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Em Macomia, no centro de Cabo Delgado, as crianças não desaparecem durante tiroteios

Foto: Estacio Valoi/Pquite

Por Quinton Nicuete

 

 

Elas também desaparecem enquanto realizam tarefas domésticas. Deixam para trás cadernos escolares, sandálias gastas, recipientes de água meio cheios. As famílias procuram nas matas, nas estradas, nos postos militares. Depois instala-se o silêncio.

“Levaram o meu filho quando foi apanhar lenha”, conta a mãe de Amade (nome fictício).

Amade tinha 13 anos quando saiu de casa, em 2022, na comunidade de Mocojo. Nunca mais voltou.

“Ele saiu de manhã para apanhar lenha e nunca regressou.”

Dias antes, homens armados tinham sido vistos a circular nas matas próximas. Nenhum alerta foi emitido. Nenhuma evacuação foi ordenada. A comunidade foi deixada a continuar a sua rotina normalmente.

A família denunciou o desaparecimento às autoridades locais.

“Disseram-nos para esperar, que estavam a investigar”, conta o tio de Amade.

Três anos depois, não houve qualquer actualização. Nenhuma confirmação. Nenhuma explicação.

O caso de Amade não consta em nenhum registo público de crianças desaparecidas. Nenhum resultado de investigação foi partilhado com a família. Como muitos outros em Cabo Delgado, o caso desapareceu silenciosamente.

Um padrão escondido à vista de todos

Segundo dados recolhidos pelo Instituto de Psicologia e Paz de Moçambique (IPPM), o recrutamento de crianças está a aumentar em Cabo Delgado, particularmente nos distritos de Ancuabe, Chiúre, Nangade, Muidumbe, Mocímboa da Praia, Macomia, Palma e Quissanga.

O relatório do IPPM de Agosto de 2025 documenta casos de crianças com apenas 10 anos de idade a serem raptadas ou recrutadas enquanto realizavam actividades rotineiras, como buscar água, apanhar lenha ou trabalhar nas machambas. Não se trata de raptos aleatórios. Seguem um padrão.

“Os grupos armados exploram a vulnerabilidade social e a falta de protecção efectiva”, afirmou um técnico do IPPM.

Em muitos casos, as comunidades já tinham reportado a presença de grupos armados nas proximidades. Os alertas foram comunicados informalmente, mas nunca se traduziram em acções preventivas. Escolas permaneceram encerradas ou destruídas. As patrulhas eram esporádicas. As crianças continuaram a circular sozinhas por áreas inseguras.

Os eventos climáticos extremos agravaram ainda mais o risco. Os ciclones deslocaram famílias, destruíram meios de subsistência e afastaram crianças da escola tornando-as alvos mais fáceis para grupos armados que prometem comida, protecção ou pertença.

Crianças treinadas para cometer violência

Depois de capturadas, as crianças são rapidamente doutrinadas pelos grupos armados.

O IPPM e organizações parceiras relatam que menores de apenas 12 anos são treinados no uso de facas e catanas. Adolescentes recebem treino com armas de fogo. Muitos são forçados a participar em actos violentos logo no início uma táctica que, segundo especialistas, serve para desencorajar resistência e garantir obediência.

“As crianças são submetidas a um processo de desumanização progressiva”, explica uma psicóloga que trabalha com sobreviventes em centros de reintegração. “O trauma não termina quando deixam o grupo armado.”

As raparigas enfrentam abusos adicionais. A Save the Children e a UNICEF Moçambique relatam casamentos forçados, exploração sexual e violência psicológica contínua. Muitas regressam grávidas, enfrentando estigma e rejeição nas suas comunidades.

Os grupos armados não estatais não recrutam apenas raparigas, sujeitando-as à violência e exploração, mas também rapazes, que são igualmente coagidos a desempenhar funções de combate e apoio. Privados da educação e da vida familiar, ambos sofrem traumas profundos que comprometem a sua saúde física e psicológica e fragilizam o tecido social das suas comunidades.

Segundo Rumbidzai Dhliwayo, Oficial de Protecção da Criança da Plan International em Cabo Delgado, o recrutamento está a intensificar-se.

“As crianças são recrutadas através da força ou do aliciamento, explorando a pobreza, a falta de ocupação e a ausência da escola”, afirmou. “São usadas como combatentes, espiões, transportadoras de armas, cozinheiras, escravas domésticas e parceiras sexuais.”

Isto constitui uma das mais graves violações dos direitos da criança na província. Ainda assim, os processos judiciais são praticamente inexistentes.

Fugir não significa o fim

Algumas crianças conseguem escapar durante operações militares. Outras são resgatadas. Entre 2024 e 2025, organizações de protecção infantil reportaram que 800 crianças foram resgatadas pelas Forças de Defesa e Segurança de Moçambique e tropas ruandesas em Cabo Delgado.

O que acontece depois é muito menos certo.

“Sara (nome fictício) voltou, mas já não é a mesma criança”, conta um familiar.

Sara foi levada de Mbau, no distrito de Mocímboa da Praia, aos 12 anos. Após meses com um grupo armado, conseguiu escapar durante uma ofensiva militar e foi resgatada pelas forças locais. Actualmente vive numa comunidade de deslocados.

