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GUINÉ-BISSAU: A CHAVE DA SOLUÇÃO NÃO ESTÁ EM DAKAR!

OBSERVATÓRIO LUSÓFONO

A CEDEAO, a tutela senegalesa e a tentativa de transformar a Guiné-Bissau num quintal político e estratégico
Por Adriano S. Kansala
A diplomacia não pode transformar-se em tutela
Um artigo publicado em 1 de novembro de 2026 pelo portal senegalês Exclusif.net, sob o título «Axe Dakar-Bissau : Les coulisses d’un marchandage politico-sécuritaire entre Bassirou Diomaye Faye et la junte», levanta questões que ultrapassam largamente as relações bilaterais entre o Senegal e a Guiné-Bissau.
Segundo o artigo, a deslocação do general Horta Inta-A a Dakar, em 31 de outubro, teria permitido discutir um entendimento envolvendo o adiamento das eleições guineenses, garantias democráticas e compromissos de segurança relacionados com a Casamança.
A narrativa apresenta o Presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, como interlocutor praticamente indispensável para a sobrevivência política das autoridades militares de Bissau.
Mas desde quando a chave da solução de uma crise constitucional guineense se encontra nas mãos do Presidente de um país vizinho?
E, sobretudo, como conciliar semelhante protagonismo bilateral com as responsabilidades de imparcialidade inerentes ao mandato de mediação confiado ao Senegal pela CEDEAO?
O artigo cita fontes diplomáticas não identificadas. As alegadas contrapartidas entre Dakar e Bissau não podem, por isso, ser tratadas como um acordo comprovado. Mas a lógica política descrita merece uma reflexão séria.
A Guiné-Bissau não é uma dependência administrativa do Senegal. É um Estado soberano, membro das Nações Unidas, da União Africana, da CEDEAO e da CPLP.
A CEDEAO e a tentativa de transformar a Guiné-Bissau no quintal do Senegal
A CEDEAO deve responder a uma questão fundamental: está a trabalhar para restaurar a soberania democrática da Guiné-Bissau ou a contribuir para a sua transformação num quintal político e estratégico do Senegal?
A persistência da mediação senegalesa, apesar da sua manifesta perda de credibilidade política junto de importantes setores guineenses, alimenta a perceção de que os interesses estratégicos de Dakar se sobrepõem progressivamente à vontade soberana dos guineenses.
É igualmente legítimo questionar a influência que as relações políticas entre Emmanuel Macron, Macky Sall, Bassirou Diomaye Faye e Umaro Sissoco Embaló poderão exercer sobre a condução regional da crise.
A França, antiga potência colonial no Senegal e ator historicamente influente na África Ocidental, não pode ser ignorada numa análise das relações de poder regionais.
Naturalmente, influência histórica e convergência de interesses não constituem, por si sós, prova de uma estratégia concertada entre esses dirigentes. Mas seria igualmente ingénuo analisar a crise guineense como se ela estivesse completamente isolada dos interesses geopolíticos que atravessam a região.
A Guiné-Bissau não é o quintal do Senegal, nem uma extensão da esfera de influência francesa. Muito menos pode ser tratada como território politicamente disponível para entendimentos entre dirigentes estrangeiros e elites nacionais.
A CEDEAO foi criada para promover a cooperação e a integração regional, não para conferir a determinados Estados o privilégio de administrar o destino político dos seus vizinhos.
O princípio da subsidiariedade não pode servir de cobertura diplomática para a perpetuação de dependências políticas.
A soberania guineense não se delega em Dakar, não se negoceia em Paris e não se subordina aos interesses de quem pretende falar em nome dos guineenses.
O Senegal não pode ser simultaneamente mediador e parte interessada sem suscitar dúvidas legítimas
Ninguém contesta o direito do Senegal de proteger a segurança das suas fronteiras, combater ameaças armadas e preservar a estabilidade da Casamança.
São interesses legítimos de um Estado soberano.
A Guiné-Bissau também tem o dever de impedir que o seu território seja utilizado para atividades armadas contra países vizinhos.
Mas uma coisa é a cooperação bilateral em matéria de segurança. Outra, profundamente diferente, é fazer depender a solução da crise constitucional guineense de entendimentos políticos e estratégicos entre Dakar e as autoridades militares de Bissau.
