Candongueiros do combustível tomam conta de Pemba enquanto autoridades garantem que não há escassez
Por Quinton Nicuete
Enquanto o Governo insiste que não existe rotura no abastecimento de combustíveis em Moçambique, em Pemba a realidade nas ruas conta outra história: bidões, garrafas e revendedores improvisados transformaram a crise num negócio lucrativo, alimentado à vista das autoridades.
O fenómeno é visível em vários pontos da cidade, com destaque para as bombas da CAMEL, a zona da Casa da Cultura e outros postos de abastecimento, onde revendedores operam a poucos metros das gasolineiras, revendendo gasolina a preços até quatro vezes superiores ao oficial.
No mercado paralelo, o litro chega a custar 300 a 400 meticais, valor muito acima do preço praticado nos postos formais. Um bidão de 20 litros, adquirido no circuito clandestino, pode render cerca de 6 mil meticais, transformando a escassez aparente num negócio altamente rentável.
Segundo relatos recolhidos pela reportagem, o esquema envolve revendedores munidos de vários bidões, que conseguem acesso privilegiado ao produto com a alegada conivência de alguns funcionários das bombas mediante a pagamentos que variam de 100 a 200 meticais por 20 litros.
“Compram com muitos bidões. Os bombeiros, além de cobrarem 100 a 200 meticais por cada bidão, também facilitam a aquisição do combustível para depois dividirem o dinheiro da venda”, relatou uma fonte que acompanha diariamente o movimento junto às bombas.
A mesma fonte afirma que o negócio ocorre sem qualquer discrição.
“Uns até revendem a gasolina a escassos metros das bombas. Os motoqueiros sabem muito bem quem vende”, disse.
A prática, segundo residentes, já se espalhou por vários bairros da cidade, transformando a procura por combustível numa oportunidade para candongueiros e intermediários.
O combustível existe, o problema está na distribuição
O próprio Governo reconheceu, em comunicado divulgado a 19 de Abril, que não há falta física de combustível no país, mas sim disfunções na cadeia de distribuição e dificuldades financeiras de algumas empresas.
O Executivo atribui parte do problema à corrida massiva aos postos, motivada por receios de rotura, e também a dificuldades de liquidez de algumas distribuidoras, que não conseguem mobilizar divisas para levantar combustível nos terminais.
A análise publicada pelo jornalista Marcelo Mosse reforça esta leitura: o problema central não é a inexistência do produto, mas a escassez de dólares no sistema bancário, que impede a emissão de garantias necessárias para libertar as cargas.
Ou seja, o combustível está nos terminais, mas nem sempre chega às bombas.
Essa lacuna acaba por abrir espaço para o mercado negro.
Um negócio feito à luz do dia
O mais inquietante, segundo várias fontes ouvidas em Pemba, é que a revenda ilegal acontece praticamente em frente aos postos, sem intervenção visível da polícia ou das entidades fiscalizadoras.
“É um negócio feito perante o olhar impávido das autoridades”, descreveu um residente.
Em alguns casos, há suspeitas de que parte do combustível alocado aos postos não esteja sequer a entrar integralmente nos tanques, cenário semelhante ao que o próprio Governo admitiu estar a investigar, ao referir discrepâncias entre os volumes levantados nos terminais e os efectivamente recebidos nos postos.
Essa possibilidade levanta dúvidas sérias sobre eventual desvio de produto ao longo da cadeia.
Preço oficial sob pressão
A crise internacional, agravada pelo conflito no Médio Oriente e pelas perturbações logísticas ligadas ao Estreito de Ormuz, está também a pressionar os preços internos.
Fontes do sector petrolífero indicam que a gasolina poderá ultrapassar a barreira dos 90 meticais por litro nas próximas actualizações, caso o Governo deixe de absorver parte do impacto externo.
Enquanto isso, em Pemba, o mercado paralelo já antecipou essa subida, impondo preços que penalizam sobretudo mototaxistas, transportadores e famílias que dependem do combustível para o seu sustento diário.
A crise que gera lucro
No terreno, a conclusão parece clara: a crise transformou-se num negócio.
Não se trata apenas de filas ou receio de rotura. Em vários pontos da cidade, a percepção é de que existe um sistema informal já montado para lucrar com a ansiedade dos consumidores.
E enquanto o Governo fala em normalização, em Pemba os candongueiros continuam a vender combustível à luz do dia. (Moz24h)

