Economia

Governador do Banco de Moçambique alerta para crescimento económico lento e crédito quase estagnado

O Governador do Banco de Moçambique, Felisberto Navalha, considera que a recuperação da economia nacional continua lenta e insuficiente para melhorar significativamente as condições de vida da população. Até Setembro de 2026, o crédito bancário à economia cresceu apenas 0,5% em comparação com igual período do ano passado, num contexto de dificuldades de financiamento às empresas e de acesso a divisas.

Os dados foram apresentados esta quarta-feira, 28 de Outubro, durante a abertura do 51.º Conselho Consultivo do Banco de Moçambique, realizado na cidade de Tete, onde o responsável abordou a evolução da economia, a inflação, a política monetária e as reformas em curso no sistema financeiro.Segundo Navalha, depois de uma contracção económica de 0,2% em 2025, Moçambique registou um crescimento de 1,7% no segundo trimestre de 2026, desempenho que o governador considera ainda distante do potencial económico do país.

A evolução ocorre num cenário internacional marcado por tensões geopolíticas no Médio Oriente e na Europa, com repercussões nos preços dos combustíveis, dos alimentos, dos transportes e dos serviços logísticos.

Inflação continua a pressionar a economia

No domínio dos preços, o governador indicou que a inflação anual acelerou de 4,41%, em Abril, para 7,51%, em Junho, antes de recuar para 6,31%, em Setembro. A subida registada no segundo trimestre esteve associada, entre outros factores, ao ajustamento dos preços dos combustíveis líquidos.

Perante estas pressões, o Banco de Moçambique manteve uma orientação monetária prudente. Em Março, interrompeu o ciclo de redução da taxa de juro de política monetária, mantendo a taxa MIMO em 9,25%. Em Maio, elevou de 29% para 39% o coeficiente de reservas obrigatórias sobre os depósitos em moeda nacional, procurando reduzir a liquidez disponível no sistema bancário e conter pressões inflacionárias.

Navalha apontou igualmente o crescimento da dívida pública e a acumulação de atrasados do Estado como factores que condicionam a descida das taxas de juro e a disponibilização de crédito ao sector produtivo.

Bancos mantêm indicadores de solidez

Apesar dos constrangimentos económicos, o governador afirmou que o sistema financeiro nacional continua a apresentar indicadores de solidez.

Em Setembro de 2026, o rácio de solvabilidade do sector bancário situava-se em 29%, enquanto o rácio de liquidez atingia 55,5%, ambos acima dos mínimos regulamentares. No mesmo período, o crédito malparado permanecia em torno de 7%.

Entretanto, a evolução do financiamento à economia continua limitada. O crescimento de apenas 0,5% do crédito bancário até Setembro evidencia as dificuldades de expansão do financiamento às empresas e a outros agentes económicos.

Para responder a este cenário, o Banco de Moçambique introduziu alterações no regime de reservas obrigatórias, com efeitos a partir de 28 de Outubro e duração prevista de 18 meses. A medida permite que os bancos beneficiem de deduções nas reservas obrigatórias em moeda nacional quando concedem novos créditos destinados a projectos que contribuam para substituir importações e diversificar as exportações.

A iniciativa prevê o apoio do Fundo de Garantia Mutuária, que deverá contribuir para a partilha de riscos e facilitar o acesso ao financiamento, sobretudo por parte das micro, pequenas e médias empresas.

O banco central reduziu também a ponderação de risco aplicável aos créditos concedidos com garantia daquele fundo.

Falta de divisas persiste apesar do aumento das transacções

O mercado cambial continua a apresentar dificuldades, apesar do crescimento das operações realizadas pelos bancos comerciais.

Até Setembro, as compras de divisas pelos bancos atingiram 6,50 mil milhões de dólares, mais 859 milhões de dólares em relação ao período homólogo de 2025. As vendas aos clientes totalizaram 6,41 mil milhões de dólares, representando um aumento de 718 milhões de dólares.

Apesar destes volumes, continuam a ser reportadas dificuldades no acesso a moeda estrangeira, situação que, segundo Navalha, evidencia fragilidades na distribuição da liquidez e no funcionamento do mercado cambial.

