Por Quinton Nicuete
A VII Sessão do Observatório de Desenvolvimento de Cabo Delgado, realizada esta segunda-feira, 04 de Maio de 2026, transformou-se num espaço de forte tensão, críticas abertas e confronto de narrativas entre a sociedade civil e os dirigentes públicos, expondo uma profunda distância entre os indicadores oficiais e a realidade vivida no terreno.

O encontro, que tinha como objectivo avaliar o desempenho socioeconómico de 2025, apresentar o Plano e Orçamento para 2026 e discutir mecanismos de prevenção e combate à corrupção, acabou dominado por denúncias sobre má gestão urbana, degradação das infraestruturas e falta de transparência por parte das autoridades, com destaque para o município de Pemba.
O primeiro interveniente da sociedade civil, Abudo Gafuro, centrou a sua intervenção na situação urbana da cidade de Pemba, denunciando a existência de terrenos baldios, a erosão descontrolada e a alegada atuação seletiva do município. Segundo afirmou, há respostas rápidas quando estão em causa interesses de figuras influentes, enquanto problemas que afectam cidadãos comuns continuam sem solução. Alertou ainda para famílias que perderam casas devido ao avanço de ravinas, defendendo maior responsabilidade na execução de obras públicas.
Seguiu-se Abdul Tavares, que abordou o elevado custo do transporte aéreo entre Pemba e Maputo. O interveniente criticou a tendência de normalizar tarifas na ordem dos 25 mil meticais por viagem, considerando-as incomportáveis para a maioria dos cidadãos e prejudiciais ao turismo e à economia local. Para ele, aceitar esses valores como normais é excluir grande parte da população do acesso ao transporte aéreo.
Por sua vez, Candeiro Alves levantou preocupações ligadas aos serviços de saúde, questionando a real disponibilidade de medicamentos nas unidades sanitárias da província. Apesar de relatórios indicarem envio de fármacos conforme requisições, o interveniente mostrou dúvidas quanto à existência efectiva desses medicamentos nos hospitais e à qualidade do atendimento aos utentes.
Outra intervenção marcante foi de uma representante da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade, que chamou atenção para os processos de reassentamento em curso, particularmente envolvendo famílias da zona residencial de Chibuabuar, no bairro de Cariacó, na cidade de Pemba. A representante alertou para possíveis violações de direitos humanos, ao transferir populações para zonas com menos condições de acesso a serviços básicos como saúde, educação e energia, contrariando princípios nacionais e internacionais de reassentamento digno.
Além destas intervenções, vários participantes denunciaram o estado crítico das estradas na cidade de Pemba, descrevendo vias praticamente intransitáveis, com buracos sucessivos, areia acumulada e zonas isoladas. Estradas como ANE-Chuíba, Escritório-Chuíba e o troço entre Caia Village e Quatro Caminho foram apontadas como exemplos de degradação agravada pelas chuvas.
Os intervenientes rejeitaram a justificativa recorrente das chuvas intensas, argumentando que muitos dos problemas já persistem há anos, revelando falhas na manutenção e no planeamento das infraestruturas.
Em resposta às críticas, o Presidente do Conselho Municipal de Pemba, Satar Abdulgani, reconheceu os desafios, mas defendeu a actuação do município. Explicou que várias intervenções têm sido feitas com base em parcerias e mobilização de recursos alternativos, devido à escassez de financiamento estatal.
Segundo o edil, o município não recebe fundos de funcionamento desde finais de 2024, tendo enfrentado todo o ano de 2025 com limitações financeiras significativas. Ainda assim, garantiu que os salários dos funcionários têm sido assegurados através da arrecadação de receitas próprias.
Satar Abdulgani rejeitou acusações de favorecimento, afirmando que as intervenções são feitas com base na urgência e no interesse público, e não por influência de interesses particulares.
Apesar dos dados positivos apresentados como crescimento da produção agrícola, aumento das exportações e subida das receitas públicas o sentimento dominante na sala foi de desconfiança e frustração.
A sessão terminou com um apelo do Governador da Província, Valige Tauabo, para maior coordenação entre os diversos actores, e com o Secretário de Estado, Fernando Bemane de Sousa, a reafirmar o compromisso do Governo na mobilização de recursos.
Ainda assim, ficou claro que, para muitos cidadãos, os números apresentados não refletem a realidade no terreno.
Entre denúncias, justificações e promessas, a VII Sessão do Observatório de Desenvolvimento revelou uma província em tensão, onde o desenvolvimento ainda enfrenta desafios profundos e respostas consideradas insuficientes pela população. (Moz24h)