Por: Castro Cleiton
Moçambique está a mudar. Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais visível uma transformação na forma como muitos cidadãos acompanham e comentam a vida política, económica e social do país. As redes sociais deram um novo impulso a essa participação, permitindo que pessoas que antes não tinham espaço nos meios tradicionais de comunicação expressem opiniões, questionem decisões públicas e debatam os problemas das suas comunidades.
Mas, no meio dessa crescente participação social, há questões profundas que continuam a receber pouca atenção. Enquanto os debates públicos se concentram muitas vezes em assuntos passageiros, há perguntas estruturais que deveriam ocupar mais espaço na televisão, na rádio, nas universidades e nas próprias comunidades.
Uma delas é esta: que tipo de sociedade estamos a construir?
Nos últimos anos, multiplicaram-se igrejas, mesquitas e outros espaços de culto em várias partes do país. A questão não é saber se as pessoas devem ou não ter liberdade para professar a sua fé. Essa liberdade deve ser respeitada. A questão é outra: o que significa, para o desenvolvimento de Moçambique, o crescimento dos espaços religiosos quando, ao mesmo tempo, continuamos com enormes défices de escolas, bibliotecas, centros de formação técnico-profissional, laboratórios, oportunidades de emprego e espaços de produção de conhecimento?
Precisamos de coragem para fazer esta pergunta sem medo de sermos acusados de atacar a religião.
Quantos dos nossos problemas sociais estão realmente a ser resolvidos dentro das comunidades religiosas?
Se uma pessoa passa horas num espaço de culto todas as semanas, mas continua sem procurar adquirir conhecimentos, desenvolver competências, criar um negócio, ensinar os filhos ou participar na resolução dos problemas da sua comunidade, será que a sua fé está a produzir transformação social?
E mais: será que a mensagem religiosa que chega às comunidades está sempre a incentivar as pessoas a pensar, questionar, estudar, criar e produzir?
Não se trata de afirmar que a religião é inútil. A religião pode desempenhar um papel importante na solidariedade, na assistência aos necessitados, na promoção de valores, no apoio psicológico e na coesão comunitária. Muitas organizações religiosas realizam trabalhos sociais importantes.
O problema começa quando a fé passa a substituir a responsabilidade individual e colectiva.
Uma sociedade não constrói hospitais apenas com orações. Não constrói escolas apenas com fé. Não cria empregos apenas com promessas. Não desenvolve tecnologia apenas esperando por milagres. É preciso conhecimento, investimento, organização, ciência, trabalho, inovação e instituições capazes de funcionar.
Deus, para quem acredita, pode ser fonte de esperança. Mas a esperança não deveria ser utilizada como desculpa para a inércia.
Fé ou acomodação?
Existe uma questão particularmente sensível que precisamos discutir: será que determinados discursos religiosos estão, consciente ou inconscientemente, a incentivar a acomodação?
Quando uma pessoa é ensinada durante anos a aceitar a pobreza como uma condição inevitável, a esperar uma recompensa exclusivamente depois da morte ou a acreditar que questionar determinadas estruturas é falta de fé, que tipo de cidadão estamos a formar?
Quando alguém recebe um salário de 8 mil meticais e é incentivado a entregar uma parte significativa desse rendimento à sua congregação, enquanto continua a viver em condições precárias, com os filhos sem acesso a uma educação de qualidade e sem recursos para melhorar a sua própria vida, devemos perguntar: qual é a prioridade?
Não seria igualmente importante ensinar essa pessoa a poupar, investir, adquirir uma profissão, criar uma pequena empresa, melhorar a sua produtividade e garantir melhores condições para os seus filhos?
A contribuição religiosa é uma escolha pessoal. O problema surge quando a contribuição é apresentada como condição para receber prosperidade, bênçãos ou protecção divina, sobretudo quando isso pode aprofundar a vulnerabilidade económica de pessoas que já vivem na pobreza.
Mais casas de culto ou mais centros de conhecimento?
Esta talvez seja a pergunta que mais incomoda.
O que Moçambique precisa urgentemente: de mais espaços de culto ou de mais espaços de aprendizagem?
Precisamos de escolas técnicas. Precisamos de institutos de formação profissional. Precisamos de bibliotecas. Precisamos de laboratórios. Precisamos de centros de investigação. Precisamos de jovens capazes de reparar máquinas, programar computadores, instalar sistemas eléctricos, trabalhar com energia solar, construir pontes, gerir empresas, produzir alimentos com tecnologia, desenvolver medicamentos e criar soluções para os problemas locais.
Precisamos de pessoas que não estudem apenas para conseguir um emprego, mas para serem capazes de criar emprego.
