Por Josué Bila
Não bastam os colonialistas e escravagistas que nos despiram de toda a nossa dignidade e humanidade?
Como está cravado nas nossas memórias colectivas, não preciso de começar esse texto lembrando-vos que o empreendimento colonial criou uma série de instituições de adestramento dos pretos, desde os sistemas morais, éticos, políticos, jurídicos e até económicos, para que fôssemos gente que tivesse um aroma semi-agradável diante da civilização colonizadora e escravagista.
A consequência está aí: até hoje, para a nossa inserção social e comodidade institucional, local e internacionalmente, temos de reproduzir as instituições coloniais e ocidentais. Por isso, há pretos que exageram no estilo, na exteriorização e na verbalização, como forma de comprar o ingresso/bilhete para entrar nesse Mundo previamente estruturado e organizado. Esse Moçambique social e político, no qual vivemos, não foi organizado pelas elites dos impérios ou reinos africanos, por isso lutamos todos os dias para que nos encaixemos dentro dos sistemas políticos e económicos impostos. E quase todas as lutas têm os seus vencedores e perdedores. Os vencedores são todos os neo-assimilados do nosso tempo e integrados no sistema nacional e internacional. Os perdedores não precisam de ser descritos.
Porque somos privilegiados dessas instituições temos esquecido as dores, choros, lágrimas e lamentações dos nossos ancestrais, e, consequentemente, não criamos condições de nos compreender em todas dimensões.
Conhecer a História nacional, para, consequentemente, compreender os excessos de pessoas comuns ou elitizadas, talvez seja um dos requisitos do Homem moçambicano do Século XXI. Essa compreensão e toda a tarefa de remediar os excessos dos nossos compatriotas são uma exigência existencial. Aliás, antes de detectarmos os excessos do outro seria importante que soubéssemos que, igualmente, estamos cheios de excessos, impostos pela História. As pedras, que estão a ser lançadas ferozmente contra o Doutor R. Conrado, são injustas, porque também somos depositários de múltiplas excentricidades. Entretanto, somos beneficiados por outras lógicas locais, para que não sejamos expostos.
É o próprio assassinato de carácter em vigor, protagonizado por compatriotas que gozam de uma suposta imunidade, porque detém de uma rede de amigos e instituições, os quais envernizam as suas “fezes sociais”, para que ninguém as solte e nem as espalhe nas famosas redes sociais. É um jeito de vos lembrar que numa cerimônia de graduação nos EUA, Chimamanda Ngozi Adichie, sublinhou, cito de memória, que “o privilégio cega”, advertindo aos graduados sobre a necessidade de se lembrarem que a classe social a que pertencem lhes permite facilidades e corredores de inclusão nobre. Porém, devem se lembrar de serem empáticos e simpáticos diante de situações sociais diversas e adversas.
Não estou a defender os excessos do Dr. Conrado. Apenas estou a lembrar-vos que a nossa forja socializadora é a mesma que a dele, com uma e outra diferença.
Lembrem-se: todos sofremos de “tamodismos”. Se não for na fala assimilada ou escrita, pode ser no abocanhar de “bens ocidentais” somente para nós exclusivamente (dinheiro dos doadores… oportunidades….. privilégios). A diferença está, provavelmente, porque não caímos no campo de justiça pública.
Fomos colonizados. A baixa auto-estima conduz aos ex-colonizados a comprar, diariamente, a “dignidade branca”, para a sua sobrevivência. A maioria de nós não conseguimos interconectar as “manias doxais” do Dr. Conrado com a sobrevivência pela ligação com as instituições euro-americanas ou outras estrangeiras. Quem for financiado por instituições financeiras estrangeiras para expor governos locais, amanhã, quando houver consciência pública sobre a maldade ocidental, será o ridículo da vez, e precisará que os moçambicanos compreendam-no, empaticamente. Amanhã, quem brilhar como um académico e tiver de se aliar aos académicos ocidentais, poderá ser linchado, porque haverá consciência académica local em que mesmo as maiores citações ocorrerão entre os pretos.
Porém, ainda hoje, por outras razões, os académicos pretos locais, quando querem brilhar precisam de se aliar não somente fazendo os seus Ph.D.s no Ocidente, mas também escrevendo artigos, participando em conferências com os ocidentais. Uma conferência com dez tradicionalistas e declamadores numa comunidade rural moçambicana qualquer, onde os debates girem em torno da democracia participativa ancestral (este modelo existia nos sistemas políticos africanos, segundo conversas com vários anciãos e autores da história endógena africana) não será reverberado e nem tão pouco entrará nas métricas para o aumento da credibilidade académica de nenhum neo-assimilado. Por isso, o investimento sócio-académico com os “pares” ocidentais. Somos obrigados a cair nesses excessos, para que sejamos admitidos. Os excessos do Dr. Conrado só são diferentes, porque pouco analisamos como as nossas sociedades estão organizadas e estruturadas. Cada um tem um palanque onde apresenta os seus excessos, televisionados/publicitados ou não.
Há pretos que “só” fazem fotos com ocidentais ou com pretos do seu estirpe elitista, para as publicar no seu “Facebook”, para apelar a alguma credibilidade. Isso é um desdobramento sotacal do tamodismo. Apenas coisas dos ocidentais e dos pretos neo-assimilados detém de “valor simbólico”.
Há gente neo-assimilada, que tem citações quantitativas porque os seus co-autores são académicos de origem euro-americana. É o preto que só sente conforto de tomar café rodeado de ocidentais e neo-assimilados e nunca quando estiver com o preto retinto, com todas as “características indígenas”. Aliás, mesmo quando estão fora do País, dão maior apreço às amizades com os ocidentais, colegas ou não, deixando os pretos retintos ao “deus dará”. A busca por desejarmos ter semelhança com os ocidentais e suas instituições (sotaques, vestimentas, cabelos…) tem barba branca. Lamentavelmente, todos fomos condicionados a isso.
Andamos a apedrejar o Dr. Conrado. Porém, os nossos comportamentos exalam odores semelhantes ao nosso ridículo da vez. Tanto nós quanto ele fomos forjamos pela mesma História social. Há um pedaço dele em cada um de nós.
Como forma de “finalizar”, cada preto precisa de aprender a ser empático e, simultaneamente, a ser psicólogo do outro. Compreender as mazelas de um preto igual e chorar com ele, numa tentativa de cuidar dos seus traumas como “psicoterapeutas”, deveria ser a maior prova de que entendemos a horribilidade que a colonização e a escravatura representam, sem esquecer das violências que o Estado moçambicano tem cravado.
Tenho esperança de que o grunho que está dentro dos nossos corações será vencido pela sofisticação empática. O tempo dessa República das sofisticações empáticas está à porta… Somos a geração que entrará nessa República? Às vezes, duvido. Porém, tenho esperança.
