a pressão económica pode ter efeitos tão profundos quanto a intervenção militar.

No Irão, o PIB per capita cai de cerca de 6.000 dólares para aproximadamente 3.997 dólares após o reforço das sanções. Esta redução de cerca de 33% traduz-se numa perda significativa de poder de compra para a população, acompanhada por inflação elevada e instabilidade económica.

Na Venezuela, o colapso é ainda mais acentuado, com uma perda superior a 50% do PIB per capita em poucos anos. Embora a crise tenha múltiplas causas internas, as sanções externas agravam significativamente a situação, intensificando a queda do rendimento e aprofundando a crise social.

Nos Estados Unidos, os preços da gasolina continuam a reflectir essas tensões. Após uma queda em 2020, associada à pandemia da Covid-19, os preços sobem rapidamente, ultrapassando os 1,68 dólares por galão e atingindo picos próximos de 3,2 dólares. Mais uma vez, a instabilidade internacional traduz-se em custos internos.

O ponto central aqui é claro. A guerra mudou de forma, mas não de efeito. As sanções, tal como as bombas, reduzem o rendimento e aumentam a incerteza.

Conclusão

A análise dos dados ao longo das diferentes administrações revela um padrão consistente e difícil de ignorar. De Bill Clinton a Donald Trump, as intervenções dos Estados Unidos da América produziram efeitos económicos claros e mensuráveis.

Nos países intervencionados, o PIB per capita mostra, de forma recorrente, quedas acentuadas, estagnação prolongada ou colapsos profundos. O padrão de vida das populações é directamente afectado, muitas vezes durante anos ou décadas.

Nos Estados Unidos, os preços da gasolina revelam que o custo da guerra não fica no exterior. Ele regressa sob a forma de aumento do custo de vida, afectando directamente o quotidiano das famílias.

O que os gráficos (PIB per capita e preço de gasolina) demonstram, de forma inequívoca, é que a guerra não é apenas uma decisão estratégica, é um fenómeno económico com consequências reais. E enquanto esse padrão persistir, mudar de presidente não significará mudar de impacto. Significará apenas mudar a forma como esses custos são produzidos e distribuídos.

 

Referências

Braga, C. M. (2009). A doutrina da intervenção humanitária no pós-guerra fria: Uma análise crítica da experiência internacional. Porto Alegre. Faculdade de Ciências Económicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Gill, M. B. (2017). Comparing the Foreign Policy Doctrines of Bill Clinton and George W. Bush. Disponível em: https://www.e-ir.info/2017/04/14/comparing-the-foreign-policy-doctrines-of-bill-clinton-and-george-w-bush/.

U.S Energy Information Administration. (base de dados). Petroleum & Other Liquids: Gasoline and Diesel Fuel Update. Disponível em: https://www.eia.gov/petroleum/gasdiesel/.

World Bank. (vários anos). GDP per capita (current US$). Disponível em: https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.PCAP.CD.

 

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