Mais de 154 mil crianças, adolescentes e cuidadores receberam apoio comunitário de saúde mental e apoio psicossocial da UNICEF em Moçambique até Julho de 2026, num período marcado pelo agravamento da insegurança no norte, novas deslocações populacionais e riscos crescentes associados ao clima e à saúde pública.
De acordo com um relatório recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), só em Julho, 24 603 crianças, adolescentes e cuidadores beneficiaram destes serviços, numa altura em que a violência e os deslocamentos continuam a afectar particularmente as comunidades de Cabo Delgado, Nampula e Niassa.
Dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM) indicam que 3729 pessoas se deslocaram entre as três províncias durante Julho, incluindo 1575 crianças, 1145 mulheres e 1009 homens. Cabo Delgado concentrou 3698 dos movimentos registados.
A violência foi identificada como o principal factor de deslocação, seguida pela intenção de regressar às zonas de origem e pelo receio de novos ataques. Desde o início de 2026, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários contabilizou 28 163 pessoas deslocadas devido ao conflito, sendo mulheres e crianças cerca de 65% do total.
A pressão sobre as comunidades estende-se ao sector da saúde. Durante Julho, a UNICEF apoiou 109 842 mulheres e crianças no acesso a cuidados de saúde primários, enquanto 51 124 crianças entre os 6 e os 59 meses receberam suplementos de vitamina A.
O quadro epidemiológico continua igualmente a exigir atenção. Embora a transmissão da cólera tenha diminuído, Manica e Sofala registavam, até 31 de Julho, 386 e 383 casos cumulativos, respectivamente, com três mortes em Manica e quatro em Sofala.
O sarampo apresentou uma evolução mais preocupante, com 2169 casos e três mortes contabilizados até ao final de Julho, contra 1630 casos no final de Junho. Nampula concentrava 1070 casos, seguida por Sofala, com 539, e Zambézia, com 278.
Na educação, as intervenções da UNICEF alcançaram 22 647 crianças através de programas formais e não formais durante Julho, num contexto em que os deslocamentos e a instabilidade continuam a dificultar o acesso regular aos serviços básicos, aponta o documento.
As necessidades humanitárias são ainda agravadas pelas perspectivas climáticas. A previsão divulgada em Julho apontava para uma probabilidade de 100% de persistência do fenómeno climático El Niño até ao início de 2027, com os efeitos mais intensos esperados no final deste ano.
Défice de 49% limita resposta às necessidades humanitárias
Maputo, Gaza e Inhambane estão entre as províncias que poderão enfrentar maior pressão, devido à previsão de chuvas abaixo da média, períodos prolongados de seca e temperaturas superiores ao normal. O cenário ameaça a produção agrícola e os rendimentos das famílias, aumentando os riscos de insegurança alimentar.
As intervenções de água, saneamento e higiene realizadas pela UNICEF alcançaram 73 097 pessoas em Julho, numa resposta que procura reduzir os riscos associados às condições sanitárias e à vulnerabilidade das comunidades afectadas pela crise.
Apesar da continuidade das operações humanitárias, a agência das Nações Unidas assinala constrangimentos financeiros significativos. O apelo humanitário da organização para Moçambique em 2026 ascende a 58,8 milhões de dólares, mas o défice de financiamento permanece em 49%, afectando “a capacidade do organismo de responder plenamente às necessidades das crianças e dos seus cuidadores”.
O relatório estima que um milhão de crianças necessitem actualmente de assistência humanitária no País, num universo de 1,8 milhão de pessoas em situação de necessidade, incluindo mais de 506 mil deslocados internos relacionados com o conflito e cerca de 715 mil regressados às zonas de origem. (DR)

