Por Anónimo
No dia 25 de Junho, celebramos a independência de Moçambique, uma chama acesa em 1975 com o sacrifício de muitos que sonharam com uma nação livre, justa e próspera. Contudo, hoje, essa chama parece vacilar ao vento das nossas próprias contradições.
Somos uma terra abençoada, um solo fértil em riquezas madeira que ergue casas, gás que acende luzes, rios que geram energia. Mas, ironicamente, é como se estivéssemos sentados sobre um tesouro, enquanto muitos dos nossos filhos continuam descalços, sem acesso ao essencial. A abundância tornou-se miragem para quem vive na escassez.
Nas escolas, o futuro do país não se senta em cadeiras, mas no chão frio, como se o conhecimento fosse um privilégio e não um direito. Professores, os semeadores do amanhã, carregam não apenas o peso do ensino, mas também dívidas acumuladas de horas extras nunca pagas, salários atrasados e promessas que ecoam vazias. Como pode florescer a educação quando quem ensina é constantemente negligenciado?
Nos hospitais, o cenário é igualmente doloroso. Corredores tornam-se campos de batalha silenciosos, onde a vida luta sem armas: faltam luvas, falta soro, faltam medicamentos. É como tentar apagar um incêndio com as mãos nuas. A saúde, que deveria ser um refúgio, transforma-se numa prova de resistência.
Nas estradas, os chapas seguem o seu percurso não apenas desviando buracos, mas também atravessando um sistema onde o “refresco” se tornou pedágio invisível. O cidadão comum paga não só o transporte, mas também o preço de um sistema corroído, onde pequenas ilegalidades se tornaram rotina.
Enquanto isso, em Cabo Delgado, a paz continua refém. O som das armas substitui o riso das crianças, e o medo instala-se onde deveria haver esperança. Nas cidades, sequestros e violência lançam sombras sobre o dia-a-dia, transformando a liberdade de ir e vir num ato de coragem.
A energia que produzimos ilumina outros horizontes, mas dentro de casa, muitos vivem às escuras, incapazes de suportar os custos elevados. Os preços dos produtos básicos sobem como marés sem controlo, afogando o pouco que resta do poder de compra das famílias.
E no meio de tudo isso, vemos uma geração de jovens formados, cheios de sonhos, mas encurralados pelo desemprego, como pássaros com asas, mas sem céu para voar. A democracia, por sua vez, parece uma árvore que já foi robusta, mas que hoje mostra sinais de desgaste, com raízes fragilizadas e galhos que já não oferecem sombra a todos.
Diante desta realidade, é inevitável reconhecer: a independência política não foi suficiente para garantir dignidade plena ao nosso povo. Falhámos em transformar promessas em realidade, em fazer da liberdade um caminho de progresso coletivo.
Mas a autocrítica é o primeiro passo para a reconstrução. É preciso reacender a chama que nos trouxe até aqui, não como um símbolo do passado, mas como uma luz para o futuro. Precisamos reconstruir com integridade, investir com responsabilidade e governar com justiça.
Moçambique não pode continuar a ser um gigante adormecido sobre as suas riquezas. É tempo de acordar, de erguer novamente a esperança e de transformar o potencial em realidade.
Porque a verdadeira independência não é apenas a ausência de colonização é a presença de dignidade, justiça e oportunidades para todos.
E enquanto isso não for realidade, o 25 de Junho será sempre mais do que celebração: será um espelho que nos obriga a encarar quem somos e quem ainda precisamos ser. (Moz24h)