A mediação internacional exige independência de julgamento, equidistância, transparência e confiança dos protagonistas.
Não basta que a CEDEAO tenha designado o Senegal como mediador para que a sua atuação se torne automaticamente imparcial.
O facto de Bassirou Diomaye Faye acumular a Presidência do Senegal com a presidência em exercício da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo da CEDEAO torna ainda mais importante distinguir os interesses nacionais senegaleses das responsabilidades institucionais regionais.
A CEDEAO não é o Senegal. O Senegal não é a CEDEAO. E a Guiné-Bissau não é um protetorado de nenhum dos dois.
A Casamança não pode tornar-se moeda de troca da democracia guineense
O artigo do Exclusif.net coloca a segurança da Casamança no centro das alegadas negociações.
É compreensível que Dakar atribua prioridade a essa questão.
O que seria inaceitável seria transformar compromissos de segurança fronteiriça numa contrapartida para a tolerância política de uma transição militar prolongada.
A segurança do Senegal e a democracia na Guiné-Bissau não são objetivos incompatíveis.
Pelo contrário, uma Guiné-Bissau democrática, institucionalmente estável e soberana constitui uma garantia de segurança regional muito mais duradoura do que qualquer entendimento conjuntural entre dirigentes políticos e militares.
A verdadeira estabilidade não resulta apenas do controlo das fronteiras. Resulta da legitimidade das instituições, do respeito pela vontade popular e da confiança entre governantes e governados.
Não se deve confundir estabilidade com imobilismo político, nem segurança regional com preservação de um regime.
O perigo de transformar uma rutura constitucional num negócio diplomático
O problema fundamental da Guiné-Bissau não começou com a impossibilidade anunciada de realizar eleições em 6 de dezembro de 2026.
Começou com a interrupção do processo eleitoral de novembro de 2025, a subsequente tomada do poder pelos militares e a progressiva substituição da legitimidade democrática por uma ordem política imposta pela força.
A questão central não consiste, portanto, em saber quantos meses adicionais as autoridades militares necessitam para organizar eleições.
Consiste em determinar com que legitimidade continuam a exercer o poder, que garantias oferecem aos cidadãos e como será restaurada uma ordem constitucional efetivamente democrática.
Se o adiamento eleitoral se converter numa concessão negociada entre Dakar e Bissau, sem uma solução para a legitimidade institucional e sem garantias verificáveis, estaremos perante uma perigosa inversão de prioridades.
A diplomacia terá deixado de procurar resolver uma rutura constitucional para passar a administrar as suas consequências.
E administrar indefinidamente uma rutura não é restaurar a democracia.
A mediação atual perdeu a credibilidade política necessária
A mediação atual não inspira a confiança, a credibilidade e a imparcialidade indispensáveis à resolução da crise guineense.
A acumulação de responsabilidades de mediação regional com interesses estratégicos bilaterais do Senegal, a persistência da crise constitucional e a contestação expressa de importantes setores políticos e sociais guineenses demonstram que o atual modelo de mediação se encontra politicamente esgotado.
As críticas públicas apresentadas por organizações políticas e sociais guineenses não podem continuar a ser ignoradas.
A CEDEAO deve explicar que resultados concretos foram alcançados desde a designação do Senegal como mediador.
A crise persiste. O calendário eleitoral foi comprometido. As restrições à atividade política continuam a suscitar protestos. A confiança na mediação encontra-se profundamente fragilizada.
Não cabe ao povo guineense adaptar-se indefinidamente a uma mediação que perdeu a confiança de parte significativa dos protagonistas da crise.
Cabe à CEDEAO reconhecer os limites do mecanismo existente e proceder à sua substituição por uma fórmula verdadeiramente independente, inclusiva e internacionalmente credível.
A substituição da atual mediação deixou de ser apenas uma opção diplomática. Tornou-se uma necessidade política para restaurar a confiança e criar condições para uma solução legítima e duradoura.
A presença militar regional deve ser reavaliada
Outro elemento significativo do artigo é a referência ao peso do contingente senegalês na Missão de Apoio à Estabilização da CEDEAO na Guiné-Bissau.
