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O PREÇO DE INVESTIGAR OS DONOS DA MADEIRA EM MOÇAMBIQUE

Por Jerry Maquenzi

 

A recente apreensão dos equipamentos de trabalho do jornalista investigativo Estácio Valoi reacendeu um debate que Moçambique nunca conseguiu resolver plenamente. Até que ponto um Estado democrático consegue conciliar a investigação criminal com a protecção da liberdade de imprensa? E quando um jornalista que investiga interesses económicos poderosos se torna alvo de medidas coercivas, estaremos perante um acto normal de justiça ou perante um sinal preocupante para todos aqueles que dependem da informação livre para compreender o que acontece no país?

Estas perguntas não surgem porque jornalistas estejam acima da lei. Nenhum cidadão está acima da lei. Também não surgem porque uma investigação criminal seja, por si só, um atentado à democracia. Os órgãos de justiça têm o dever de investigar sempre que existam indícios da prática de ilícitos. O problema surge quando determinadas acções levantam dúvidas legítimas sobre a sua proporcionalidade, os seus objectivos e as suas consequências para o interesse público.

O caso torna-se particularmente sensível porque não envolve um jornalista qualquer. Estácio Valoi construiu ao longo de muitos anos uma reputação associada à investigação de temas complexos e frequentemente incómodos para diferentes centros de poder. Entre esses temas destacam-se a exploração dos recursos naturais, o conflito em Cabo Delgado e as relações entre interesses económicos e instituições públicas. Trata-se de áreas onde a informação raramente circula de forma transparente e onde o trabalho jornalístico desempenha uma função essencial de fiscalização.

Importa igualmente recordar que a controvérsia em torno da empresa Safi Timber não nasceu das reportagens de um único jornalista. A discussão sobre as actividades da empresa foi objecto de cobertura por diversos órgãos de comunicação social, incluindo o Diário Económico, o Savana, a Integrity, a Carta de Moçambique e o Moz24h. Organizações ligadas ao sector florestal, entidades governamentais e diferentes actores públicos também participaram no debate. A própria suspensão da licença de exportação atribuída à empresa foi amplamente divulgada e discutida na esfera pública.

Este aspecto é fundamental porque demonstra que o tema não era uma obsessão individual de um jornalista. Tratava-se de uma matéria de interesse público que mobilizou vários meios de comunicação social e despertou atenção institucional. Quando uma questão é debatida por múltiplos órgãos de imprensa, a sociedade tende a concentrar-se nos factos reportados. Porém, quando as atenções passam a concentrar-se sobre um jornalista específico, surge inevitavelmente a pergunta que nenhum observador atento consegue ignorar. O problema está na informação divulgada ou em quem a divulgou?

Segundo o relato tornado público, agentes do SERNIC apresentaram um mandado para apreensão de equipamentos electrónicos. Até aqui, estamos perante um procedimento que pode enquadrar-se nas competências legais das autoridades. Contudo, a situação adquire uma dimensão diferente quando, durante a diligência, surgem referências directas ao conteúdo de artigos publicados sobre a Safi Timber e ao uso de determinadas expressões empregues nas reportagens.

Não cabe a este artigo determinar intenções que apenas os próprios intervenientes poderão esclarecer. Contudo, é legítimo observar que existe uma diferença substancial entre investigar um eventual crime e discutir o conteúdo editorial de uma reportagem. Quando uma diligência policial passa a incluir referências específicas a textos jornalísticos, abre-se espaço para dúvidas que dificilmente podem ser ignoradas.

A questão torna-se ainda mais delicada porque os equipamentos apreendidos não representam apenas objectos materiais. Um computador de um jornalista não é comparável a um simples instrumento de trabalho administrativo. Nele podem estar armazenados anos de investigação, contactos profissionais, documentos obtidos através de fontes confidenciais, fotografias, gravações, entrevistas e informações relativas a investigações ainda não publicadas. A apreensão desses equipamentos pode afectar não apenas um jornalista, mas também dezenas de cidadãos que confiaram informações à imprensa acreditando na protecção do sigilo profissional.

Em qualquer democracia funcional, a protecção das fontes jornalísticas constitui um elemento essencial da liberdade de imprensa. Muitas denúncias de corrupção, tráfico de recursos naturais, abuso de poder e gestão danosa do património público chegam ao conhecimento da sociedade precisamente porque alguém decidiu falar com um jornalista. Sem essa garantia mínima de confidencialidade, grande parte das irregularidades permaneceria escondida.

