Há momentos em que uma crise deixa de ser apenas uma crise sectorial e passa a ser um teste à capacidade do Estado de responder aos problemas concretos dos cidadãos.
Enquanto as autoridades anunciam medidas para normalizar o abastecimento de combustíveis, moradores, transportadores e mototaxistas continuam a relatar filas, falta de gasolina, redução das viagens e preços que, no mercado informal, chegam a centenas de meticais por litro. Em Namuno, os relatos recolhidos pelo CanalMoz apontam para valores de até 800 meticais por litro; em Balama, cerca de 600 meticais; e em vários outros distritos, entre 200 e 500 meticais, dependendo da disponibilidade.
É transporte. É comida. É comércio. É acesso ao hospital. É rendimento familiar. É mobilidade.
Quando uma motorizada deixa de circular porque o proprietário não consegue encontrar gasolina, não fica parado apenas um motor. Pode ficar parado um trabalhador, um comerciante, um estudante ou uma família que precisa de chegar a uma unidade sanitária.
E este problema não apareceu ontem.
Em Maio, a Confederação das Associações Económicas de Moçambique já alertava para uma situação preocupante em Cabo Delgado. Na altura, representantes empresariais relatavam duas semanas sem gasolina em partes da região norte e dificuldades de abastecimento também em Balama, Namuno e Montepuez.
Meses depois, os relatos continuam.
Em Setembro, Montepuez voltou a registar falta de combustível, com relatos de bombas sem abastecimento durante dias e taxistas impossibilitados de trabalhar normalmente.
A pergunta, portanto, já não é simplesmente quando chegará o próximo camião de combustível.
A pergunta é: por que razão uma província inteira continua tão vulnerável a rupturas de abastecimento?
O Governo anuncia combustível, mas a população continua à procura
O Governo anunciou recentemente a chegada de um navio com cerca de três milhões de litros de gasolina para reforçar o abastecimento. O anúncio é importante, mas, por si só, não resolve a questão central.Combustível num navio não significa necessariamente combustível numa bomba de Namuno, Balama, Muidumbe, Macomia, Quissanga ou Palma.
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Entre o terminal e o consumidor existe uma cadeia logística que precisa de funcionar.
É justamente nessa cadeia que a população continua a encontrar dificuldades.
Se o produto chega, mas não chega regularmente aos distritos; se chega às bombas, mas desaparece rapidamente; se existem longas filas; se os transportadores passam dias à espera; e se o mercado informal vende o litro por várias vezes o preço oficial, então existe um problema que precisa de explicação.
E quem paga essa diferença?
É a população.
Não há estradas, há combustível caro e há longas distâncias
Cabo Delgado tem ainda outro problema estrutural: as dificuldades de mobilidade.
Em muitas comunidades, a motorizada não é um luxo. É o principal meio de transporte.
É com uma motorizada que o pequeno comerciante chega ao mercado. É com uma motorizada que o agricultor transporta a produção. É com uma motorizada que uma família pode tentar levar uma pessoa doente ao centro de saúde.
Quando o combustível falta, a distância torna-se ainda maior.
E quando o combustível aparece a 500 ou 600 meticais por litro, a distância transforma-se numa factura que muitas famílias simplesmente não conseguem pagar.
É aqui que a crise de combustível deixa de ser económica e passa a ser também social.
Até uma ambulância entrou nesta crise
O problema tornou-se suficientemente grave para envolver até meios destinados ao serviço público.
Segundo informação prestada pela porta-voz da PRM em Cabo Delgado, Eugénia Nhamussua, foram encontrados 30 galões de combustível numa ambulância pública.
A responsável esclareceu, contudo, que o simples transporte do combustível não constitui, por si só, um crime da competência da Polícia. Segundo Nhamussua, os envolvidos deverão ser averiguados pelas entidades competentes, enquanto a PRM presta apoio à Inspecção-Geral dos Recursos Minerais e Energia (IGREME), entidade para a qual o combustível apreendido é encaminhado.
