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Combustível ruma para a Afungi enquanto Pemba continua de tanque vazio

Cabo Delgado — Enquanto consumidores de Pemba no geral Xitsungo em Cabo Delgado continua a enfrentar dificuldades para encontrar gasolina nas estações de serviço, cinco camiões-tanque carregados de produtos petrolíferos, com destaque para a gasolina, deixaram na manhã de terça-feira o Porto de Pemba com destino a Afungi, onde o combustível deverá abastecer especificamente as operações do projecto de gás natural liquefeito (GNL).Segundo a denúncia, os camiões-tanque que transportam combustível partem do Porto de Nacala, na província de Nampula, com destino ao Porto de Pemba, (entram no porto novo, ao lado do porto antigo), em Cabo Delgado. A partir de Pemba, o combustível é posteriormente encaminhado por via marítima para Afungi, onde decorrem as operações ligadas ao projecto Mozambique LNG.

A informação indica que, para assegurar este transporte, são contratados proprietários de gasolineiras que dispõem de camiões-tanque. O circuito levanta questões sobre a movimentação de combustível numa província onde parte da população enfrenta dificuldades de acesso a recursos e serviços básicos, enquanto o abastecimento destinado às operações em Afungi continua a ser assegurado por uma cadeia logística que envolve transporte rodoviário e marítimo.A movimentação dos camiões ocorre poucos dias depois de as autoridades provinciais terem anunciado a chegada ao Porto de Pemba de um navio transportando cerca de 3,6 milhões de litros de gasolina, numa altura em que automobilistas, mototaxistas e outros consumidores enfrentam longas filas e dificuldades para conseguir abastecer as suas viaturas.

A reportagem do Moz24h seguiu os veículos carregados pela avenida marginal ate o porto de Pemba de onde o combustível é transportado por batelão em direcção à área do projecto de gás assim como obteve informações junto de pessoas ligadas ao transporte do produto sobre o seu encaminhamento para Afungi.

A operação levanta uma questão que ganha particular relevância perante a actual crise de abastecimento na capital de Cabo Delgado: num momento em que a população enfrenta dificuldades para encontrar gasolina, como se define a prioridade na distribuição de um produto que continua a ser escasso nas bombas destinadas ao público?

A questão torna-se ainda mais sensível porque o Governo tem procurado transmitir uma mensagem de normalização do abastecimento. Nos últimos dias, representantes do Ministério dos Recursos Minerais e Energia e autoridades provinciais anunciaram a chegada de uma quantidade significativa de combustível à província e garantiram que o produto começaria a ser disponibilizado nas estações de serviço.

Na segunda-feira, 28 de Setembro, o director dos Serviços de Infra-estruturas de Cabo Delgado, Norte Luane, anunciou que as primeiras gasolineiras começariam a vender gasolina a partir de terça-feira, 29, depois da reposição dos respectivos stocks. O responsável reconheceu, contudo, que não era possível determinar durante quanto tempo o carregamento seria suficiente, uma vez que os postos da província tinham chegado a ficar praticamente sem produto.

A realidade encontrada pelos consumidores, entretanto, continuou a revelar uma distância entre o anúncio oficial e a disponibilidade efectiva nas bombas. Na quarta-feira, 30 de Setembro, havia relatos de pessoas que permaneciam nas filas sem conseguir abastecer, apesar de o navio já ter descarregado parte da carga anunciada no porto.

Um consumidor ouvido pelo Moz24h contou que estava há vários dias à procura de gasolina e que chegou a passar a noite a tentar abastecer sem sucesso. Segundo relatou, na terça-feira permaneceu numa fila junto de um posto da Petromoc, onde alguns veículos terão conseguido abastecer antes de as bombas serem encerradas.

“Estou fora de casa desde segunda-feira. Passei toda a noite a lutar para conseguir abastecer, mas sem sucesso. Ontem, terça-feira, vim fazer fila na Petromoc. Eles abasteceram carros de conhecidos, fecharam as bombas e foram-se embora sem justificação plausível. Até hoje, quarta-feira, estou aqui no meio de muitos outros que continuamos lutando para conseguir um pouco dessa substância inflamável chamada gasolina”, relatou.

O testemunho, cuja alegação específica não foi possível confirmar de forma independente pelo Moz24h, contrasta com a expectativa criada pelo anúncio da chegada do carregamento e coloca em evidência uma questão central: onde está a gasolina que chegou à província e a que consumidores está efectivamente a chegar?

Enquanto os automobilistas continuam a procurar produto nas estações de serviço, o movimento observado no Porto de Pemba mostra que parte dos derivados petrolíferos está a seguir para uma operação industrial específica em Afungi. A existência de necessidades próprias do projecto de gás não elimina, contudo, a preocupação sobre a disponibilidade para os restantes consumidores da província, sobretudo numa altura em que o mercado retalhista enfrenta uma escassez que já se prolonga há vários dias.

A situação ocorre num contexto em que o Instituto Nacional de Petróleos e Recursos Minerais e Energia (IGREME), juntamente com responsáveis governamentais, têm procurado assegurar que existe combustível suficiente para responder à procura provincial.

Durante uma comunicação recente, o IGREME garantiu que estava a reforçar a fiscalização da distribuição e comercialização dos produtos petrolíferos, numa tentativa de conter práticas irregulares que podem agravar a escassez.

O chefe do Departamento de Inspecção e Fiscalização de Energia Eléctrica e Combustíveis, Bernardino Júnior Bernardo, afirmou que as equipas de fiscalização percorrem diariamente os postos de abastecimento e que já haviam sido apreendidos cerca de 2.200 litros de combustível. Segundo o responsável, cerca de 1.800 litros tinham sido apreendidos numa primeira operação, enquanto outros aproximadamente 400 litros foram posteriormente recolhidos.

