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Muhammad Abdullah — “Aumento Dos Combustíveis Poderá Afectar Recuperação e Crescimento do Turismo”

Texto : Cleusia Chirindza& Felisberto Ruco

O director-executivo da Cotur, porventura a mais representativa agência de viagens em Moçambique, Muhammad Abdullah, considera que o aumento dos preços dos combustíveis poderá afectar a recuperação e o crescimento do turismo em Moçambique, ao pressionar os custos da mobilidade e toda a cadeia de valor do sector.

O sector do turismo acompanha com preocupação a evolução dos preços dos combustíveis, numa altura em que os sucessivos reajustes continuam a pressionar os custos de transporte e operação das empresas. Apesar de o Governo ter admitido recentemente a possibilidade de uma redução dos preços, caso se consolide o alívio das tensões no Médio Oriente e a estabilização dos mercados internacionais, os operadores alertam que o actual cenário já está a produzir impactos na actividade turística.

Em entrevista ao Diário Económico, o director-executivo da Cotur, Muhammad Abdullah, considerou que o aumento dos combustíveis poderá afectar a recuperação e o crescimento do turismo em Moçambique, ao pressionar os custos da mobilidade e toda a cadeia de valor do sector.

Segundo Abdullah, “a subida dos combustíveis representa, sem dúvida, uma das maiores preocupações actuais para o sector. O turismo depende muito da mobilidade: transporte aéreo, terrestre, marítimo, transfers, excursões, logística hoteleira e abastecimento. Quando o combustível sobe, praticamente toda a cadeia de valor turística é pressionada. Não diria que é a única ameaça, mas é certamente um dos factores que mais pode condicionar a competitividade e o crescimento do turismo em Moçambique.”

O responsável admite que os custos acrescidos poderão reflectir-se nos preços pagos pelos turistas, uma vez que as empresas têm capacidade limitada para absorver sucessivos aumentos.

“É provável que sim. As empresas poderão tentar absorver parte dos custos, mas, quando os aumentos são significativos e prolongados, uma parte acaba inevitavelmente por ser reflectida nos preços finais. Isto pode acontecer nas passagens aéreas, nos transfers, nos pacotes turísticos, nas excursões e até nos serviços hoteleiros.”

Muhammad Abdullah considera igualmente existir o risco de alguns destinos turísticos perderem atractividade, sobretudo aqueles que dependem de deslocações terrestres mais longas ou de ligações aéreas mais dispendiosas. “Moçambique tem destinos extraordinários, mas muitos deles exigem logística complexa. Se o custo de acesso aumentar demasiado, alguns turistas poderão optar por destinos concorrentes mais fáceis ou mais baratos.”

Na sua análise, “o turismo é um sector transversal. Quando há redução da procura, o impacto não fica apenas nos hotéis ou nas agências de viagens. Afecta transportadores, guias, restaurantes, fornecedores, artesãos, comunidades locais e pequenas empresas. Se os custos continuarem a subir, poderá haver menor rentabilidade, redução de investimento, pressão sobre postos de trabalho e menor contribuição do turismo para a economia nacional.”

“Quando o combustível sobe, praticamente toda a cadeia de valor turística é pressionada.”

Muhammad Abdullah – director-executivo da Cotur,

Questionado sobre as perspectivas para 2026, Abdullah respondeu: “Sim, poderá afectar. O turismo moçambicano tem enorme potencial e vinha numa trajectória de recuperação e crescimento, mas o aumento dos combustíveis pode travar esse ritmo. A preocupação já foi reconhecida publicamente ao nível do sector, precisamente porque o custo da mobilidade é central para a actividade turística.”

O director-executivo da Cotur alerta, contudo, que o aumento dos custos internos poderá reduzir a competitividade do País. “Moçambique tem vantagens muito fortes: praias únicas, cultura, natureza, gastronomia, hospitalidade e uma localização estratégica. Mas compete com países que têm maior conectividade aérea, infra-estruturas turísticas mais consolidadas e, em alguns casos, custos logísticos mais previsíveis. Se os custos internos aumentarem demasiado, Moçambique pode perder competitividade, não por falta de beleza ou potencial, mas por encarecimento do acesso e da operação.”

Para minimizar os impactos, Abdullah defende medidas de apoio ao sector, incluindo incentivos temporários às empresas formais, melhoria da conectividade aérea, redução dos custos operacionais, facilitação de vistos e reforço da promoção internacional. “O Governo poderia olhar para o turismo como um sector estratégico de exportação. Seria importante criar medidas temporárias de alívio para empresas turísticas formais, melhorar a conectividade aérea, reduzir custos operacionais, facilitar vistos, reforçar a promoção internacional e apoiar a mobilidade para destinos prioritários. O turismo gera divisas, emprego e imagem positiva para o país, por isso deve ser protegido.”

Apesar dos desafios, Muhammad Abdullah mantém uma perspectiva positiva sobre o futuro do turismo moçambicano, defendendo, contudo, uma actuação coordenada entre o sector público e privado. “Se a tendência se mantiver, o sector terá de operar num ambiente mais difícil. Os preços poderão subir, as margens poderão cair e alguns destinos poderão sentir maior pressão. Ainda assim, continuo optimista quanto ao futuro do turismo moçambicano. O potencial do País é enorme, mas será necessário agir com estratégia, coordenação e sentido de urgência.”

 

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