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Há, de um lado, o colosso de uma só perna e alcoólico, e tudo o que isso implica: violência doméstica, comportamento irracional, tragicomédia do quotidiano — um “grande maluco”, como diz a filha, um verdadeiro punk antes do tempo. E há, do outro lado, o leitor autodidata de espiritualidade oriental, de sensibilidade artística reprimida, que todas as noites deposita um beijo terno sobre o retrato pixelizado da falecida esposa; o meu pai, diz a filha, aquele que só ela parece ver por detrás das aparências do primeiro. Há, por fim, uma casa, em Carrières-sous-Poissy, e um mundo outrora rural e operário.
Dessa casa, será preciso fazer alguma coisa após a morte desse pai Janus, colosso frágil de dupla face. Cacofonia improvável, caverna de Ali Babá, a casa degradada torna-se uma rede infinita de sinais e recordações para a filha, que decide organizar meticulosamente os seus pertences.
O que dizem de um pai esses cadernos de haikus, nos quais folhas de ácer ou de papel higiénico servem de marcadores? Mesmo ela, a filha, a narradora, tem dificuldade em encontrar coerência nesse caos. E então, um dia, como vinda do passado e falando do além, chega uma carta — que revela toda a verdade sobre esse pai amado a quem, apesar da distância social, a filha tanto se assemelha.
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