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SERNIC anuncia um ano sem raptos, mas ONU e ACLED documentam sequestros no Norte de Moçambique

Dados das Nações Unidas apontam para 249 pessoas raptadas em Cabo Delgado, Niassa e Nampula no primeiro semestre de 2026, enquanto a ACLED documentou novos sequestros de civis, incluindo crianças e pescadores, em Agosto e Setembro.

O Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) anunciou que Moçambique completou um ano sem registo de crimes de rapto, uma declaração que contrasta com os dados de organizações internacionais que continuam a documentar sequestros de civis nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula, no Norte do país.

O director-geral do SERNIC, Ilídio Miguel, apresentou o balanço a 13 de Outubro, durante uma conferência de imprensa em Maputo, atribuindo os resultados à reorganização institucional, ao reforço da capacidade operacional e à coordenação com a Polícia da República de Moçambique (PRM).

Contudo, dados divulgados pelo Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) apontam para uma realidade distinta nas regiões afectadas pelo conflito armado. Segundo a Zitamar News, que citou informações da agência humanitária da ONU, 249 pessoas foram raptadas nas províncias de Cabo Delgado, Niassa e Nampula entre Janeiro e Junho de 2026, contra 337 no mesmo período de 2025.

O relatório das Nações Unidas mostra que os raptos continuam a ser utilizados de forma sistemática por grupos armados para exigir resgates, obter mão-de-obra forçada e recrutar pessoas, incluindo crianças. As vítimas incluem moradores de comunidades rurais, pescadores, agricultores, transportadores e mineiros, cujos casos nem sempre recebem a mesma atenção pública que os raptos de empresários nas grandes cidades.

Os dados levantam uma questão central sobre o alcance da declaração do SERNIC: quando a instituição afirma que o país está há um ano sem registo de raptos, está a referir-se a todas as categorias de sequestro em território nacional ou apenas aos casos de criminalidade organizada urbana?

ACLED documenta novos raptos em Agosto e Setembro

A organização independente de monitorização de conflitos armados ACLED, em parceria com a Zitamar News, também documentou novos episódios de sequestro no Norte de Moçambique durante os meses de Agosto e Setembro de 2026.

No relatório de Outubro, a ACLED indica que o grupo armado conhecido como Estado Islâmico de Moçambique intensificou os ataques contra civis nos distritos de Mocímboa da Praia, Muidumbe e Macomia, tendo voltado a ameaçar comunidades de Nangade, em Cabo Delgado.

Em Setembro, foram registados 19 ataques contra civis, contra 11 em Agosto e nove em Julho. A organização refere ainda que 11 ataques a comunidades civis envolveram raptos e que, em cinco desses incidentes, foram reportados pagamentos de resgates entre 1.500 e 70 mil meticais.

Estes números referem-se a incidentes, e não ao total de pessoas raptadas. Cada ataque pode envolver várias vítimas, pelo que não devem ser interpretados como uma contagem individual de todos os sequestrados.

Um dos casos mais graves ocorreu a 3 de Setembro, quando homens armados atacaram um acampamento turístico na província do Niassa. Segundo a ACLED, três reféns um sul-africano, um zimbabueano e um moçambicano foram libertados a 4 de Outubro, depois do pagamento de um resgate de 3,2 milhões de meticais, de acordo com uma fonte local.

A libertação dos três reféns, mais de um mês depois do ataque, demonstra que os sequestros associados ao conflito continuaram a produzir vítimas e a exigir negociações e pagamentos de resgates durante o período em que o SERNIC afirma não haver registo de raptos no país.

Crianças e pescadores entre as vítimas

Em Mocímboa da Praia, Cabo Delgado, a ACLED registou raptos de moradores dos bairros Filipe Nyusi e Josina Machel a 14 de Agosto. As estimativas recolhidas junto de fontes locais divergiam consideravelmente: algumas apontavam para seis crianças, enquanto outras referiam até 50 mulheres. Segundo a organização, algumas vítimas poderão ter sido libertadas após o pagamento de resgates.

A mesma análise refere o rapto de pescadores na ilha de Tambuzi e uma onda mais ampla de sequestros de pescadores ao largo da costa de Macomia. Em vários casos, não foi possível determinar se as vítimas foram levadas para exigir dinheiro às famílias ou para recrutamento forçado.

A situação é particularmente preocupante porque as vítimas vivem, em muitos casos, em comunidades com poucos recursos para pagar resgates ou obter assistência imediata. A ausência de informação conclusiva sobre o destino de algumas pessoas também dificulta a contabilização do número total de vítimas.

Mais de 400 incidentes de conflito no primeiro semestre

Num relatório divulgado em Agosto, intitulado Moçambique: O custo da inação, o OCHA contabilizou mais de 400 incidentes de conflito armado durante os primeiros seis meses de 2026, um aumento de 10% em comparação com o mesmo período de 2025.

O documento inclui homicídios, raptos, destruição de habitações e pilhagens, alertando para o uso crescente de sequestros para obtenção de resgates e recrutamento forçado, incluindo de crianças.

O mesmo relatório estima que cerca de 1,38 milhões de pessoas continuavam a viver com as consequências da deslocação em Cabo Delgado, das quais aproximadamente 662 mil permaneciam deslocadas e 722 mil tinham regressado às suas zonas de origem. O regresso, porém, não significa necessariamente o restabelecimento da segurança, uma vez que muitas comunidades continuam expostas à violência e à perda de meios de subsistência.

Estes dados não permitem concluir que todas as pessoas deslocadas tenham sido vítimas de rapto, mas evidenciam o contexto de insegurança em que continuam a ocorrer sequestros e outros crimes contra civis.

SERNIC deve esclarecer o alcance das estatísticas

A declaração de Ilídio Miguel não esclarece publicamente, pelo menos na informação divulgada pela Integrity Magazine, se o balanço abrange os raptos atribuídos a grupos armados nas zonas de conflito, nem apresenta uma discriminação por província ou categoria criminal.

A discrepância entre o anúncio oficial e os dados divulgados pelas organizações internacionais torna necessário esclarecer os critérios utilizados pelo SERNIC para contabilizar os raptos em Moçambique.

Uma possibilidade é que a instituição esteja a referir-se especificamente aos raptos urbanos associados à criminalidade organizada e a exigências de resgates, fenómeno que afectou durante anos empresários e famílias nas principais cidades do país. No entanto, essa interpretação precisa de ser confirmada oficialmente.

O SERNIC deve esclarecer se os casos registados em Cabo Delgado, Niassa e Nampula são incluídos nas estatísticas nacionais, como são recolhidas as informações sobre vítimas desaparecidas e se existe um mecanismo de cruzamento de dados com a PRM, as autoridades locais e as organizações que monitorizam o conflito armado.

Sem essa explicação, a afirmação de que Moçambique completou um ano sem registo de raptos corre o risco de ser interpretada como se não houvesse sequestros em nenhuma parte do território nacional.

Os dados da ONU e da ACLED não demonstram, por si só, que o SERNIC tenha omitido deliberadamente casos das suas estatísticas. Demonstram, contudo, que os raptos associados ao conflito armado continuam a ser documentados no Norte do país e que o alcance do balanço oficial precisa de ser esclarecido. (Moz24h)

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