*Por Alfredo Mondlane | Economista | Especialista em Finanças*
Em Fevereiro de 2025, escrevi — publicamente e sem rodeios — que Moçambique caminhava para uma recessão técnica, e que esta era apenas uma questão de tempo. Na altura, fui acusado de pessimismo, de querer criar alarme injustificado, e de descredibilizar os esforços económicos em curso. Hoje, os números não só confirmam essa previsão, como expõem uma verdade que muitos insistiram em ignorar: a economia moçambicana já se encontrava doente — e agora os sintomas tornaram-se incontroláveis.
Com a divulgação oficial dos dados do INE, que apontam para uma nova contracção de -3,92% no primeiro trimestre de 2025, após os -5,73% do último trimestre de 2024, Moçambique entra formalmente em recessão técnica. Trata-se do pior início de ano económico da última década. E, infelizmente, não constitui surpresa para quem seguiu os fundamentos económicos com atenção e isenção.
Não Foi a Política, Nem o Clima — Foi a Negação Prolongada.
Muitos atribuíram a desaceleração ao ambiente pós-eleitoral. Agora, procuram explicar a recessão com base nos choques climáticos — como o ciclone Jude ou o fenómeno El Niño. Mas a realidade é que os sinais de fragilidade estrutural estavam presentes muito antes. Desde o primeiro trimestre de 2024 que a economia dava sinais de exaustão: desaceleração do crescimento, queda do investimento, aumento da dependência externa e debilidade do tecido produtivo.
O que fiz foi apenas ler os dados com rigor e antecipar as consequências da inércia política e económica. Enquanto outros optaram por discursos reconfortantes, assumi o risco de dizer o que precisava de ser dito: o modelo económico vigente estava a esgotar-se.
O Tempo Deu Razão — Mas o País Perdeu Tempo.
Agora que a recessão é um facto estatístico, a questão central impõe-se: por que razão nada foi feito quando ainda havia margem de manobra? Durante meses, os decisores refugiaram-se em narrativas de “resiliência” e “estabilidade”, ignorando avisos claros sobre a estagnação produtiva, a erosão da competitividade e o desequilíbrio das contas públicas.
Mais grave ainda: continuamos sem reformas estruturais em curso. Já estamos a meio de 2025 e o país mantém-se sem um plano estratégico coerente — apenas a reagir, de forma improvisada, à crise instalada.
A Recessão Técnica Pode Tornar-se Social
Se a trajectória actual não for rapidamente corrigida, as consequências serão duras:
• A recessão técnica poderá evoluir para uma recessão prolongada, com impacto severo sobre o emprego, a pobreza e a coesão social;
• A confiança dos investidores poderá deteriorar-se ainda mais, comprometendo o fluxo de capital e o financiamento externo;
• O sistema bancário enfrentará riscos crescentes, com subida da inadimplência e tensões de liquidez.
Não Se Trata de Ter Razão — Trata-se de Mudar de Rumo
Este artigo não visa celebrar uma previsão acertada, mas sim reforçar a urgência de uma mudança de rumo. Perdemos tempo valioso a negar a realidade. A janela para agir ainda existe — mas está a fechar-se rapidamente.
É imperativo:
• Um choque de reformas coordenadas ao nível fiscal, monetário e produtivo;
• Um plano de investimento público-privado nos sectores com maior efeito multiplicador, como a agro-indústria, energia e infra-estruturas;
• Uma reforma profunda na governação económica, focada na eficiência, transparência e execução.
A Economia Não Perdoa Quem Silencia a Verdade.
A economia não responde a discursos, responde a decisões. Ao longo dos últimos meses, mantive-me coerente com os dados, mesmo quando isso significou contrariar o discurso dominante. Hoje, a recessão é uma realidade — e o tempo provou tudo aquilo que foi dito.
Agora é momento de provar que ainda é possível reconstruir. Com coragem, com seriedade, e com visão.

