As empresas lideradas por mulheres representam 52% das firmas de Cabo Delgado registadas no LINKAR, programa da Empresa Nacional de Hidrocarbonetos (ENH) criado para preparar e integrar empresas moçambicanas nas cadeias de valor da indústria do petróleo e gás.
O dado foi apresentado esta quarta-feira (5), em Maputo, por Rudêncio Morais, presidente do Conselho de Administração da ENH, durante a 4.ª edição da Conferência Mulheres na Economia, promovida pela Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC).
Segundo o responsável, o LINKAR, lançado em 2023, conta actualmente com uma base de cerca de 270 empresas registadas em todo o País. Deste universo, 79 empresas pertencem a mulheres, o equivalente a 30%. Em Cabo Delgado, a representação das empresas femininas atinge 52%, enquanto em Inhambane se aproxima de 50%.
Rudêncio Morais explicou que o programa pretende reforçar a capacidade do sector privado nacional para responder à procura de bens, serviços e competências gerada pela indústria do petróleo e gás. A iniciativa inclui ainda uma componente de empoderamento económico feminino, procurando facilitar o acesso de empresárias moçambicanas às oportunidades criadas pelo desenvolvimento do sector extractivo.
No âmbito da formalização empresarial, o LINKAR apoiou a legalização de cerca de 118 empresas nas províncias de Cabo Delgado e Inhambane. Destas, aproximadamente 40, o equivalente a 34%, são lideradas por mulheres.
A participação feminina estende-se também ao processo de certificação pela norma ISO 9001. Das 28 empresas abrangidas por esta componente, seis pertencem a mulheres. Segundo Rudêncio Morais, algumas das empresas contratadas para prestar assistência técnica ao programa são igualmente lideradas por mulheres, demonstrando que a inclusão feminina está presente em diferentes fases da iniciativa, desde a formalização e capacitação empresarial até à certificação e prestação de serviços especializados.
O responsável afirmou que a promoção da participação feminina integra a estratégia de conteúdo local da ENH, destinada a assegurar que o crescimento da indústria do petróleo e gás se traduza em oportunidades concretas para os moçambicanos.
Apesar dos progressos, Rudêncio Morais reconheceu que a presença das mulheres no sector continua abaixo do desejável. “Reconhecemos que a participação feminina está abaixo do desejável”, afirmou, acrescentando que estão em curso iniciativas para aumentar o número de raparigas e mulheres nas áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (CTEM).

Na sua intervenção, o presidente da ENH defendeu que a inclusão feminina não deve limitar-se à presença de mulheres em cargos de gestão, devendo ser acompanhada por formação e capacitação que lhes permitam competir pelas melhores oportunidades profissionais. “É sobre escolher os melhores para as melhores posições. E, quando esse momento chega, se esta melhor é uma mulher, não temos de ter nenhum remorso, nenhuma hesitação em dizer que é ela que deve liderar”, declarou.
Rudêncio Morais referiu que a ENH conta com mulheres em diferentes níveis de responsabilidade, incluindo cargos de chefia, direcção e administração. Entre os exemplos, destacou Alegria Costa, administradora responsável pelas áreas de administração, finanças e capital humano, a administradora não executiva da empresa e a responsável pelo pelouro de pesquisa e produção, uma das principais áreas de negócio da ENH.
O responsável defendeu ainda uma maior coordenação entre operadoras, instituições de ensino, regulador e restantes entidades envolvidas na indústria do petróleo e gás.
Na sua perspectiva, as operadoras devem indicar com antecedência os perfis profissionais, competências e serviços de que irão necessitar, permitindo orientar a formação e a capacitação empresarial para oportunidades concretas de contratação. Segundo explicou, esta planificação permitiria realizar a formação em Moçambique e responder às necessidades do sector em tempo útil.
Rudêncio Morais associou esta abordagem à futura legislação de conteúdo local, defendendo que as empresas deverão apresentar planos de aquisição de bens e serviços, bem como de integração de técnicos e quadros nacionais.
Para o presidente da ENH, a participação feminina na indústria não deve ficar confinada a actividades periféricas. Defendeu que as mulheres sejam preparadas para exercer funções nas áreas da engenharia, mecânica, ciência e produção de hidrocarbonetos.
O responsável destacou ainda a relação entre o acesso à energia e a permanência das raparigas na escola. Como exemplo, referiu o programa de distribuição de gás canalizado em Inhassoro, Govuro e Vilankulo, considerando que o acesso das famílias a esta fonte de energia reduz a necessidade de as raparigas percorrerem longas distâncias para recolher lenha, favorecendo a continuidade dos estudos.
Rudêncio Morais indicou ainda que a ENH distribuiu mais de 2500 copos menstruais em Cabo Delgado, iniciativa que, na sua perspectiva, contribui para criar melhores condições para a permanência das raparigas e mulheres nas actividades escolares, profissionais e económicas.
A 4.ª edição da Conferência Mulheres na Economia reuniu representantes do Governo, do sector privado, da academia, da sociedade civil e de instituições ligadas à energia, tecnologia e desenvolvimento. O encontro debateu temas como a formação, a liderança e a participação das mulheres nos sectores estratégicos da economia, incluindo o acesso ao emprego qualificado, às cadeias de valor, aos contratos e aos lugares de decisão.