Se uma presença militar internacional destinada a contribuir para a estabilidade institucional acaba por ser percecionada como elemento de proteção ou sustentação de autoridades que chegaram ao poder através de uma rutura constitucional, impõe-se uma avaliação independente.
Não se trata de acusar indiscriminadamente os militares estrangeiros destacados para a missão.
Trata-se de examinar o mandato, a composição, a cadeia de comando, os resultados e a adequação política dessa presença.
Uma força internacional deve contribuir para proteger a população civil e criar condições para o funcionamento das instituições legítimas.
Não deve servir, nem parecer servir, como garantia de sobrevivência política de qualquer regime.
Por isso, defendo uma revisão profunda da atual missão regional, incluindo a possibilidade da sua substituição progressiva por uma presença internacional de composição mais equilibrada, preferencialmente sem contingentes dos países diretamente envolvidos na crise ou com interesses fronteiriços imediatos, dotada de mandato preciso, controlo civil, enquadramento jurídico adequado e estratégia de saída.
A subsidiariedade não é dogma, nem religião, nem bala de prata
A CEDEAO invoca frequentemente o princípio da subsidiariedade para justificar o seu protagonismo na resolução das crises da África Ocidental.
Mas a subsidiariedade não confere um direito perpétuo de exclusividade diplomática.
Muito menos transforma uma organização regional numa autoridade superior à soberania dos Estados e à vontade democrática dos seus povos.
Quando um mecanismo regional demonstra dificuldades persistentes em alcançar os objetivos para os quais foi mobilizado, a resposta responsável não consiste em perpetuar automaticamente o mesmo modelo.
Consiste em reconhecer as suas limitações e procurar uma arquitetura institucional mais credível.
A União Africana, as Nações Unidas e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa não podem continuar relegadas para posições secundárias numa crise que envolve princípios fundamentais da ordem constitucional africana.
A CPLP não é a CEDEAO. Possui identidade, responsabilidades e instrumentos próprios.
E a solidariedade internacional não constitui ingerência quando é legitimamente solicitada, juridicamente enquadrada e orientada para a proteção da vontade soberana dos cidadãos.
Existem alternativas: Sonko, Botswana, países nórdicos e mediadores independentes
A Guiné-Bissau não está condenada a escolher entre uma mediação senegalesa politicamente esgotada e a ausência de qualquer mediação.
Existem alternativas.
Já anteriormente defendemos que personalidades como Ousmane Sonko, cuja posição crítica perante a interrupção do processo eleitoral guineense foi publicamente conhecida, poderiam contribuir para uma abordagem diferente.
Sonko denunciou a tomada do poder pelos militares em novembro de 2025 e defendeu a conclusão do processo eleitoral interrompido.
Mas por que limitar as alternativas ao Senegal?
O Botswana, com a sua tradição de estabilidade institucional e constitucionalismo democrático, poderia ser convidado a desempenhar um papel de facilitação africana independente.
Os países nórdicos, designadamente a Noruega, a Suécia, a Finlândia e a Dinamarca, oferecem igualmente possibilidades de apoio diplomático, técnico e institucional, sem os mesmos interesses fronteiriços imediatos que condicionam os países vizinhos.
Também não deveria ser excluída a participação de personalidades internacionais de reconhecida independência, incluindo de fora do continente africano, com experiência comprovada em mediação política, processos de transição e prevenção de conflitos.
O essencial não é a nacionalidade do mediador, mas a sua credibilidade, independência, aceitação pelas partes e compromisso inequívoco com a restauração da legitimidade democrática.
Uma fórmula particularmente adequada seria a constituição de um mecanismo de facilitação internacional sob os auspícios conjuntos da União Africana, das Nações Unidas e da CPLP, com participação da CEDEAO, mas sem monopólio senegalês.
Ousmane Sonko poderia contribuir para esse esforço, desde que o seu papel fosse aceite pelos principais protagonistas e inserido num quadro multilateral capaz de preservar a independência da mediação.
A Guiné-Bissau não precisa de tutores. Precisa de parceiros credíveis.
Uma alternativa política concreta para a Guiné-Bissau
A solução exige uma mudança de método e de prioridades.
