(Publicado no Fish News — A Gazeta da Sardinha Bicuda)
Poseidon navegava os Sete Mares,
em missão de serviço.
Entre redemoinhos e algas em greve,
golfinhos berrando bolhas:
“Reforma já — Peixinho no Poder!”
No Índico — água que guarda memórias —
ela apareceu.
Sereia do rebolado psicadélico-missanga,
cabelo pingando marrabenta-feitiço,
levantando poeira do fundo,
como chão antigo a amanhecer.
Não nadava — peneirava.
Não sorria — enfeitiçava e desfeitiçava.
— “És tu que rompe a onda que me chama?”
— “Sim, uma raia trouxe um verso mutante,
mas os deuses são surdos a palavras dançantes.”
— “Por que és tu, entre o sal e a espuma?”
— “A voz da sacerdotisa do fim sussurrou tua sombra.”
Ostra em sal, ossos de lula,
poemas onda-bantu, bife argentino e Bordeaux.
— “Bordeaux?”
— “Feitiço bom exige classe.”
— “E o meu cabelo?”
— “Cortado à sombra do Nilo, fio de tempestade.”
— “Mas… é feitiço?”
— “Não, bébe. Desejo em ciência.”
Poseidon engasgou-se.
O Tridente se afastou,
não quis ver mais.
Ela tocou-lhe a barba,
como quem acende vulcões antigos.
Ele riu —
como quem esquece
que é feitiço
o feitiço que sente.
Fizeram amor sobre placas tectónicas,
tubarões zen cochichando,
repórteres-caranguejos filmando discretos.
Na concha dos calafrios, ela soprou:
— “Sabes amar um ventre divino,
de intenções pagãs,
de batuques moçambicanos?”
— “Nunca li versos assim…”
— “Não, nos teus mitos, África é silêncio.”
Ele não soube,
mas quis aprender.
Volta com desculpas:
“Analisar a salinidade.”
“Conferenciar com os camarões do partido.”
O certo…
até os deuses caem —
quando o mar tem poeira-missanga,
e a sereia, método.
*Ismael Miquidade, Cadernos de Poesia “— Viagem como Metáfora da Vida”.

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