O problema do nosso sistema educativo não é apenas a falta de diplomas. É também a distância entre aquilo que ensinamos e aquilo que a sociedade precisa.
Um país não se desenvolve quando a maioria dos seus jovens procura apenas um lugar numa instituição pública. Desenvolve-se quando esses jovens também conseguem transformar conhecimento em empresas, tecnologias, serviços, produtos e soluções.
Afinal, onde está a nossa prioridade?
Talvez devêssemos olhar para aquilo que outros países fizeram de diferente.
Não significa abandonar a religião. Significa compreender que nenhuma sociedade se desenvolveu simplesmente esperando que Deus resolvesse os seus problemas.
Os países que alcançaram níveis elevados de desenvolvimento investiram durante décadas em educação, ciência, tecnologia, indústria, saúde, infra-estruturas e instituições. A fé pode coexistir com tudo isso. O que não pode existir é uma sociedade que transfere para o sobrenatural responsabilidades que pertencem aos seres humanos.
Precisamos de perguntar por que razão há comunidades onde se consegue construir um templo ou uma mesquita com grande investimento, enquanto a escola local continua sem carteiras, sem biblioteca, sem laboratório e sem professores suficientes.
Precisamos de perguntar por que razão algumas pessoas conseguem mobilizar recursos rapidamente para construir enormes espaços religiosos, mas encontram enormes dificuldades para financiar uma biblioteca comunitária, uma oficina de formação profissional ou um centro juvenil.
Não seria possível fazer as duas coisas?
Naturalmente que sim.
Mas, quando os recursos são escassos, as prioridades tornam-se fundamentais.
Religião não pode ser inimiga do conhecimento
Também seria intelectualmente desonesto concluir que quanto mais igrejas ou mesquitas existem, menos instruída é a população. A relação não é automática.
Há pessoas profundamente religiosas que são excelentes cientistas, professores, médicos, engenheiros, empresários e investigadores. Há instituições religiosas que constroem escolas, hospitais e centros de formação. Há comunidades de fé que fazem exactamente aquilo que o Estado e a sociedade deveriam fazer: educar, cuidar e criar oportunidades.
Portanto, o problema não é a existência da religião.
O problema é quando o pensamento crítico é substituído pelo dogma; quando a obediência substitui a reflexão; quando a promessa de uma recompensa futura é utilizada para justificar a pobreza presente; e quando a fé é utilizada para desencorajar as pessoas de procurar conhecimento e transformar a realidade.
Uma sociedade madura não deve ter medo de questionar as suas próprias crenças.
Aliás, talvez a verdadeira fé devesse ser suficientemente forte para suportar perguntas difíceis.
Que cidadãos queremos formar?
Moçambique precisa de cidadãos que rezem, se assim desejarem. Mas precisa, sobretudo, de cidadãos que pensem.
Precisamos de cidadãos que questionem por que falta água na sua comunidade. Que procurem saber por que a estrada está destruída. Que perguntem onde foi parar o dinheiro público. Que saibam interpretar um orçamento. Que conheçam os seus direitos. Que saibam como criar uma empresa. Que consigam utilizar tecnologia. Que possam ensinar os filhos. Que tenham capacidade de participar na vida pública com conhecimento e responsabilidade.
Precisamos de menos conformismo e mais pensamento crítico.
Precisamos de menos dependência e mais autonomia.
Precisamos de menos pessoas à espera que alguém resolva os seus problemas e mais pessoas preparadas para resolver problemas.
E isso começa na educação.
Talvez a pergunta esteja mal colocada
Talvez a questão não seja se Moçambique precisa de menos religiosos e mais instruídos.
Talvez precise de religiosos mais instruídos e cidadãos mais críticos.
Uma pessoa pode acreditar em Deus e, simultaneamente, acreditar na ciência. Pode frequentar uma igreja ou uma mesquita e defender a educação. Pode rezar e trabalhar. Pode ter fé e questionar. Pode acreditar no céu sem aceitar a pobreza como destino.
O verdadeiro desafio é impedir que a religião se transforme num mecanismo de acomodação social.
Porque um país onde as pessoas rezam pela mudança, mas não têm ferramentas para produzi-la, continuará dependente de milagres.
E Moçambique não precisa apenas de milagres.
Precisa de conhecimento, pensamento crítico, trabalho, ciência, educação e cidadãos capazes de transformar a realidade.
Talvez a pergunta mais importante que devêssemos fazer hoje não seja quantas igrejas ou mesquitas temos.
É quantas escolas, centros de formação, laboratórios, bibliotecas, investigadores, inventores, técnicos e empreendedores estamos a formar.
Porque a fé pode dar esperança a uma sociedade.
Mas é o conhecimento que lhe dá ferramentas para mudar.

