Estudo continental revela que seis em cada dez jovens moçambicanos preferem defender a democracia, mesmo quando o Governo demora a responder aos problemas do país. Ao mesmo tempo, cresce a perceção de que a classe política está distante da realidade da juventude
Por Quinton Nicuete
Num país marcado pelo desemprego, pelo elevado custo de vida, pela insurgência em Cabo Delgado e por sucessivas crises económicas, os jovens moçambicanos continuam a defender a democracia, mas deixam um aviso claro à classe política: o modelo atual já não responde às suas expectativas.
Os dados constam do African Youth Survey 2026, um dos maiores estudos sobre a juventude africana, divulgado esta terça-feira pela Ichikowitz Family Foundation.
Os resultados surgem numa altura em que Moçambique enfrenta uma combinação de desafios, desde o aumento do custo de vida e o desemprego juvenil até à insegurança em Cabo Delgado, fatores que têm alimentado o descontentamento entre a população mais jovem.
Apesar disso, o estudo conclui que os jovens não rejeitam a democracia. Pelo contrário, querem instituições que funcionem, líderes mais próximos da população e respostas concretas para problemas como emprego, corrupção e acesso aos serviços públicos.
A pesquisa mostra ainda que 76% dos jovens africanos consideram que os atuais líderes estão desligados das necessidades da juventude, enquanto igual percentagem entende que existem poucos jovens em cargos de decisão.
A insatisfação traduz-se também numa exigência de renovação política. Setenta e nove por cento afirmam que votariam com maior facilidade em partidos que apresentassem mais candidatos jovens, enquanto 65% defendem limites de idade para presidentes e primeiros-ministros.
Embora Moçambique continue entre os países onde a juventude demonstra maior compromisso com os princípios democráticos, o relatório alerta que esse apoio depende cada vez mais da capacidade dos governos produzirem resultados concretos.
A criação de emprego aparece como a principal prioridade para o desenvolvimento do continente, seguida do combate à corrupção. O aumento do custo de vida é apontado como o acontecimento que mais afetou África nos últimos cinco anos.
O estudo também revela um contraste preocupante. Enquanto o otimismo em relação ao futuro de África cresce, Moçambique surge entre os países onde o pessimismo continua mais acentuado, ao lado do Quénia, África do Sul, Chade e Nigéria.
Realizado em março deste ano, o African Youth Survey 2026 entrevistou 4.901 jovens, entre os 18 e os 24 anos, em 16 países africanos, incluindo Moçambique. Os resultados traçam o retrato de uma geração que continua a acreditar na democracia, mas que exige governos capazes de transformar promessas em oportunidades e participação política em resultados concretos. (Moz24h)