• Circo de Ratos no Palácio do Povo Ausente
A Praça da Independência, às moscas,
com a cara da vergonha nas encostas.
Assinam no escuro, entre copos e risos —
democracia morta nos próprios avisos.
Professores, enfermeiros, operários, camponeses,
marcham feridos por mil reveses.
A fome nos olhos, o grito na garganta,
mas o poder só canta se o povo se espanta.
Mais armas que pessoas — desfile insolente,
povo impedido, tratado como delinquente.
Chamboqueado à entrada, tiros ao ouvido,
guarda pretoriana de máscaras, no abrigo.
“L’État, c’est moi!”, dizem sem vergonha,
absolutistas de meia tigela, reis sem fronha.
Lágrimas de crocodilo na TV brilhante,
mentiras bem vestidas num palanque arrogante.
Mas entendam bem: nós somos a maioria!
O povo não dorme, só afia a rebeldia.
Ismael Miquidade