Moçambique conhece bem esta realidade. Diversos escândalos envolvendo recursos naturais, contractos públicos e actos de corrupção só chegaram ao domínio público graças ao trabalho persistente de jornalistas, investigadores e organizações da sociedade civil. Em muitos casos, as instituições do Estado actuaram apenas depois de a informação ter sido divulgada pela imprensa.

É precisamente por isso que a apreensão de equipamentos de um jornalista não pode ser encarada como um acontecimento trivial. Mesmo quando ocorre dentro dos limites da lei, produz inevitavelmente um efeito mais amplo sobre o ambiente de trabalho da comunicação social. Outros jornalistas observam o sucedido. Fontes observam o sucedido. Funcionários públicos observam o sucedido. Empresários observam o sucedido. Todos retiram conclusões sobre os riscos associados à divulgação de informações sensíveis.

Este fenómeno é conhecido em muitas democracias como efeito de intimidação indirecta. Não é necessário prender jornalistas nem encerrar jornais para produzir consequências sobre a liberdade de expressão. Em determinadas circunstâncias, basta criar um ambiente em que os custos da investigação se tornem demasiado elevados. Quando isso acontece, a autocensura começa a substituir a censura formal.

A autocensura é particularmente perigosa porque não deixa marcas visíveis. Não aparece nos tribunais. Não surge nas estatísticas. Não gera comunicados oficiais. Ela manifesta-se quando um repórter decide abandonar uma investigação considerada demasiado arriscada. Manifesta-se quando uma fonte opta pelo silêncio. Manifesta-se quando um editor conclui que determinados assuntos podem gerar problemas desnecessários.

No caso da Safi Timber, existe um elemento adicional que merece reflexão. As reportagens e controvérsias associadas à empresa inserem-se num sector historicamente marcado por denúncias de exploração ilegal, subfacturação, exportação irregular e fragilidades de fiscalização. Ao longo de décadas, diferentes relatórios nacionais e internacionais alertaram para os desafios enfrentados pelo Estado moçambicano na gestão sustentável dos recursos florestais.

Isso significa que a discussão em torno da madeira não diz respeito apenas a uma empresa ou a um jornalista. Trata-se de uma questão ligada à soberania económica, à conservação ambiental e à capacidade das instituições públicas protegerem recursos que pertencem a todos os moçambicanos. Quando jornalistas investigam estas matérias, estão a actuar numa área onde o interesse público é particularmente elevado.

Por essa razão, qualquer medida que possa ser interpretada como pressão sobre o jornalismo investigativo deve ser analisada com extremo cuidado. Não porque os jornalistas sejam intocáveis, mas porque a sociedade necessita de mecanismos independentes de fiscalização. Quanto mais poderosos forem os interesses económicos envolvidos, maior deve ser a protecção daqueles que procuram escrutiná-los.

O aspecto mais preocupante desta situação talvez não seja aquilo que já aconteceu. O aspecto mais preocupante pode ser aquilo que acontecerá a seguir. Se a apreensão dos equipamentos de um jornalista passar a ser vista como uma consequência normal da publicação de investigações incómodas, outros profissionais poderão evitar temas semelhantes no futuro. A longo prazo, o resultado será uma esfera pública menos informada e menos capaz de exigir responsabilidades.

Uma democracia saudável não se mede apenas pela existência de eleições. Mede-se também pela capacidade dos cidadãos terem acesso a informação independente sobre o exercício do poder económico e político. Sempre que surgem dúvidas sobre a relação entre instituições de justiça e liberdade de imprensa, essas dúvidas devem ser discutidas de forma aberta e transparente.

O caso de Estácio Valoi não deve ser transformado numa batalha entre heróis e vilões. Essa abordagem simplificaria excessivamente uma questão complexa. O que está em causa é algo maior do que a situação individual de um jornalista. O que está em causa é o ambiente em que o jornalismo investigativo irá operar nos próximos anos em Moçambique.

Se as autoridades actuaram de forma plenamente legítima, proporcional e necessária, cabe-lhes demonstrá-lo com clareza perante a opinião pública. A transparência é a melhor resposta para qualquer suspeita. Mas se persistirem dúvidas sobre a verdadeira natureza da intervenção, essas dúvidas não desaparecerão apenas porque foram ignoradas.

No final, a questão central continua a ser simples. Uma sociedade que deseja combater a corrupção, a exploração ilegal dos recursos naturais e os abusos de poder precisa de jornalistas capazes de investigar assuntos incómodos. Precisa de repórteres dispostos a fazer perguntas difíceis. Precisa de fontes dispostas a falar. Precisa de cidadãos dispostos a exigir explicações.

Quando os custos de investigar se tornam demasiado elevados, quem perde não é apenas um jornalista. Quem perde é a sociedade inteira. E esse pode ser o preço mais alto de todos.

 

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