A sucessão de Guterres, os vetos do P5, a posição americana e a hipótese Amina Mohammed
Por Raul de Melo Cabral
A corrida para escolher o próximo Secretário-Geral das Nações Unidas começa a confirmar uma velha verdade da diplomacia multilateral: não ganha necessariamente quem começa à frente. Ganha quem consegue sobreviver aos vetos.

Os primeiros straw polls do Conselho de Segurança produziram uma favorita aparente. Rebeca Grynspan surgiu na liderança, com 10 encourage, 1 discourage e 4 no opinion, seguida de Carolyn Rodrigues-Birkett. Rafael Grossi permanece no tabuleiro. Macky Sall, pelo contrário, enfrenta uma aritmética particularmente difícil depois de 6 encourage, 7 discourage e 2 no opinion.
Mas os números contam apenas parte da história.
Michelle Bachelet enfrenta agora uma dificuldade potencialmente muito mais séria do que qualquer resultado numérico de um primeiro escrutínio. Segundo informação publicada por The Guardian, a Administração americana opõe-se à sua candidatura, considerando insuficientemente firme a sua atuação perante a China em matéria de direitos humanos durante o período em que exerceu as funções de Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Bachelet não desistiu. E uma oposição americana reportada pela imprensa não equivale ainda a um veto formal.
Mas todos os que conhecem este processo sabem que há uma diferença fundamental entre receber um discourage de um dos dez membros eleitos do Conselho de Segurança e recebê-lo de Washington, Pequim, Moscovo, Paris ou Londres.
É quando conhecermos a origem dos discourages que começará verdadeiramente a eleição.
A incógnita Grynspan
Rebeca Grynspan apresenta, por enquanto, números impressionantes.
Dez encourage contra apenas um discourage fazem dela a incontestável favorita aritmética da primeira volta. Mas há uma informação que vale quase tanto quanto os quinze votos juntos e que continuamos a desconhecer:
Quem lhe deu o único discourage?
Se veio de um membro eleito, a sua candidatura encontra-se numa posição extraordinariamente robusta.
Se veio de um dos cinco membros permanentes, a fotografia muda imediatamente.
Existe ainda outra variável.
Grynspan começa a ser descrita em círculos diplomáticos como a candidata da continuidade, alegadamente beneficiando da simpatia ou do apoio tácito do atual Secretário-Geral, António Guterres.
Isso pode constituir uma vantagem importante dentro do sistema das Nações Unidas.
Mas pode também transformar-se numa vulnerabilidade.
Porque começa a tornar-se necessário perguntar se Washington pretende apenas escolher uma pessoa diferente para ocupar o 38.º andar — ou se procura algo mais profundo:
uma ruptura com a era Guterres.
Washington pode estar a escolher uma orientação, não apenas uma pessoa
É aqui que a posição americana merece ser observada com particular atenção.
A oposição reportada a Bachelet pode ser interpretada simplesmente como uma objeção individual relacionada com o seu percurso enquanto Alta Comissária.
Mas talvez seja necessário colocá-la num contexto político mais amplo.
A Administração Trump tem manifestado profundas reservas relativamente a várias dimensões do sistema multilateral e das Nações Unidas. Seria, portanto, pouco surpreendente se Washington encarasse a escolha do próximo Secretário-Geral como uma oportunidade não apenas para selecionar uma personalidade, mas para influenciar a orientação futura da própria Organização.
Nesse caso, a pergunta deixa de ser:
Quem agrada aos Estados Unidos?
E passa a ser:
Que grau de continuidade com António Guterres está Washington disposto a aceitar?
Esta distinção é fundamental.
Porque, se a resposta for “muito pouco”, o problema deixa de afetar apenas Michelle Bachelet.
Pode atingir qualquer candidato que Washington considere representar institucional, política ou filosoficamente uma continuação da década Guterres.
E isso inclui potencialmente a própria frontrunner.
Quanto mais Rebeca Grynspan for apresentada como “a candidata da continuidade” ou “a candidata de Guterres”, mais poderá provocar resistência precisamente entre aqueles que desejam demonstrar que o sucessor do Secretário-Geral é escolhido pelos Estados-Membros — e não pelo Secretariado nem pelo ocupante cessante do cargo.
