Por Quinton Nicuete
Mais de 500 vendedores informais que há anos lutam pela sobrevivência no mercado de Alto-Gingone, em Pemba, acordaram esta quinta-feira com os seus meios de subsistência reduzidos a entulho. Sem aviso prévio nem alternativas concretas, o Conselho Municipal da Cidade de Pemba destruiu as bancas erguidas ao longo da Estrada Nacional Número 106, estruturas que, apesar de improvisadas, sustentavam centenas de famílias.

A operação, realizada de madrugada, apanhou os comerciantes de surpresa. Para muitos, o que se perdeu foi mais que madeira e zinco foi o fruto de anos de sacrifício, investimento e luta pela sobrevivência num país onde o emprego formal escasseia.
“Não temos para onde ir, vivemos disto. Há anos que estamos aqui. Pagávamos taxas ao município todos os dias. Por quê destruir tudo assim?”, questionou uma mãe de quatro filhos, com os olhos rasos de lágrimas.
Apesar de reconhecida a ocupação irregular da via como fator de risco rodoviário, os vendedores lamentam que a resposta das autoridades tenha sido a força bruta em vez do diálogo. Nenhuma proposta concreta de realocação foi apresentada, e até ao momento o município mantém-se em silêncio sobre o destino dessas centenas de trabalhadores informais.
O impacto da destruição vai muito além da perda de estruturas: está a afetar diretamente o acesso ao pão diário de famílias inteiras muitas delas já vivendo em situação de vulnerabilidade extrema, incluindo deslocados do conflito armado que assola o interior de Cabo Delgado.
“Demoliram o nosso sustento! Nós não queremos confusão, só queremos trabalhar. Se este espaço é perigoso, que nos indiquem um novo lugar. Mas não nos tirem assim, sem nada,” desabafa outro comerciante.
A ausência de alternativas dignas e a falta de comunicação do município aumentam a tensão no local. Muitos comerciantes afirmam que permanecerão em Alto-Gingone até que sejam alocados espaços adequados. Enquanto isso, seguem em meio aos destroços, protegendo o que sobrou dos seus sonhos, na esperança de que a justiça e a empatia social falem mais alto que a ordem fria de uma demolição. (Moz24h)