Moz24h Blog Opiniao Não há académicos em todo Moçambique?
Opiniao

Não há académicos em todo Moçambique?

Josué Bila
Josué Bila
Nós, os outrora caricaturados de “indígenas” pelas insanidades burocráticas coloniais, fomos forjados para desprezar os nossos pares africanos. A colonização foi mesmo isso: observe o outro preto como um cão, um burro, um moleque, um sequaz, um estivador, uma mão de obra barata para o trabalho forçado (xibalo), um reprodutor biológico de novos burros para os trabalhos domésticos, forçados e escravatura. Porém, não te esqueças de que também és um cão, um burro, um macaco, um moleque, um sequaz e um estivador. Mesmo que fosses um assimilado, a ideia é essa: continuavas um macaco-imitador do colono e das instituições coloniais. Coloquem as aspas onde for possível e necessário. Uma das consequências são os dilemas éticos contemporâneos: temos moçambicanos que afirmam defender os oprimidos e os camponeses, usando o sotaque de Lisboa ou de Coimbra. Defendem a igualdade no papel, mas alimentam-se dos privilégios dos opressores.
Reconheço que ainda não passamos pelo processo de curas ou terapias pessoais, inter-pessoais e sociais, em decorrência dos traumas africanos injectados pelas fornalhas coloniais e escravocratas. Aliás, avento a possibilidade de que no dia em que psiquiatras, psicólogos e outros profissionais correlatos fizerem avaliações/diagnósticos em uma campanha nacional sobre o “estado clínico do povo e de suas diversificadas elites” divulgarão um relatório segundo o qual estamos a um passo para a esquizofrenia pública. É sério. Entramos para uma fase em que a estupidez tanto individual quanto colectiva é um perfume comportamental. Muitos de nós nem tão pouco temos consciência de que os simples e complexos desprezos contra os pretos iguais decorrem do fato de que esse inferno existencial comanda muitos dos nossos sentimentos, pensamentos, falas e práticas. Preocupa-me a esquizofrenia pública na qual a história afro-moçambicana submete(u)-nos.
A maioria das nossas desgraças sociais (familiares, eclesiásticas, políticas, económicas…) está relacionada a um certo grau de esquizofrenia pública. Reflitamos sobre os efeitos da colonização e da escravatura. E não nos esqueçamos também de violências físicas e espirituais do Marxismo-Leninismo. Foram e são uma grande guilhotina ao nosso espírito social.
Deixando isso, esta semana veio-nos um rancor professoral, sem dó nem piedade, vociferando que, em Moçambique, não há académicos, em resposta a uma pergunta capciosa de um deputado da Assembleia da República. Eu afirmo: Assembleia da República. Não casa do barulho, como os desrespeitosos às instituições republicanas e políticas o fariam. Parece-me que foi uma pergunta para agitação e propaganda: os jovens da Primeira República são craques nisso. Talvez aquela resposta seja e foi elegante, porque proferida no meio do activismo rancoroso, o qual sempre vê o caos unilateral, mesmo que haja condições para pesquisa ou análise de outros factores subjacentes, os quais possam explicar o possível caos multidimensional.
Não é a primeira vez em que ouço um guindaste generalista desse peso de toneladas: jovens da minha geração, intelectualizados e politizados, numa roda de conversa, no dia de enterro do meu pai, em Fevereiro último, soltaram esse generalismo rancoroso contra académicos: “Não há académicos, aqui, em Moçambique; quem é académico, aqui…?” Não é que esta semana, naqueles encontros em que os deuses das várias cidadanias rancorosas amealham mais admiradores, vociferou-se a máxima de que não há académicos, em Moçambique – o guindaste foi descarregado para desprezar, vilipendiar e matar.
Malta “outrora indígenas”, vamos erguer uma cidadania republicana, onde o respeito pelo trabalho do preto igual possa também ser a métrica de dignidade humana… Nem de longe nem de perto, engulo esse generalismo rancoroso segundo o qual, em Moçambique, não há académicos. Sei que é pedregoso superar a guilhotina colonial, as lavagens cerebrais de que somente os sistemas educacionais, fora de África ou de Moçambique, produzem academias e académicos. Não há entre os “outrora indígenas” académicos em todo Moçambique? Uma coisa são as condições pedregosas para o exercício das atribuições das academias e de académicos; outra é a inexistência de académicos. Esta última afirmação é deselegante.
Há académicos em Moçambique. Porém, os traumas acometeram-nos de cegueira, para que não os enxerguemos e nem tão pouco os reconheçamos (…).
Este site https://adscientificindex.com/ pode conduzir a qualquer um para saber pelo menos do reconhecimento internacional de que alguns académicos e cientistas moçambicanos gozam.
N.B. Destaquei os pretos, pois têm um problema grave em reconhecer os outros pretos.
Sair da versão mobile