Cultura

“A Moura do fado das marés”

O que se deslumbra*

Nasce o verso na penumbra,
as musas fogem sem aviso.
A poesia já não deslumbra,
perde o chão e o juízo.

Mas se a Moura, da voz-marés,
disser adeus,
caio de joelhos a seus pés:
desacabo-me dos versos meus.

Não há remédio que me cure,
nem maré que me refaça.
Se ela partir, não me procure —
viro silêncio e fumaça.

E não é hipérbole, não,
nem exagero de poesia —
ma, per favore —
é catástrofe no coração,
é Pompeia em pleno dia.

Se a voz dela se cala,
se a maré deixa o fado de cantar,
até o poema se desarma
e já não sabe onde rimar.

* Ismael Miquidade, in “A Moura do fado das marés”

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