O episódio merece esclarecimento precisamente porque ocorre num momento de escassez.
Não se deve transformar automaticamente o caso numa acusação criminal. Mas também não se pode ignorar a pergunta de interesse público: por que razão uma ambulância pública estava associada ao transporte de 30 galões de combustível num contexto de forte pressão sobre o abastecimento?
A resposta cabe às entidades competentes.
O mercado informal tornou-se a resposta à falha do mercado formal?
Quando uma pessoa consegue encontrar gasolina fora da bomba, mas paga várias vezes mais, surge outra pergunta incómoda.
O mercado informal está apenas a aproveitar uma crise ou está a preencher um vazio deixado pelo sistema formal de abastecimento?
A questão é particularmente importante para localidades onde não existem postos funcionais ou onde o abastecimento é irregular.
A fiscalização do comércio ilegal de combustível é necessária. Mas fiscalização sem alternativa pode produzir outro efeito: deixar comunidades inteiras sem acesso ao produto.
Se o Estado apreende combustível vendido informalmente, precisa igualmente de garantir que o combustível legal chega às comunidades que dependem dele.
Caso contrário, combate-se o sintoma sem resolver a causa.
E quem responde pela crise?
É aqui que o Governo de Cabo Delgado precisa de responder de forma clara.
500 mil meticais evaporam no Aviator: funcionária da bomba deixa candongueiros sem combustível em Pemba – https://moz24h.co.mz/500-mil-meticais-evaporam-no-aviator-funcionaria-da-bomba-deixa-candongueiros-sem-combustivel-em-pemba/
Não basta dizer que o combustível chegou.
É preciso dizer quanto chegou, onde foi distribuído, quanto foi entregue a cada distrito, quantas bombas estão efectivamente abastecidas e que mecanismos existem para impedir que a crise volte a repetir-se poucos dias depois.
É preciso explicar por que razão uma província que possui Pemba como terminal de distribuição continua a apresentar relatos de escassez tão severos em vários distritos.
É preciso explicar como se garante o abastecimento das zonas afectadas pela insegurança.
É preciso explicar como os transportadores conseguem trabalhar.
E é preciso dizer o que está a ser feito para impedir que o preço informal continue a afastar o combustível das famílias mais pobres.
Estas não são perguntas partidárias.
São perguntas de administração pública.
Cabo Delgado sem governo?
O título pode parecer provocatório. Mas é precisamente a realidade que o cidadão comum pode começar a questionar quando os problemas básicos se acumulam.
Candongueiros do combustível em Pemba – https://moz24h.co.mz/candongueiros-do-combustivel-em-pemba/
Uma província não é governada apenas através de cerimónias, comunicados ou anúncios.
Governa-se quando o cidadão consegue deslocar-se.
Quando o comerciante consegue transportar a sua mercadoria.
Quando o doente consegue chegar ao hospital.
Quando o motorista consegue abastecer para trabalhar.
Quando uma família não precisa de gastar uma parte desproporcional do seu rendimento apenas para conseguir alguns litros de gasolina.
A população de Cabo Delgado não está interessada apenas em saber que existe combustível num navio.
Quer saber quando esse combustível estará efectivamente disponível na sua comunidade e a que preço.
Porque três milhões de litros podem ser uma grande quantidade no papel. Mas, para quem está numa fila há dois, três ou sete dias, a única quantidade que interessa é aquela que chega à bomba onde está.
E enquanto o Governo anuncia abastecimento, enquanto as autoridades procuram controlar o mercado informal e enquanto os responsáveis procuram explicar a situação, os cidadãos continuam a fazer a mesma coisa: procurar gasolina.
É aí que está o verdadeiro teste.
Não no anúncio.
Na bomba.
Não no comunicado.
Na estrada.
Não no discurso.
Na vida das pessoas.
Cabo Delgado precisa de respostas que possam ser vistas nas comunidades e não apenas anunciadas pelos microfones. (Moz24h)