COMUNICADO DE IMPRENSA: Nova investigação revela a cadeia de carvão tóxico da ArcelorMittal, de Moatize a Dunquerque
Maputo / Paris, 15 de Abril 2026 — Uma investigação publicada hoje pela Disclose e pela Socialter revela os custos humanos e ambientais da dependência da ArcelorMittal no carvão extraído em Moatize, na província de Tete, no centro de Moçambique. Este carvão é posteriormente transportado para a fábrica da ArcelorMittal em Dunquerque, a fábrica mais poluente da França, apesar de ter recebido milhões de euros de fundos públicos, destinados especificamente à produção de “aço verde”.
Ar saturado de partículas tóxicas, casas danificadas, terras agrícolas contaminadas, água poluída e meios de subsistência destruídos: os habitantes de Moatize estão a pagar com a sua saúde e o seu futuro pelo aço produzido a milhares de quilómetros de distância — enquanto a empresa transnacional obtém lucros na ordem dos milhares de milhões.
A monitoria da qualidade do ar realizada pela Justiça Ambiental JA! entre Setembro e Outubro de 2024 registou concentrações de partículas finas de até 340 μg/m³ em Moatize, o que corresponde a sete vezes o limite recomendado pela OMS. Os níveis de zinco eram quase 20 vezes superiores aos limites de segurança na vizinha África do Sul. O vanádio e o manganês, ambos conhecidos carcinogéneos, excederam os limites de segurança em 12 e 7 vezes, respectivamente. Conforme tem sido repetidamente denunciado pelos moradores locais, pelas comunidades afectadas e por organizações da sociedade civil como a JA!, as famílias de Moatize estão a sufocar debaixo da poeira de carvão.
A contaminação vai muito além do ar. Cientistas detectaram concentrações perigosas de metais, incluindo cobre e selénio, nas fontes de água nos arredores de Moatize. As terras agrícolas estão cobertas de poeira de carvão. As explosões na mina racham as paredes das casas na vizinhança. Em Janeiro de 2026, um projéctil de rocha incandescente atravessou a casa de uma família enquanto a mãe e a filha se encontravam lá dentro.
Como sempre, as mulheres e as crianças pagam o preço mais alto. Isabel Graça Correia, de 43 anos, é uma das muitas pessoas que sofrem de tuberculose — uma doença fortemente associada à exposição à poeira de carvão. Foi obrigada a interromper uma gravidez e, desde então, não consegue engravidar.
ArcelorMittal: lucros, dinheiro público, e a arquitectura da impunidade corporativa
O carvão extraído pela Vulcan Minerals, uma subsidiária do conglomerado indiano Jindal Steel e fornecedora directa da ArcelorMittal, é transportado do porto de Nacala, em Moçambique, para a fábrica da ArcelorMittal em Dunquerque, na França. A ArcelorMittal é o segundo maior produtor mundial de aço, com sede em Luxemburgo e controlada pela família bilionária Mittal, com operações em mais de 60 países — e a sua fábrica de Dunquerque é a fábrica mais poluente de França, produzindo 12 milhões de toneladas de CO₂ por ano.
De acordo com a investigação da Disclose, esta mesma empresa recebeu, desde 2021, pelo menos 244 milhões de euros de fundos públicos franceses, tendo-se comprometido a reduzir a sua pegada ambiental através da produção de “aço verde”, mas acabou por recuar nos seus planos de transição ecológica. Os dois fornos eléctricos prometidos para 2027 passaram a ser apenas um, cuja conclusão está agora adiada para 2029.
Quando confrontada com as conclusões desta investigação, a ArcelorMittal alegou que “não tinha sido identificado qualquer risco significativo, qualquer sinal de alerta nem qualquer observação desfavorável” na avaliação da sua cadeia de abastecimento. Isto é um insulto a todas as pessoas que vivem em Moatize.
Nos termos da lei francesa sobre o dever de vigilância, a ArcelorMittal está legalmente obrigada a prevenir danos graves para a saúde humana e para o ambiente, tanto nas suas próprias actividades como nas das entidades da sua cadeia de abastecimento. As evidências de poluição tanto em Moatize como em Dunquerque apontam para o incumprimento dessas obrigações legais, ao mesmo tempo que a empresa regista enormes lucros financeiros. Os lucros do ano passado ascenderam a 3,15 mil milhões de dólares.
“Esta investigação confirma o que as comunidades de Moatize vêm denunciando há anos. A cadeia de abastecimento de carvão da ArcelorMittal é um caso clássico de extractivismo colonial: uma comunidade marginalizada num dos países mais pobres do mundo arca com a carga tóxica da extracção, enquanto uma empresa transnacional com sede na Europa recolhe os lucros — apoiada por centenas de milhões em subsídios públicos europeus. Não é um acidente, é uma arquitectura, e a empresa responsável chama-lhe “sem risco”. A JA! trabalha lado a lado com estas comunidades e continuará a apoiar a sua luta até que haja justiça.” – Erika Mendes, Justiça Ambiental JA!
“Esta cadeia de abastecimento de carvão tóxico, desde Moatize, em Moçambique, até Dunquerque, em França, não é um caso isolado que falhou. É o resultado intencional de um modelo económico global que extrai riqueza das comunidades do Sul Global para alimentar a produção industrial no Norte Global, protegido por lacunas legais, pela fraca aplicação das leis existentes e pelo apoio activo de governos e instituições financeiras. É inaceitável ver os mesmos padrões a repetirem-se ao longo de décadas, com as comunidades a pagarem o preço enquanto as empresas transnacionais obtêm lucros e até beneficiam de dinheiro público que seria urgentemente necessário para uma transição energética verdadeira e justa.” – Juliette Renaud, Amigos da Terra França
As nossas demandas
A Justiça Ambiental e a Amigos da Terra França apelam:
• ao governo Francês para que condicione todos os subsídios públicos ao respeito comprovável dos direitos humanos e do ambiente em toda a cadeia de abastecimento;
• ao governo Moçambicano para que suspenda imediatamente as operações de extracção de carvão em Moatize até que seja realizada e divulgada uma avaliação independente, com a participação da comunidade, dos custos totais para as pessoas, o ambiente e a saúde; implemente medidas urgentes para monitorar, controlar e reduzir os níveis de poluição; responda imediatamente com medidas de saúde pública destinadas às comunidades afectadas e garanta que estas tenham acesso à justiça, a medidas correctivas e a reparações;
• a todos os governos para que apoiem activamente e participem nas negociações em curso para um tratado vinculativo da ONU, forte e eficaz, sobre empresas transnacionais e direitos humanos, que deve estabelecer obrigações executórias e garantir um acesso efectivo à justiça e a reparações para comunidades afectadas, como as de Moatize.
Leia aqui a investigação completa realizada pela Disclose e pela Socialter: https://justica-ambiental.org/2026/04/15/arcelormittal-esta-a-causar-um-desastre-ambiental-e-sanitario-em-mocambique/