Primeiro: constituir um mecanismo internacional de facilitação política, envolvendo a União Africana, as Nações Unidas e a CPLP, com participação da CEDEAO, mas sem exclusividade de condução pelo Senegal.
Segundo: promover uma avaliação independente dos acontecimentos eleitorais de novembro de 2025, incluindo a interrupção do processo de apuramento e as condições em que ocorreu a tomada do poder.
Terceiro: assegurar a libertação dos detidos por motivos políticos, mediante os mecanismos jurídicos adequados, a liberdade dos partidos, da imprensa e da sociedade civil e o levantamento das restrições incompatíveis com uma transição democrática.
Quarto: examinar a reposição da legitimidade parlamentar da XI Legislatura da Assembleia Nacional Popular e a situação dos mandatos resultantes das eleições de novembro de 2025, incluindo as reivindicações relativas a Fernando Dias da Costa, através de mecanismos independentes de verificação e de garantias jurídicas.
Quinto: convocar um diálogo nacional genuinamente inclusivo, capaz de estabelecer uma solução civil de transição, um calendário eleitoral realista, responsabilidades claramente delimitadas e mecanismos internacionais de acompanhamento.
Sexto: reconduzir o papel das Forças Armadas às suas funções constitucionais, com garantias institucionais de segurança e sem conferir aos militares um direito de veto permanente sobre a vida política nacional.
Sétimo: rever profundamente o mandato e a composição da atual presença militar regional, estudando a sua substituição por um mecanismo internacional de segurança verdadeiramente imparcial.
Oitavo: prever medidas de responsabilização e, quando juridicamente justificadas, sanções individuais direcionadas contra quem obstrua deliberadamente o restabelecimento da ordem constitucional.
Nenhuma destas propostas exige hostilidade ao Senegal.
Todas exigem respeito pela soberania da Guiné-Bissau.
O Senegal é nosso irmão. Mas a fraternidade não é tutela.
É importante reafirmar um princípio que nunca deveria ser objeto de controvérsia.
Os povos da Guiné-Bissau e do Senegal estão ligados pela história, pela geografia, pela cultura, por laços familiares e por aspirações comuns.
Essa fraternidade é permanente.
Mas a amizade entre povos não obriga à aceitação incondicional das opções políticas dos seus governantes.
Criticar a condução da mediação pelo Presidente Bassirou Diomaye Faye ou pelo ministro Cheikh Niang não significa hostilidade ao Senegal.
Significa defender que a legitimidade de uma mediação deve ser permanentemente aferida pela sua independência, credibilidade e eficácia.
Se Dakar pretende verdadeiramente contribuir para a restauração da democracia guineense, poderá prestar um serviço histórico facilitando uma mediação internacional mais ampla, imparcial e centrada nos próprios guineenses.
Esse seria um gesto de liderança africana, não de fraqueza diplomática.
Conclusão — A chave está em Bissau, não em Dakar!
O Presidente Bassirou Diomaye Faye pode contribuir para a solução da crise guineense.
Pode facilitar o diálogo. Pode apoiar compromissos democráticos. Pode mobilizar a CEDEAO e ajudar a criar condições de segurança.
Mas não detém, nem lhe deve ser atribuída, a chave exclusiva do futuro político da Guiné-Bissau.
Essa chave pertence ao povo guineense e deve ser exercida através das suas instituições legítimas, de eleições credíveis e de um processo constitucional livre de imposições militares ou tutelas externas.
A estabilidade regional é importante. A segurança da Casamança é legítima. A cooperação entre Dakar e Bissau é indispensável.
Mas nenhum desses objetivos pode servir para relativizar a soberania democrática da Guiné-Bissau.
A Guiné-Bissau não precisa de um padrinho político. Precisa de instituições legítimas, de uma mediação credível e do direito efetivo de decidir o seu próprio futuro.
A CEDEAO deve ajudar a abrir a porta da solução, não reclamar a propriedade da chave.
A soberania guineense não se delega em Dakar, não se negoceia em Paris e não se subordina aos interesses de quem pretende falar em nome dos guineenses.
A chave está em Bissau. E pertence aos guineenses.
A Guiné-Bissau pertence aos guineenses. Ponto final.
Nô sta djunto — mas a nossa soberania não se negoceia.
Adriano S. Kansala
1 de novembro de 2026

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