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Cerca de quatro mil e quatrocentos e cinquenta pessoas fogem de ataques em duas semanas em Cabo Delgado

Pelo menos 4.445 pessoas, incluindo 2.390 crianças, abandonaram as suas zonas de residência na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, entre 21 de Setembro e 2 de Outubro, devido a ataques de grupos armados e ao receio de novas incursões. Os movimentos envolveram 1.493 agregados familiares em vários distritos afectados pelo conflito, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

O levantamento do mecanismo de monitorização de deslocações de emergência (ETT) da OIM indica que Nangade, Macomia, Muidumbe e Mocímboa da Praia estiveram entre os distritos afectados pelos movimentos populacionais registados durante o período.

Nangade concentrou o maior número de deslocados, com 3.041 pessoas, equivalentes a cerca de 68% do total. Deste grupo, 2.307 procuraram abrigo em Nambedo, enquanto outras 734 seguiram para o Centro de Muadi, na localidade de Mualela.

Em Macomia, foram registadas 1.174 chegadas, com destaque para o Centro de Nondje, em Muagamula, que recebeu 815 pessoas. Os restantes deslocados foram distribuídos por outros centros de acolhimento, incluindo Xinavane, Serração e Songueia.

O relatório contabiliza ainda a chegada de 156 pessoas ao distrito de Mueda, 48 a comunidades de acolhimento em Namacande, no distrito de Muidumbe, e 26 pessoas provenientes de Mocímboa da Praia à localidade de Mpeme, também em Mueda.

Entre as localidades de origem, Nambedo, em Nangade, registou a saída de 2.682 pessoas. Seguiram-se Chai, no distrito de Macomia, com 569 deslocados, e Miengueleua, em Muidumbe, com 370 pessoas.

A maioria dos afectados teve de abandonar as suas casas a pé ou recorrer a transportes rodoviários para alcançar zonas consideradas mais seguras. Do total contabilizado, 2.390 são crianças, 1.364 mulheres e 691 homens, o que evidencia o peso das crianças e das mulheres entre as pessoas obrigadas a fugir da violência.

A situação é particularmente preocupante para os grupos com necessidades específicas. A OIM identificou 85 mulheres grávidas, 73 pessoas com mais de 60 anos, 31 crianças desacompanhadas ou separadas das respectivas famílias, 31 pessoas com deficiência e 10 pessoas com doenças crónicas.

Segundo o levantamento, ainda não é possível determinar durante quanto tempo estas famílias permanecerão deslocadas. Entre as necessidades prioritárias identificadas estão o acesso à alimentação, ao abrigo e a bens essenciais não alimentares, indispensáveis para garantir condições mínimas de sobrevivência nas comunidades de acolhimento.

As novas deslocações ocorrem num contexto de agravamento da insegurança em Cabo Delgado. Um relatório do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), intitulado Moçambique: O custo da inação e divulgado em Setembro, indica que os incidentes associados ao conflito aumentaram 10% no primeiro semestre de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

De acordo com o documento, foram registados mais de 400 incidentes de conflito entre Janeiro e Junho, incluindo homicídios, destruição de habitações, pilhagens e raptos. O relatório alerta igualmente para o recurso crescente a sequestros destinados à obtenção de resgates e ao recrutamento forçado, incluindo de crianças.

As consequências humanitárias do conflito continuam a afectar uma parte significativa da população da província. Segundo os dados citados pelas Nações Unidas, cerca de 1,38 milhões de pessoas vivem com os efeitos das deslocações, incluindo aproximadamente 662 mil deslocados internos e 722 mil pessoas que regressaram às suas zonas de origem.

As Nações Unidas alertam que, por detrás destes números, estão famílias obrigadas a abandonar repetidamente as suas casas, crianças com a educação interrompida e comunidades que perderam os seus meios de subsistência e o acesso regular a serviços básicos.

A persistência dos ataques e o receio de novas incursões continuam, assim, a provocar movimentos populacionais em Cabo Delgado, aumentando a pressão sobre as comunidades de acolhimento e as necessidades de assistência humanitária na província. (Moz24h)

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