“Ela quase não falava. Tinha medo de dormir sozinha”, disse o familiar. “Na escola, as outras crianças chamavam-lhe nomes.”

Funcionários da organização Médicos Sem Fronteiras, que trabalham em casos semelhantes, afirmam que a reintegração é uma das fases mais frágeis.

“Sem apoio contínuo, estas crianças correm o risco de serem novamente vitimizadas ou recrutadas outra vez”, afirmou uma assistente social.

Contudo, o apoio costuma ser de curta duração.

Onde os sistemas de protecção falham

Moçambique possui políticas nacionais de protecção da criança, mas em Cabo Delgado a implementação é frequentemente desigual e insuficientemente financiada.

Foto: Estacio Valoi/ Paquite

A Plan International e a Organização Internacional para as Migrações (OIM) apontam fraca coordenação entre sectores, ausência de orçamentos específicos para reintegração e escassez de técnicos especializados nos distritos mais afectados.

Um técnico psicossocial em Ancuabe afirma que a maior parte da assistência se concentra no aconselhamento imediato, com pouco acompanhamento posterior. A reunificação familiar frequentemente enfrenta atrasos devido a limitações logísticas e financeiras.

Num caso recente em Meluco, a identificação de uma criança separada da família, com possibilidade de reintegração em Ancuabe, evidenciou os desafios logísticos que afectam a reunificação familiar em contextos de violência armada. Embora os familiares tenham sido localizados com sucesso, o processo atrasou devido à dificuldade de acesso a medicamentos essenciais necessários antes da deslocação segura da criança.

A falta de medicamentos disponíveis nas unidades sanitárias locais obrigou os intervenientes a recorrer a recursos mínimos e apoio improvisado, atrasando ainda mais o processo. Estas limitações foram agravadas pela insegurança nas rotas de acesso e pela escassez de transporte.

Este caso ilustra como barreiras logísticas básicas podem atrasar significativamente a reunificação familiar e prolongar a vulnerabilidade de crianças afectadas pelo conflito em Cabo Delgado.

Estes casos são tratados individualmente, muitas vezes sem um sistema funcional de acompanhamento. Não existe uma base de dados pública acessível sobre crianças recrutadas ou desaparecidas. Os relatos das comunidades frequentemente não coincidem com os números oficiais.

As autoridades provinciais de Género, Criança e Acção Social reconhecem os desafios, mas insistem que há progressos. Ainda assim, raramente apresentam dados desagregados sobre quantas crianças são identificadas, localizadas, reintegradas ou acompanhadas a longo prazo.

Narrativas oficiais, realidades no terreno

O governador Valige Tauabo destacou a insegurança contínua em Cabo Delgado, particularmente nos distritos costeiros e nas zonas urbanas que acolhem deslocados, como Pemba e Chiúre.

“Temos muitos deslocados internos (…) que precisam de muito apoio porque a nossa situação não é das melhores”, afirmou Tauabo. Acrescentou que os regressos dependem da continuidade das operações das Forças de Defesa e Segurança.

Embora Tauabo não aborde directamente o recrutamento e uso de crianças, organizações de direitos humanos afirmam que a insegurança e o deslocamento populacional são factores centrais deste fenómeno.

O Secretário de Estado em Cabo Delgado, Fernando Bemane, afirmou que as actividades de protecção e assistência humanitária continuam em curso e podem ser resolvidas localmente através da coordenação entre governos distritais e provinciais.

“O trabalho do Escritório das Nações Unidas para Serviços de Projectos (UNOPS) continua, apesar das dificuldades”, afirmou Bemane.

Mas, no terreno, as famílias dizem que a coordenação raramente se traduz em prevenção.

Um crime sem responsabilização

Especialistas em direitos humanos sublinham que o recrutamento e uso de crianças não são apenas preocupações humanitárias são crimes graves ao abrigo do direito nacional e internacional.

Ainda assim, não existem processos conhecidos especificamente relacionados com recrutamento e utilização de crianças em Cabo Delgado. Os grupos armados continuam a operar em áreas onde crianças já foram levadas. As comunidades reportam movimentações. As crianças continuam a desaparecer.

O deslocamento agrava ainda mais o risco.

Segundo o Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), cerca de 1,2 milhão de pessoas foram deslocadas em Cabo Delgado desde 2017. Embora 661.801 tenham regressado voluntariamente, cerca de 429 mil permanecem em 57 centros de deslocados.

Entre Julho e Dezembro de 2025, quase 180 mil novos deslocamentos foram registados, principalmente em Chiúre, Mecúfi e Moeda. Até 200 mil pessoas poderão regressar até meados de 2026, dependendo das condições de segurança.

O INGD estima que a resposta ao deslocamento exigirá 27.750.727,56 dólares norte-americanos para abrigo, assistência alimentar e apoio agrícola financiamento que continua incerto.

Para famílias como a de Amade, estes números são abstractos.

O que permanece é a pergunta sem resposta sobre como uma criança pode desaparecer em plena luz do dia, numa comunidade onde a movimentação de grupos armados já era conhecida, sem desencadear uma resposta que talvez pudesse tê-la salvado. (Moz24h)

 

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