A Carta das Nações Unidas estabelece uma arquitetura inequívoca: o Secretário-Geral é nomeado pela Assembleia Geral sob recomendação do Conselho de Segurança.
A sucessão pertence aos Estados-Membros.
E se os vetos se cruzarem?
É aqui que surge o cenário mais interessante.
Imagine-se que Washington bloqueia um candidato.
Moscovo ou Pequim bloqueiam outro.
Um terceiro encontra reservas diferentes entre os permanentes.
Grynspan consegue ampla maioria, mas encontra um P5.
Rodrigues-Birkett cresce, mas não consegue atravessar outro veto.
Grossi permanece competitivo, mas o seu percurso à frente da Agência Internacional de Energia Atómica inevitavelmente cruza alguns dos dossiers geopolíticos mais sensíveis do nosso tempo.
Bachelet enfrenta Washington.
Macky Sall não consegue recuperar dos seus numerosos discourages.
Nenhum candidato reúne simultaneamente as duas condições indispensáveis: pelo menos nove votos e ausência de veto dos cinco membros permanentes.
O Conselho vota novamente.
E novamente.
Os meses passam.
E aproxima-se 31 de dezembro de 2026, data em que termina o mandato de António Guterres.
O que acontece então?
É nesse cenário — e somente nesse cenário — que um nome que nem sequer precisa de estar formalmente na corrida poderá inevitavelmente entrar nas conversas diplomáticas:
Amina J. Mohammed.
A hipótese Amina — sem teorias conspirativas
É indispensável estabelecer aqui uma ressalva absolutamente inequívoca.
Não existe qualquer fundamento para sugerir que Amina Mohammed esteja à espera de um impasse, que o deseje ou, muito menos, que procure favorecê-lo.
Ser percebida dessa maneira seria provavelmente suicidário para qualquer eventual aspiração ao cargo.
Nenhum candidato ao posto de Secretário-Geral pode dar a impressão de estar a beneficiar deliberadamente do fracasso dos outros, muito menos de contribuir para a paralisia do Conselho de Segurança.
A questão legítima é completamente diferente:
O que acontece se o impasse surgir por si próprio?
Amina Mohammed é Vice-Secretária-Geral das Nações Unidas. Conhece profundamente a Organização. Tem experiência governamental e multilateral. É africana. É mulher. Possui uma vasta rede diplomática e esteve durante quase uma década no centro da direção política e administrativa do sistema.
Se o mandato de Guterres terminar sem que o Conselho de Segurança tenha conseguido recomendar um sucessor, será inevitável discutir como assegurar a continuidade da liderança da Organização.
Isso não significa que a Vice-Secretária-Geral se transforme automaticamente em Secretária-Geral interina.
Não existe na Carta das Nações Unidas uma disposição de sucessão automática comparável, por exemplo, à sucessão presidencial existente em determinados sistemas constitucionais nacionais.
Qualquer solução temporária teria de encontrar fundamento jurídico e, sobretudo, acordo político entre os Estados-Membros competentes.
Mas crises institucionais produzem soluções institucionais.
E é precisamente aí que a hipótese se torna interessante.
Quando o temporário começa a adquirir permanência
Imaginemos, exclusivamente como exercício analítico, que o impasse persiste.
Nenhum candidato passa.
O mandato de Guterres termina.
Torna-se necessário encontrar uma fórmula juridicamente sustentável que garanta a continuidade da liderança das Nações Unidas durante três, seis ou talvez mais meses.
Amina Mohammed poderia, nesse contexto, surgir entre as soluções possíveis.
Inicialmente, não como “a próxima Secretária-Geral”.
Apenas como uma ponte.
Mas existe uma particularidade importante na política institucional:
uma ponte pode transformar-se numa estrada.
Alguns meses exercendo responsabilidades de liderança significariam lidar com guerras e crises humanitárias, participar em cimeiras, relacionar-se diariamente com o Conselho de Segurança, representar a Organização internacionalmente e demonstrar, perante os Estados-Membros, capacidade efetiva de liderança.
A pergunta poderia então começar a mudar.
Deixaria de ser apenas:
“Poderia Amina Mohammed ser Secretária-Geral?”
