Por Estácio Valoi
violência atribuída a supostos insurgentes continua a espalhar medo no interior de Cabo Delgado. Dois garimpeiros foram encontrados decapitados na mina de Muaja, no distrito de Ancuabe, enquanto quatro pessoas foram sequestradas na tarde de domingo (26) na estrada que liga os distritos de Montepuez e Mueda, agravando ainda mais a insegurança na região.
Segundo residentes, desde que os insurgentes ocuparam a mina de Muaja, nenhum garimpeiro conseguiu regressar ao local devido ao receio de novos ataques. Apenas na segunda-feira foi possível voltar à área, onde foram encontrados os corpos de duas pessoas decapitadas.
“Desde o dia em que eles chegaram à mina ninguém conseguia entrar. Só ontem os garimpeiros voltaram e encontraram duas pessoas mortas, decapitadas. Uma era da nossa família e a outra era nosso vizinho”, contou um residente.
Os moradores afirmam que as vítimas faziam parte do grupo de trabalhadores que se encontrava na mina quando os insurgentes invadiram a zona.
Ao mesmo tempo, quatro pessoas foram sequestradas no troço entre as aldeias de Namoro e Ntola, no Posto Administrativo de Nairoto, distrito de Montepuez. O novo rapto ocorreu poucos dias depois de outros moradores terem sido capturados na aldeia de Muaja, aumentando o clima de medo entre as comunidades.
A viagem entre Pemba e Montepuez, que antes podia ser feita em poucas horas, transformou-se numa travessia marcada por estradas profundamente degradadas. Buracos de grande dimensão dificultam a circulação de pessoas e mercadorias, aumentando o isolamento das comunidades e atrasando a resposta em situações de emergência.
Durante o percurso entre Mesa, Muaja e Namanhumbir, a reportagem observou diversas viaturas militares a patrulhar a região. Apesar da presença das Forças de Defesa e Segurança, moradores afirmam que os insurgentes continuam a movimentar-se entre aldeias e zonas mineiras, permanecendo durante vários dias nas mesmas áreas.
Quando a reportagem esteve em Muaja, familiares dos sequestrados continuavam a procurar informações sobre o paradeiro das vítimas.
“Os terroristas estiveram aqui toda a semana. Primeiro chegaram os militares. Depois ouvimos que tinham capturado uma pessoa numa machamba. Vieram às nossas machambas, torturaram pessoas e seguiram para a estrada perto do rio Montepuez, onde também agrediram trabalhadores de uma mina”, relatou um morador.
Segundo os residentes, além dos ataques, os insurgentes saquearam alimentos, mercadorias e bens pertencentes aos garimpeiros, antes de castigarem dezenas de pessoas.
“As mulheres receberam cerca de 60 chicotadas. Os homens levaram aproximadamente 70. Bateram em toda a gente”, afirmou uma testemunha.
Os moradores descrevem ainda a rota seguida pelos grupos armados.
“Ouvimos que passaram por Mitepo, queimaram casas, seguiram para Mera, onde ficaram cerca de três dias, e depois desceram pelo rio Montepuez até chegarem à mina de Muaja”, contou outro residente.
Segundo familiares, os sequestradores exigiram inicialmente 50 mil meticais para libertar cada refém. Após negociações, aceitaram 10 mil meticais para libertar uma das vítimas.
“Eles ligaram para as famílias a pedir 50 mil meticais. Como ninguém tinha esse dinheiro, acabaram por aceitar 10 mil meticais para libertar um dos homens”, relatou uma fonte.
Um homem e uma criança terão sido libertados, mas vários sequestrados continuam desaparecidos, sem que as famílias saibam o seu paradeiro ou estado de saúde.
Apesar da chegada das Forças de Defesa e Segurança às aldeias afetadas, os residentes afirmam que o medo continua a dominar a região.
“As forças estão aqui, mas continuamos sem saber onde estão os outros que foram levados. Vivemos com medo de novos ataques”, disse um dos moradores.
Os novos raptos e a descoberta de dois corpos decapitados surgem numa altura em que as autoridades afirmam prosseguir operações militares em vários pontos de Cabo Delgado. No entanto, os testemunhos recolhidos pela reportagem revelam que as comunidades continuam a enfrentar incursões armadas, raptos, assassinatos e pedidos de resgate, mantendo um ambiente de profunda insegurança nas zonas rurais da província. (Moz24h)

