Moz24h Blog Opiniao DO ALÁ AO M-PESA OU E-MOLA: A NOVA FACE DA INSURGÊNCIA NO NORTE MOÇAMBIQUE
Opiniao

DO ALÁ AO M-PESA OU E-MOLA: A NOVA FACE DA INSURGÊNCIA NO NORTE MOÇAMBIQUE

Por Jerry Maquenzi

A nova incursão dos insurgentes armados na Reserva Especial do Niassa revela não apenas a expansão territorial do conflito, mas também a fragilidade das respostas estatais diante de um grupo que já não mata — apenas cobra impostos.

No mês passado, homens armados não estatais — frequentemente associados à insurgência que desde 2017 assola o norte de Moçambique — protagonizaram uma
nova e preocupante ofensiva. O alvo não foi apenas militar ou simbólico, mas estratégico e económico: a zona turística da Reserva Especial do Niassa. Entre viaturas incendiadas e residências destruídas, o episódio marca uma mudança relevante no modus operandi do grupo, já analisado por nomes como Salvador Forquilha, João Pereira, Eric Morier-Genoud, João Feijó e Sérgio Chichava.

Antes do ataque, o grupo passou por Ntola, no posto administrativo de Nairoto. De acordo com testemunhas, os insurgentes apoderaram-se de 40 motorizadas de garimpeiros ilegais e comerciantes. Segundo um jovem local, o ataque não foi aleatório: há dois meses, homens do grupo fizeram reconhecimento da área, identificando inclusive o principal comprador de ouro. Ao regressarem, mostraram sua fotografia e exigiram contribuições para poupar-lhe a vida — 100 mil meticais foram angariados localmente e entregues aos insurgentes.

Durante quatro dias, os combatentes impuseram a sua lógica: queimaram bebidas alcoólicas e cigarros, considerados haramu, e impuseram um tipo de "tributação revolucionária", usando armas como moeda de coerção. Ironicamente, nas ausências provocadas pelo terror, comerciantes e garimpeiros oportunistas se apoderaram de bens alheios, transformando o caos em oportunidade.

Ao deixarem Ntola, os insurgentes deslocaram-se para a Reserva do Niassa a bordo das motorizadas roubadas. Algumas foram abandonadas por falta de combustível. No parque turístico, destruíram infraestruturas, roubaram uma viatura Toyota Land Cruiser, e retornaram à mina de Shamba Kubwa (grande machamba). Lá, repetiram a cobrança: desta vez, apenas 6 mil meticais foram recolhidos. Em nenhum momento fizeram mais vítimas mortais. Apenas no início, mataram um residente embriagado que os chamou de ladrões.
Entre os seis insurgentes presentes, identificaram-se como jovens de Balama, Memba e Macomia. O grupo total teria cerca de 100 homens armados. Um deles disse que queria aproveitar a visita para reencontrar um amigo de Balama. Completada a missão, retiraram-se para Meluco.

Do terror à tributação: uma mutação estratégica
Há uma mudança clara nas táticas do grupo. Nos primeiros anos da insurgência, caracterizados por matanças, sevícias e decapitações, o terror era a mensagem. Hoje, o foco desloca-se para a cobrança de recursos monetários. O grupo comporta-se como uma autoridade paralela que impõe “impostos”, faz reconhecimento prévio e decide quem deve viver ou morrer com base em contribuições.
A pergunta que fica: estamos perante uma insurgência religiosa ou uma milícia predatória? Há sinais de ambas. Ao destruir bebidas alcoólicas e cigarros, o grupo mostra um viés ideológico islâmico radical. Mas ao exigir dinheiro e permitir que alguns comerciantes "paguem" para sobreviver ou para operar, transforma-se num poder paralelo de extorsão.

A inação do Estado e as lições ignoradas
Enquanto a insurgência evolui, o Estado moçambicano continua preso a respostas fragmentadas e militarizadas, muitas vezes mais violentas para com as populações locais do que eficazes contra os insurgentes. Exemplo disto foi o caso recente de Balama, onde populações indignadas ocuparam instalações da mina de grafite da
Twigg. A resposta estatal foi clara: distribuição de “chambos” e encarceramento de residentes, sem atender às causas profundas do descontentamento.
A narrativa oficial frequentemente pinta os insurgentes como terroristas islâmicos mas raramente questiona as condições estruturais de abandono e marginalização que alimentam a aceitação (ou pelo menos a resignação) das comunidades locais. O que se assiste no terreno é um Estado ausente na educação, saúde e segurança, mas rápido em reprimir e proteger interesses de grandes empresas transnacionais.

Silêncio e hesitação do novo governo
Desde a tomada de posse do novo Presidente Daniel Chapo, não foi apresentado qualquer plano público de combate à insurgência. O silêncio pode ser estratégico — ou revelador de incerteza. Entretanto, a realidade não espera. Populações continuam vulneráveis e desprotegidas. Reservas naturais e minas ilegais tornam-se zonas cinzentas, onde a soberania é disputada por forças estatais e não estatais.

Soluções possíveis
1. Aproximação comunitária e reconciliação social: As Forças de Defesa e Segurança devem abandonar a lógica exclusivamente repressiva e investir em estratégias de inteligência comunitária, com envolvimento real das lideranças locais.
2. Formalização da mineração artesanal: As minas ilegais são hoje zonas de conflito, mas poderiam ser fontes de emprego e receita local se devidamente regulamentadas.
3. Transparência no sector dos recursos naturais: O sigilo e o favorecimento de grandes empresas estrangeiras agravam a perceção de injustiça. É urgente
envolver as comunidades na partilha dos benefícios.
4. Plano Nacional de Estabilização do Norte: O novo governo deve urgentemente apresentar uma estratégia multissectorial pública, com metas claras de desenvolvimento, pacificação e reintegração.

Conclusão
O ataque à Reserva do Niassa não foi um evento isolado, mas sim um sintoma de uma doença profunda: a fragilidade do Estado moçambicano na gestão de conflitos, desenvolvimento inclusivo e soberania territorial. Se antes os insurgentes matavam para aterrorizar, hoje cobram para sobreviver — e talvez expandir. A ausência de
resposta estratégica do governo não é apenas perigosa: é cúmplice.

Sair da versão mobile