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Entre Realidades e Promessas de um Povo

Por: FADJA – Fanito de João Armando

 

Nascido no cimo do monte Mpalue, algures junto ao rio Mucheremano, no limite entre Nikwape e Mecubúri, e nas imediações da sede distrital, Xettheko cresceu ao som do batuque e dos ritmos da dança Nihattha. Em noites de luar, manifestava a sua maestria diante de uma juventude de futuro incerto, mas repleta de esperança num amanhã auspicioso. À volta da lareira, a rapaziada de Mpalue entoava cânticos vibrantes, onde cada jovem enfrentava os presságios da vida, da cultura e da identidade de uma geração alheia aos horizontes do mundo real.

O tempo passou, e Xettheko foi crescendo. Porém, os seus companheiros passaram a abraçar novos valores e uma nova identidade, influenciados pela cultura ocidental. As noites tornaram-se repletas de poluição sonora e visual. A vila-sede, que distava cerca de oito quilómetros da povoação de Mpalue, passou a parecer mais próxima do que o antigo campo de dança, localizado a menos de seiscentos metros das casas dos jovens.

As sessões de natação no rio Nakuwo foram substituídas por longas caminhadas noturnas, onde cada jovem precisava levar consigo dinheiro para pagar ingressos em boates e cineclubes espalhados por Nacuacuali, Vila e Mukhuruwa. Vivia-se o apogeu de uma transformação identitária, em que falar das pinturas rupestres de Mwakotthaya, da Reserva de Mualua (Reserva Florestal de Mecubúri) e das belas praias fluviais dos rios que circundam a vila passou a ser algo incomum para uma sociedade que se afastava das suas raízes.

Xettheko, que tanto apreciava tocar e dançar Nihattha, trocou o batuque pelo violino, fazendo emergir em si um personagem crítico. Em cada actuação, tornava-se um mensageiro do povo, ecoando, por meio da música, a sua indignação perante as vicissitudes impostas pelo poder instituído. Carregava na alma a dor e o desalento de um povo mergulhado na penumbra.

A educação expandiu-se com a introdução do ensino superior e técnico-profissional na região. A produção agrícola passou a registar marcos relevantes, consolidando o nome do distrito entre os maiores produtores do “ouro branco” e de oleaginosas da província de Nampula. Contudo, a precariedade das vias de acesso em Mecubúri denuncia retrocessos no processo de desenvolvimento económico e social que o distrito almeja há décadas, pois não há progresso sustentável sem estradas e pontes em condições dignas de transitabilidade.

O auge das dificuldades de mobilidade interdistrital registou-se no final do ano 2025, quando a fúria das águas expôs, de forma cruel, a fragilidade das infraestruturas rodoviárias, com a destruição parcial dos aquedutos que garantiam a ligação de e para Muite — uma região com grande potencial na produção do “ouro branco” na província de Nampula, que há décadas abastece a indústria têxtil.

Sem estradas em condições adequadas, dificulta-se a atração de investidores interessados na exploração mineira e de outros recursos naturais que a flora e a fauna locais oferecem. Importa lembrar que Mecubúri detém, desde 1950, uma das maiores reservas florestais de África, com cerca de 230 mil hectares, onde se encontram espécies de grande valor ecológico e económico, como Brachystegia, Combretum, Umbila e Pau-preto, entre outras. Este potencial desafia o governo a mobilizar recursos para transformar Mecubúri numa referência ecológica nacional.

Viajar de e para Mecubúri tornou-se um verdadeiro pesadelo. Deslocar-se a pé passou, em muitos casos, a ser mais viável do que utilizar viaturas ou outros meios de transporte. As dunas que se formam ao longo do percurso são testemunho do martírio enfrentado por quem se atreve a visitar o distrito.

O problema da transitabilidade parece preocupar mais o distrito de Rapale do que o de Mecubúri, tendo levado aquele governo a negociar com investidores chineses para a reabilitação da principal via de acesso à sua sede. Este facto levanta questões sobre a viabilidade e a concretização de iniciativas semelhantes por parte do Governo do Distrito de Mecubúri, sobretudo no que diz respeito à asfaltagem das vias.

In: Cenas de Casa

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