Augusto Kaweca Navanga acusa dirigentes de ignorarem as reclamações da população e questiona diferenças no acesso às oportunidades geradas pelo gás em Cabo Delgado
O veterano da luta de libertação nacional Augusto Kaweca Navanga protagonizou um discurso de forte contestação contra um grupo políticos, deputados da Assembleia da República, durante uma auscultação da população numa visita de trabalho aos distritos do norte da província de Cabo Delgado, questionando aquilo que considera ser o distanciamento entre as promessas feitas às populações e a realidade vivida em Cabo Delgado.
“Cabrito come onde está amarrado. É esta coisa que vos mata. Isso não está sendo apagado nas nossas mentes. O meu pedido é que podem apagar nas vossas mentes. Vocês não são cabritos, são pessoas.” rebateu Navanga.
O veterano questionou ao deputados ainda a capacidade dos responsáveis políticos de responderem às preocupações apresentadas pelas comunidades, afirmando que o descontentamento popular aumenta sempre que os dirigentes visitam a província.
A guerra que há anos afecta Cabo Delgado também esteve no centro do discurso. Navanga criticou a continuidade do conflito e questionou o facto de dirigentes se deslocarem à província por via aérea, enquanto as populações continuam expostas aos efeitos da violência.
“Nós estamos cansados e também a população temos medo da guerra. Não é assim, dirigentes!” disse Augusto.
O veterano foi ainda mais longe ao questionar o discurso oficial sobre a unidade nacional. Na sua intervenção, afirmou que o país enfrenta profundas divisões regionais e chegou a defender a necessidade de discutir a própria organização do Estado.
“Eu costumo falar de unidade nacional enquanto o país já está dividido. Centro, norte e sul.” contou.
As declarações mais contundentes surgiram quando Navanga abordou a exploração dos recursos naturais de Cabo Delgado, particularmente o gás natural na região de Palma.
Segundo o veterano, as comunidades locais não estariam a beneficiar proporcionalmente das oportunidades económicas associadas aos grandes projectos. Afirmou que, nas áreas de exploração, os habitantes de Cabo Delgado seriam pouco representados, incluindo em funções consideradas básicas.
“Hoje, vai lá em Palma onde está a riqueza do gás. Não vai encontrar nem Maconde, nem Macua de Pemba. Até cozinheiros vêm de Maputo. Os chefes vêm de Maputo. Tudo Maputo.” contou o veterano.
Navanga afirmou que a percepção de exclusão alimenta o sentimento de exploração entre as populações do norte, dirigindo um apelo directo aos deputados da Assembleia da República para que levem estas preocupações ao Parlamento.
O veterano também questionou se os representantes eleitos terão coragem de reproduzir, na Assembleia da República, as críticas feitas pelas comunidades no terreno.
“Eu tenho televisão. Quero ver o que vão falar lá na Assembleia da República. Isso que estou aqui a falar nem vão falar lá.” disse Kaweca
Com o cabelo branco, Augusto Kaweca Navanga recordou o seu passado como combatente, afirmando ter participado na luta de libertação nacional e posteriormente na guerra dos 16 anos.
A sua intervenção termina com um apelo aos dirigentes para que escutem a população e não ignorem as suas reclamações, num discurso que expõe o crescente desconforto em torno da guerra, da governação e da distribuição das oportunidades económicas em Cabo Delgado.
Assista vídeo na íntegra: