Por Quinton Nicuete
Uma onda de pânico associada a alegados casos de desaparecimento de órgãos genitais está a provocar violência extrema em vários pontos da província de Cabo Delgado, resultando já em pelo menos quatro mortos e vários feridos, num cenário marcado por desinformação, justiça pelas próprias mãos e ausência de comunicação oficial clara.
Os incidentes mais recentes ocorreram no distrito de Mocimboa da Praia, Ancuabe e na cidade de Pemba, envolvendo cidadãos acusados de praticar alegada “magia negra”, num contexto em que o medo se espalha mais rápido do que os factos.
O primeiro homicídio aconteceu na vila autárquicas de Mocímboa da Praia após um idoso ser agredido gravemente até perder.
O segundo foi na localidade de Nanjua, um homem foi morto por populares após ser acusado de tocar jovens e provocar o desaparecimento dos seus órgãos genitais. No entanto, uma fonte da Polícia da República de Moçambique no terreno desmente qualquer evidência desses actos. Segundo a mesma fonte, as pessoas alegadamente afectadas não apresentam sinais físicos que sustentem as acusações, o que levanta fortes suspeitas de que se trata de boatos. O indivíduo linchado era desconhecido na comunidade, aumentando ainda mais as dúvidas sobre os critérios que levaram à sua execução.
Outro caso foi registado na zona de Ntele, onde um homem foi acusado de fazer desaparecer órgãos genitais de três indivíduos. Populares alegam que o suspeito teria sido obrigado a “repor” os órgãos antes de ser violentamente espancado e posteriormente queimado, num acto de justiça popular que evidencia o nível de descontrolo instalado.
Já o quarto, ocorreu no bairro de Muxara, na cidade de Pemba, um cidadão foi acusado após um simples cumprimento. A suposta vítima afirmou ter sentido alterações no seu corpo e apontou o indivíduo como responsável, desencadeando um espancamento público. O episódio ocorreu numa zona movimentada, à vista de várias pessoas, sem qualquer intervenção imediata capaz de travar a violência.
Face à escalada da situação, a Polícia da República de Moçambique confirmou a detenção de 10 pessoas, sendo duas no distrito de Metuge e oito na cidade de Pemba, suspeitas de envolvimento em actos de violência relacionados com estes rumores. Apesar disso, os relatos de perseguições e tentativas de linchamento continuam a surgir, indicando que o fenómeno está longe de ser controlado.
Informações recolhidas no terreno indicam que muitos dos episódios começam com relatos informais de supostos ataques por contacto físico, rapidamente amplificados por conversas comunitárias e redes sociais. Em vários casos, as alegadas vítimas acabam por não apresentar qualquer evidência médica, mas o medo colectivo instala-se e transforma suspeitas em condenações imediatas.
Fontes ouvidas pela reportagem apontam a ausência de posicionamento claro das autoridades como um dos principais factores que alimentam a crise. Até ao momento, não há um pronunciamento detalhado do Ministério da Saúde de Moçambique que esclareça a população sobre a natureza destes alegados fenómenos, o que abre espaço para especulação e desinformação.
Este vazio institucional tem contribuído para que cidadãos assumam o papel de julgadores e executores, ignorando completamente os mecanismos legais. Em vários pontos da província, qualquer suspeita é suficiente para desencadear agressões, muitas vezes fatais, sem qualquer verificação dos factos.
Nas comunidades afectadas, as opiniões dividem-se entre crença e cepticismo. Enquanto alguns defendem que se trata de práticas sobrenaturais, outros consideram que tudo não passa de boatos sem fundamento. No entanto, independentemente da interpretação, os efeitos são concretos e devastadores.
Especialistas alertam que o fenómeno já ultrapassou o campo social e entrou no domínio da segurança pública, podendo agravar-se caso não haja uma intervenção urgente e coordenada. A combinação entre medo, desinformação e silêncio oficial está a criar um ambiente propício à violência descontrolada.
Sem uma resposta clara das autoridades envolvendo sectores como saúde, polícia e liderança comunitária o risco é de novos linchamentos e de aprofundamento da instabilidade social. Neste contexto, o silêncio institucional deixa de ser apenas uma falha de comunicação e passa a ser um factor que, indirectamente, contribui para a perda de vidas.(Moz24h)

