Por Estácio Valoi
Entre balas, raptos, decapitações, deslocamentos forçados e fome, a guerra que assola Cabo Delgado desde 2017 não parece ter conseguido travar a exploração ilegal de madeira. Em diferentes pontos da província, florestas continuam a ser devastadas, enquanto carregamentos de madeira seguem por vias terrestres e marítimas, tendo como destino final, segundo fontes locais, mercados externos, incluindo a Tanzânia, a China e o Dubai.
Na semana passada, os serviços de fiscalização florestal e faunística, com o apoio da Agência Nacional para o Controlo da Qualidade Ambiental (AQUA, IP), apreenderam uma quantidade considerável de madeira no distrito de Mocímboa da Praia, alegadamente preparada para ser retirada do país através da Tanzânia.

Segundo fontes locais, trata-se de mais de 20 mil pranchas de madeira serrada, principalmente das espécies Chanfuta e Umbila, que estavam escondidas em quintais na vila de Mocímboa da Praia.
A equipa da AQUA deslocou-se ao terreno para quantificar a madeira apreendida. As fontes indicam que parte do produto estaria destinada à exportação e que os carregamentos seriam feitos durante a noite, através de embarcações.
“São mais de 20 mil pranchas de madeira serrada das espécies Chanfuta e Umbila, escondidas nos quintais em Mocímboa da Praia, prestes a serem exportadas para a Tanzânia. A equipa da AQUA está no terreno para fazer a quantificação. Ainda estão a contabilizar para determinar o número total”, disseram as fontes.
Madeira continua a sair de zonas de conflito
Mocímboa da Praia não será, porém, o único distrito onde a exploração de madeira continua em plena situação de conflito.
Fontes locais apontam também para Macomia e Muidumbe, distritos onde continuam a ocorrer confrontos e operações militares contra grupos armados.
A questão que se coloca é como é possível que actividades de corte, transporte e carregamento de madeira continuem a ocorrer em áreas consideradas de risco, onde a circulação de pessoas e viaturas deveria estar sujeita a um maior controlo.
Segundo informações recolhidas pelo Moz24h, a exploração ocorre em zonas onde, paralelamente, se ouvem disparos e se registam movimentações de grupos armados.
“Como é possível que os madeireiros estejam a retirar madeira numa zona de conflito e não sejam atacados? Como é possível que haja exploração desses recursos e não se consiga identificar ou capturar os autores?”, questionam moradores de Muidumbe, Macomia e Mocímboa da Praia.
Camiões, barcos e carregamentos nocturnos
Durante uma deslocação realizada pelo Moz24h à região, foram recolhidos relatos sobre a circulação de camiões carregados de madeira e sobre a utilização de embarcações para transportar o produto.
“É verdade que o contrabando de madeira continua, mesmo na situação de conflito no Norte da província de Cabo Delgado, sobretudo nos distritos de Mocímboa da Praia, Muidumbe e Macomia”, relatou uma das fontes.
Segundo a mesma fonte, não são apenas camiões que transportam a madeira.
“Também há barcos que carregam madeira na calada da noite, nas vias de Mocímboa da Praia, com destino ao outro lado do país.”
Fontes locais levaram a equipa do Moz24h a algumas residências na zona de Zalala, em Mocímboa da Praia, onde afirmam ter encontrado madeira armazenada nos quintais durante os meses de Julho e Agosto.
Segundo os relatos, a madeira chegava em camiões e posteriormente era transferida para barcos.
O Moz24h afirma ter observado e contabilizado cerca de 69 embarcações que teriam carregado madeira com destino à Tanzânia.
As fontes alegam ainda que alguns carregamentos ocorreriam com a presença ou cobertura de agentes ligados à fiscalização marítima e de outras pessoas à paisana. Esta alegação carece, contudo, de confirmação independente.
As rotas da madeira
De acordo com as fontes consultadas pelo Moz24h, Mocímboa da Praia constitui uma das principais zonas de saída da madeira por via marítima, enquanto Nangade seria utilizado como uma das rotas terrestres.
Outra parte da madeira seria transportada para Macomia, onde, segundo as mesmas fontes, poderia entrar num circuito de documentação e posterior transporte para outros pontos do país.
Pemba e Nacala são apontados como possíveis destinos de parte da madeira antes da sua saída para mercados externos.
A região de Cabo Delgado mantém há vários anos uma ligação conhecida com redes de exploração e tráfico ilegal de madeira. A persistência dessa actividade numa província afectada por um conflito armado levanta, contudo, novas questões sobre os mecanismos de fiscalização, as rotas utilizadas e os possíveis beneficiários.
Madeira e terrorismo: uma questão ainda por esclarecer
A coexistência entre a exploração ilegal de recursos naturais e o conflito armado levanta uma questão particularmente sensível: como conseguem operadores económicos entrar, cortar, armazenar e transportar madeira em zonas onde a presença de grupos armados é conhecida?
A resposta poderá ajudar a compreender se existem apenas falhas de fiscalização ou se há redes organizadas capazes de operar através de diferentes territórios e níveis de controlo.
Também permanece por esclarecer se existe alguma ligação directa entre os grupos armados que actuam em Cabo Delgado e as redes de exploração e tráfico de madeira.
Até ao momento, os relatos recolhidos pelo Moz24h não permitem estabelecer, por si só, essa ligação.
O que as evidências e testemunhos locais indicam é que a exploração e circulação ilegal de madeira continuam a ocorrer numa província onde o Estado enfrenta uma das suas maiores crises de segurança desde 2017.
O paradoxo da crise climática
O fenómeno ocorre num momento em que o próprio Governo moçambicano tem destacado, no plano internacional, a vulnerabilidade do país às alterações climáticas.
No seu discurso na 81.ª Sessão da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 23 de Setembro de 2026, o Presidente Daniel Chapo abordou questões relacionadas com a justiça climática, financiamento climático, infra-estruturas resilientes e os impactos de fenómenos extremos, incluindo ciclones, cheias e secas.
O Presidente também destacou os efeitos do fenómeno El Niño sobre a segurança alimentar e os meios de subsistência das populações.
Neste contexto, a continuidade da devastação florestal coloca uma questão adicional: como conciliar os compromissos de Moçambique em matéria de protecção ambiental e resiliência climática com a persistência de redes de exploração ilegal dos recursos florestais?
Cabo Delgado enfrenta simultaneamente uma crise de segurança, uma crise humanitária e uma pressão crescente sobre os seus recursos naturais.
Enquanto o som das armas continua a marcar a vida de milhares de pessoas, motosserras e camiões continuam, segundo os relatos recolhidos pelo Moz24h, a operar em algumas zonas florestais.
A madeira sai por terra e por mar.
E, no meio do terrorismo, permanece uma pergunta sem resposta: quem está a beneficiar da exploração das florestas de Cabo Delgado e como é possível que esta actividade continue a funcionar em zonas de conflito?
PS: Os nomes das fontes, todos fictícios
(Moz24h)