O governador afirmou, contudo, que o país mantém reservas internacionais equivalentes a cerca de cinco meses de importações de bens e serviços, excluindo os grandes projectos.

Entre as reformas anunciadas está a entrada em funcionamento, até Dezembro deste ano, de uma plataforma centralizada de negociação cambial, que permitirá ao Banco de Moçambique acompanhar o mercado em tempo real.

A instituição introduziu igualmente uma Central de Monitoria do Uso de Cartões Bancários no Exterior, destinada a consolidar informações sobre a utilização desses instrumentos pelos titulares, independentemente do banco emissor.

METIX regista crescimento das transacções

Na área dos pagamentos, Navalha destacou a aprovação da nova Lei do Sistema Nacional de Pagamentos pela Assembleia da República, instrumento que reforça as regras de transparência, protecção dos consumidores, concorrência, inovação e segurança das transacções.

O governador salientou também o desempenho do METIX, o primeiro Sistema de Pagamentos Instantâneos de Moçambique, lançado em Março de 2026.

Segundo os dados apresentados, o número médio diário de operações aumentou de aproximadamente três mil, no início do funcionamento, para cerca de 12 mil em Outubro, sinalizando uma maior utilização da plataforma.

No domínio da inclusão financeira, o responsável defendeu a necessidade de ir além do acesso aos serviços bancários e promover uma utilização mais efectiva, sobretudo nas zonas rurais, com maior incentivo à poupança e ao acesso responsável ao crédito.

Fundo Soberano acumula 153 milhões de dólares

Durante a intervenção, o governador apresentou igualmente dados sobre o Fundo Soberano de Moçambique, cujos activos atingiram aproximadamente 153 milhões de dólares até Outubro de 2026.

O valor resulta de uma injecção inicial de 110 milhões de dólares, proveniente das receitas do gás natural e realizada em Dezembro de 2025, bem como da evolução posterior dos activos. Do montante acumulado, cerca de 149 milhões de dólares correspondem ao capital, segundo os dados apresentados.

Navalha afirmou que a gestão do fundo deve privilegiar uma perspectiva de longo prazo, com prudência e transparência, para reforçar a capacidade do país de responder a choques económicos e preservar os benefícios dos recursos naturais para as gerações futuras.

O banco central está também a preparar, em coordenação com o Ministério dos Recursos Minerais e Energia, um plano para operacionalizar a aquisição de ouro produzido no país, com o objectivo de diversificar as reservas internacionais.

Transformação digital e inteligência artificial

No plano institucional, o Banco de Moçambique está a implementar uma estratégia de transformação digital destinada a simplificar procedimentos, melhorar a qualidade da informação e reduzir o tempo de resposta dos serviços.

A instituição prepara igualmente a aplicação de uma política de inteligência artificial, que deverá estabelecer princípios para a utilização responsável, segura e transparente desta tecnologia, incluindo a avaliação permanente dos riscos associados.

Economia deverá recuperar moderadamente em 2027

Para 2027, Navalha antevê uma recuperação económica moderada, impulsionada pela agricultura, indústria extractiva e serviços. Contudo, alertou para a permanência de riscos internos e externos capazes de afectar o crescimento e a evolução dos preços.

Entre os factores de incerteza internos, destacou a trajectória da dívida pública, os atrasados do Estado e os possíveis impactos dos choques climáticos, com particular atenção ao fenómeno El Niño.

No plano internacional, as tensões geopolíticas e os seus efeitos sobre o comércio, a disponibilidade de bens e os preços dos combustíveis e alimentos continuam a representar riscos para a economia nacional.

O governador defendeu, por isso, que a política monetária deve ser acompanhada pela consolidação fiscal, pela melhoria do ambiente de negócios e pela implementação de reformas estruturais capazes de estimular o investimento e a criação de emprego.

O 51.º Conselho Consultivo do Banco de Moçambique decorre de 28 a 30 de Outubro.Os primeiros dois dias estão reservados à discussão de matérias internas da instituição, enquanto o último será dedicado a uma sessão pública sobre os desafios e as oportunidades do aproveitamento do potencial energético de Tete para a segurança energética de Moçambique. (Moz24h)

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