Por Hélio Sendela
São Tomé e Príncipe vai às urnas.
Bandeiras, discursos de paz, tinta no dedo. O ritual democrático de sempre.
E como manda o guião, a SADC chegou. Com a sua missão de “observação eleitoral”.
Sorrisos, gravatas, carros com bandeirinhas. E no meio deles, adivinha quem?
Ex-presidentes africanos.
Os mesmos que governaram países onde votar virou lotaria.
Os mesmos que saíram do poder com eleições manchadas de sangue e fraude.
A BURLA CHAMA-SE SADC
SADC. União Africana. Missões de observação.
Palavras bonitas para esconder uma verdade dura: África virou um clube de cumplicidade.
Como é que um país vai levar a sério uma observação feita por gente que nunca respeitou o voto no seu próprio quintal?
Vejamos Moçambique. O caso mais escandaloso da região.
– 2004: Eleições vencidas por Armando Guebuza. A oposição denunciou enchimento de urnas. A CNE validou.
– 2014: Filipe Nyusi eleito com 57%. A Renamo recusou os resultados e voltou à guerra. Centenas de mortos.
– 2019: Nyusi reeleito com 73%. Missões da UE e da Igreja Católica denunciaram “irregularidades graves” e boletins pré-preenchidos. O Conselho Constitucional chancelou tudo.
– 2024: As eleições mais contestadas da história. Daniel Chapo declarado vencedor com 65%. O povo foi para a rua. Mais de 300 mortos. A UE disse que houve “manipulação de resultados”. O Tribunal validou na mesma.
Quatro ciclos. Quatro contestações. Quatro validações.
E agora? Agora os arquitetos desse sistema pegam avião, pousam em São Tomé, vestem o colete de “observador” e vêm dar lição de transparência.
É Joaquim Chissano, Armando Guebuza, Filipe Nyusi. Homens que presidiram a esse ciclo.
QUEM GUARDA OS GUARDIÕES?
Quem garante que em São Tomé vai haver transparência, se os “observadores” foram protagonistas da fraude nos seus países?
É como pôr o ladrão para vigiar a casa do vizinho.
É como chamar o incendiário para ser bombeiro.
A SADC não observa eleições. A SADC valida regimes.
A UA não defende a democracia. A UA defende os seus.
E o povo? O povo de São Tomé, de Maputo, de Luanda, de Harare…
O povo só serve para ir votar, para fazer figura, para dar legitimidade a um teatro que já tem o final escrito.
CHEGA DE TEATRO
África precisa de vergonha na cara.
Enquanto continuarmos a exportar fraudadores para fiscalizar eleições, vamos continuar a importar ditaduras disfarçadas de democracia.
São Tomé merece mais. Moçambique mereceu mais.
Merecemos observadores que não tenham o próprio telhado de vidro.
Merecemos uma SADC que fiscaliza de verdade.
Até lá, podemos chamar as coisas pelo nome:
SADC é uma burla. E parte de África também.
Porque democracia sem integridade é só encenação.
E nós já estamos cansados de aplaudir.

