Moz24h Blog Sociedade Operação Moçambique-Ruanda resgata parte de mais de 150 pescadores sequestrados em Macomia
Sociedade

Operação Moçambique-Ruanda resgata parte de mais de 150 pescadores sequestrados em Macomia

Mais de 150 pescadores terão sido sequestrados por grupos armados ao longo da costa de Cabo Delgado, entre as aldeias de Pequeue e Milamba, no Posto Administrativo de Quiterajo, distrito de Macomia, segundo informações divulgadas pela OCHA. https://reliefweb.int/attachments/e5c861c3-e49b-4df9-9e70-bc2e65369b89/PHSA%20Cabo%20Delgado%20130726.pdf.

Parte dos pescadores terá conseguido escapar na sequência de uma operação militar envolvendo forças moçambicanas e ruandesas, que realizaram bombardeamentos contra posições dos insurgentes na região.

O episódio evidencia os riscos enfrentados pelas comunidades costeiras de Cabo Delgado, particularmente os pescadores, que continuam a ser alvo de ataques, raptos e restrições à circulação. A captura de embarcações e as incursões contra comunidades costeiras têm também afectado directamente os meios de subsistência das populações.

O novo episódio de violência ocorre num contexto de agravamento das necessidades humanitárias na região Norte de Moçambique. Dados de análises humanitárias de 2026 indicam que cerca de 1,1 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária no norte do país, das quais 919 mil vivem nos distritos de Cabo Delgado classificados entre os mais afectados pelo conflito.

Apesar da dimensão das necessidades, até meados de 2026 o financiamento humanitário continuava muito abaixo do necessário. O Plano de Necessidades e Resposta Humanitária (HNRP) de 2026 estimava serem necessários 348 milhões de dólares, mas os doadores tinham disponibilizado apenas 116 milhões, correspondentes a cerca de 34% do valor requerido.

Até ao final de Maio, aproximadamente 520 mil pessoas tinham recebido algum tipo de assistência humanitária, o equivalente a 46% da população inicialmente prevista como beneficiária. Nos distritos de maior gravidade de Cabo Delgado, a assistência tinha alcançado cerca de 263 mil pessoas, perante uma meta de 919 mil.

Crianças entre as principais vítimas

A violência também continua a afectar gravemente crianças. Um relatório de análise da situação de saúde pública, elaborado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Health Cluster, aponta para centenas de casos de violações graves contra crianças em Cabo Delgado, incluindo raptos e recrutamento por grupos armados.

O documento refere que 468 crianças foram raptadas, das quais 392 para recrutamento e utilização por grupos armados. Entre os casos confirmados de crianças afectadas, 71 eram raparigas.

“As crianças em Cabo Delgado enfrentam violações graves, incluindo raptos e recrutamento por grupos armados não estatais”, assinala o relatório, alertando igualmente para os impactos psicológicos provocados pela violência.

O mesmo documento coloca Moçambique entre os países que registaram um dos aumentos mais acentuados de violações graves contra crianças, com um crescimento de 525% em 2024.

Violência amplia deslocamentos

A insegurança continua igualmente a provocar novos deslocamentos. Em Junho, cerca de 12.174 pessoas foram obrigadas a abandonar as suas zonas de residência em Cabo Delgado, elevando para mais de 26 mil o número de pessoas deslocadas pela violência desde o início do ano.

Mulheres e crianças representavam cerca de 79% dos deslocados registados naquele mês, enquanto organizações de protecção identificaram preocupações relacionadas com separação familiar, violência baseada no género, perda de documentos e sofrimento psicossocial.

No Norte de Moçambique, o número de deslocados internos ultrapassa 500 mil pessoas, apesar de mais de 715 mil terem regressado às suas zonas de origem. Muitos dos que regressaram continuam dependentes de assistência devido às dificuldades de acesso à terra, serviços básicos e meios de subsistência.

Em Pemba, Metuge e Mecúfi, as condições de vida de deslocados urbanos também se deterioraram, agravadas pelos elevados custos de habitação, insegurança na posse da terra e impactos dos ciclones que atingiram a região.

Avanço da insurgência preocupa

A situação de segurança também se tornou mais complexa com a expansão das operações dos grupos armados para zonas anteriormente menos afectadas.

No final de Julho, insurgentes ligados ao Estado Islâmico chegaram à periferia da Reserva Especial do Niassa, onde entraram em confronto com tropas governamentais. O avanço para oeste aumentou os receios de uma expansão da violência para a província do Niassa.

Em Cabo Delgado, Macomia continua entre os distritos afectados pela actividade dos grupos armados. Os ataques, raptos e apreensão de embarcações têm impacto directo sobre a economia local e podem dificultar o regresso das populações deslocadas.

Assistência humanitária sob pressão

O acesso humanitário permanece condicionado pela insegurança, destruição de infra-estruturas e restrições à circulação. Em Abril, os incidentes de segurança aumentaram 47%, passando de 47 para 69 ocorrências.

Estradas, pontes e pistas de aterragem danificadas pelas chuvas também dificultaram a chegada de ajuda. No distrito do Ibo, por exemplo, os voos humanitários foram suspensos devido às más condições da pista, afectando cerca de 9 mil pessoas.

A situação é agravada pelo défice de financiamento. Com menos de metade das necessidades humanitárias cobertas, milhares de famílias continuam com acesso limitado a alimentos, cuidados de saúde, educação e serviços de protecção.

O sequestro dos pescadores em Quiterajo surge, assim, como mais um episódio de uma crise prolongada em que a violência armada continua a atingir directamente as comunidades costeiras, os meios de subsistência e a população civil de Cabo Delgado. (Moz24h)

Sair da versão mobile