E passaria a ser:
“Se já está a exercer satisfatoriamente essas responsabilidades, por que razão procurar outra pessoa?”
É o poder político da incumbência.
O provisório cria familiaridade.
A familiaridade pode gerar confiança.
E a confiança pode produzir consenso.
Mas existe um enorme obstáculo a esta hipótese.
O paradoxo americano
Tudo aquilo que tornaria Amina Mohammed uma solução institucionalmente lógica num período de transição poderia também torná-la particularmente difícil para Washington aceitar.
Poucas personalidades podem ser mais diretamente associadas à Administração Guterres do que a sua própria Vice-Secretária-Geral.
Os mesmos atributos poderiam, portanto, ser interpretados de maneiras diametralmente opostas.
Para uns:
experiência, estabilidade, conhecimento institucional e continuidade.
Para Washington:
continuidade, precisamente quando pretende mudança.
É aqui que a hipótese Amina encontra o seu maior paradoxo.
Um impasse poderia aumentar objetivamente a relevância do seu nome.
Mas o mesmo impasse não eliminaria o poder de veto americano.
E, se a Administração Trump decidir que a sucessão de 2026 deve representar uma ruptura inequívoca com a década Guterres, Amina Mohammed poderia enfrentar uma resistência ainda maior do que outros candidatos precisamente por se encontrar tão intimamente identificada com essa administração.
Rodrigues-Birkett — a candidata que merece ser observada
Existe ainda uma consequência importante desta geometria.
Enquanto os holofotes permanecem sobre Grynspan, uma candidata ligeiramente atrás nos números pode beneficiar do confronto entre os favoritos.
Carolyn Rodrigues-Birkett obteve 9 encourage, 2 discourage e 4 no opinion.
Não lidera.
Mas eleições para Secretário-Geral raramente são simples concursos de popularidade.
À medida que os candidatos mais visíveis acumulam inimigos, uma personalidade capaz de reunir nove votos sem provocar um veto pode tornar-se muito mais valiosa do que alguém com doze ou treze apoios e um único discourage vindo do P5.
Por isso Rodrigues-Birkett merece ser observada cuidadosamente.
Em processos desta natureza, o segundo colocado pode estar numa posição melhor do que parece.
A verdadeira eleição ainda não começou
Os primeiros straw polls medem apoio.
Os próximos começarão a medir resistência.
Mas a fase decisiva chegará quando for possível distinguir os discourages dos membros permanentes daqueles dos membros eleitos.
Nesse momento deixaremos de perguntar apenas:
Quem tem mais votos?
Passaremos a perguntar:
Quem sobrevive ao P5?
Bachelet continua formalmente na corrida, mas a oposição americana reportada representa um sinal grave.
Grynspan continua a ser a frontrunner, mas precisamos saber quem está por detrás do seu único discourage — e até que ponto o rótulo de candidata da continuidade a beneficia ou prejudica.
Rodrigues-Birkett pode revelar-se mais forte do que os números sugerem.
Grossi continua vivo.
Macky Sall enfrenta uma montanha diplomática.
E Amina Mohammed não precisa, neste momento, de ser candidata a coisa alguma.
O seu nome só se tornaria particularmente relevante se os candidatos declarados não conseguissem produzir consenso.
E isso conduz à pergunta que talvez devamos começar a fazer.
Não apenas:
Quem está a ganhar?
Mas também:
Quem ganha politicamente se ninguém conseguir ganhar?
Não há qualquer razão para presumir que o impasse seja uma estratégia de alguém.
Mas seria igualmente ingénuo ignorar as consequências políticas de um impasse caso ele aconteça.
Porque a sucessão de António Guterres pode acabar por não ser apenas uma competição entre Grynspan, Rodrigues-Birkett, Bachelet, Grossi, Sall ou qualquer outro nome que ainda possa surgir.
Pode transformar-se numa disputa muito mais profunda sobre o futuro das próprias Nações Unidas.
E, particularmente para Washington, numa escolha entre duas palavras:
continuidade ou ruptura.
Raul de Melo Cabral
Antigo Diretor nas Nações Unidas e Diplomata de Carreira
9 de agosto de 2026