As autoridades indicaram igualmente que tinham aplicado multas que, no conjunto, rondavam os 600 mil meticais.

Apesar dessas operações, persiste comercialização informal de gasolina nas ruas de Pemba perante o olhar impávido das autoridades de uma rede de contrabando envolvendo desde funcionários das gasolineiras a outras esferas, extendendo a cada dia que passa , onde o produto chega a ser vendido em pequenos recipientes a preços que podem atingir entre 200 e 400 meticais por litro, segundo relatos recolhidos pelo Moz24h.

A existência desse mercado paralelo não é, por si só, prova de um esquema organizado envolvendo funcionários de estações de serviço ou agentes públicos. O próprio IGREME reconheceu ter recebido denúncias sobre possíveis práticas de favorecimento, mas afirmou que, até ao momento, não tinha encontrado provas concretas capazes de confirmar a existência de um esquema dessa natureza.

Bernardino Júnior Bernardo disse que as fiscalizações seriam intensificadas precisamente para investigar essas denúncias e identificar eventuais infractores.

Entre os consumidores, porém, cresce a percepção de que a fiscalização ainda não está a conseguir impedir que parte do produto desapareça rapidamente das bombas ou seja posteriormente revendida fora do circuito formal. Alguns automobilistas afirmam ter observado clientes a abastecerem recipientes de maior capacidade, enquanto outros permanecem durante horas nas filas sem conseguir chegar à bomba.

Também neste caso, as alegações carecem de investigação e comprovação pelas autoridades competentes.

A pressão sobre a rede de abastecimento é agravada pela própria dimensão da infraestrutura disponível na província. Segundo os dados apresentados pelo inspector, Cabo Delgado possui 52 postos de abastecimento, dos quais 20 estão concentrados na cidade de Pemba. Do total provincial, 12 encontram-se inoperacionais por diferentes razões, incluindo problemas relacionados com insegurança e avarias.

Nos distritos, o acesso é ainda mais limitado. Cerca de 90% dos postos administrativos, segundo o IGREME, não dispõem de estações de serviço, obrigando as populações a deslocarem-se para os principais centros para adquirir combustível.

É neste cenário de escassez que a movimentação de camiões-tanque para Afungi ganha particular significado. O projecto de gás natural dispõe de necessidades operacionais próprias e de uma cadeia logística específica, mas a circulação de combustível para essa área, enquanto os consumidores de Pemba continuam nas filas, expõe a desigualdade entre diferentes circuitos de abastecimento existentes na província.

A questão não é apenas saber se Afungi deve ou não receber combustível. A questão que permanece sem resposta é como o produto disponível está a ser distribuído entre as diferentes necessidades de uma província onde transportadores, comerciantes, mototaxistas, famílias e empresas dependem diariamente da gasolina e do gasóleo para manter as suas actividades.

O Governo provincial, perante o descontentamento crescente, apelou aos mototaxistas para que não realizassem manifestações relacionadas com a falta de gasolina e garantiu estar a trabalhar com os operadores para assegurar uma distribuição mais equilibrada.

Entretanto, a promessa de normalização continua a ser confrontada com a experiência de quem permanece nas filas.

O contraste tornou-se ainda mais evidente depois do anúncio da chegada do navio com milhões de litros de gasolina. Se a quantidade anunciada representa um reforço significativo dos stocks provinciais, os consumidores querem saber quando esse produto estará efectivamente disponível nas bombas e por que razão, mesmo depois da chegada da carga, persistem postos sem capacidade de atender à procura.

A reportagem do Moz24h constatou que, enquanto essa resposta continua por esclarecer, o combustível segue outros circuitos logísticos. Na manhã de ontem, cinco camiões-tanque deixaram o Porto de Pemba carregados e tomaram o caminho de Afungi, numa operação destinada ao abastecimento do projecto de gás.

Para o consumidor comum, a realidade permanece marcada pela espera, pela incerteza e pelo custo crescente de encontrar gasolina. Para os operadores económicos, a escassez representa dificuldades adicionais de transporte e funcionamento. Para as autoridades, o desafio passa por garantir que o produto disponível seja distribuído de forma regular e que eventuais práticas ilegais sejam efectivamente identificadas e sancionadas.

A crise coloca, assim, uma pergunta que ultrapassa as filas nas gasolineiras: numa província onde a população enfrenta dificuldades para encontrar gasolina, como se explica que carregamentos de combustível continuem a rumar para Afungi enquanto Pemba permanece com consumidores à procura do produto?

Que dizem as autoridades as entidades competentes sobre a operação de transporte dos cinco camiões-tanque para Afungi, bem como sobre os critérios utilizados para a distribuição do combustível ‘ ‘ uma gota no oceano’ ’chegado recentemente ao Porto de Pemba!?

A resposta das autoridades será determinante para esclarecer se a actual escassez resulta apenas de uma ruptura temporária dos stocks, de limitações logísticas e de distribuição, ou se existem outros factores a contribuir para que o combustível anunciado como disponível ainda não esteja a chegar de forma regular aos consumidores.

Enquanto isso, entre Pemba e Afungi, o combustível continua a circular. A diferença é que, para uns, segue em camiões e batelões para alimentar uma das maiores operações industriais do país; para outros, continua a ser procurado em pequenas filas diante das bombas, onde uma simples ida para abastecer se transformou numa espera que dura dias. (Moz24h)

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