Por Quinton Nicuete
Perante o colapso parcial da principal via rodoviária do país, o Governo anunciou a activação de rotas logísticas alternativas por via marítima para assegurar o fornecimento de combustíveis e bens essenciais às províncias do Sul, duramente afectadas pelas cheias que continuam a devastar extensas zonas do território nacional.
O anúncio foi feito esta quinta-feira, no distrito de Chongoene, província de Gaza, pelo porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, durante a habitual conferência de imprensa de balanço da situação de emergência provocada pelas inundações que atingem as regiões Sul e Centro de Moçambique.
Segundo Integrity, o governante, a Estrada Nacional Número Um (N1) permanece com circulação severamente condicionada em vários troços do Sul, situação que está a isolar comunidades inteiras e a provocar escassez progressiva de produtos de primeira necessidade, incluindo combustíveis.
Para mitigar os efeitos do bloqueio, o Executivo decidiu diversificar os corredores de abastecimento, utilizando infra-estruturas portuárias e ligações costeiras a partir das províncias de Inhambane e Sofala.
“O Porto de Chongoene, na província de Gaza, entra hoje em funcionamento para garantir o abastecimento regular de bens essenciais e combustíveis aos comerciantes e às gasolineiras locais”, anunciou Impissa, classificando a medida como crucial para evitar uma rutura generalizada no abastecimento.
Os dados apresentados pelo Governo confirmam um impacto severo das cheias sobre a produção agrícola, com 186.735 hectares de culturas destruídas até ao dia 21 de Janeiro. A província de Gaza lidera a lista das mais afectadas, seguida pela província de Maputo, num cenário que agrava a vulnerabilidade alimentar de milhares de famílias rurais.
A dimensão das perdas agrícolas levanta preocupações acrescidas quanto à próxima campanha de colheitas e à capacidade de auto-sustento das comunidades afectadas, muitas das quais dependem exclusivamente da agricultura de subsistência.
O sector pecuário enfrenta igualmente prejuízos avultados. Na província de Gaza, as autoridades contabilizam a perda de mais de 55 mil cabeças de gado bovino, enquanto na província de Maputo as cheias afectaram mais de 4.300 criadores, resultando na morte de cerca de 47 mil bovinos e 23 mil caprinos.
Estas perdas representam um duro golpe para a economia familiar e local, numa região onde a criação de gado constitui uma das principais fontes de rendimento.
No sector da saúde, o Governo anunciou a criação de 49 postos médicos de emergência nas áreas mais afectadas, onde já foram atendidos 1.305 pacientes. As doenças mais registadas incluem diarreias agudas (495 casos), malária (459) e infecções respiratórias (351), patologias típicas de contextos de cheias e deslocamento populacional.
“Estamos a reforçar a vigilância epidemiológica e a redistribuir medicamentos para zonas seguras”, assegurou Impissa, acrescentando que já foram distribuídas mais de 40 mil redes mosquiteiras nos centros de acomodação temporária.
Apesar de uma ligeira descida dos níveis dos rios Maputo, Umbelúzi, Incomáti e Limpopo, as autoridades alertam que os caudais continuam acima dos níveis de segurança, mantendo o risco de novas inundações, sobretudo nas zonas baixas e ribeirinhas.
O Governo reiterou ainda a preocupação com a situação da barragem sul-africana, cujos níveis elevados continuam a representar ameaça directa para os distritos de Moamba, Magude e Manhiça, em território moçambicano.
Confrontado com relatos de alegadas novas mortes nas cidades de Xai-Xai e na bacia do Incomáti, o porta-voz do Governo optou por cautela, afirmando que o balanço oficial permanece em 12 óbitos confirmados até à última terça-feira.
“Só comunicamos mortes oficialmente confirmadas pelo sector da saúde e directamente associadas ao fenómeno. As águas continuam muito fortes e transformaram avenidas de Xai-Xai em verdadeiros rios”, explicou.
Enquanto isso, as autoridades mantêm o alerta máximo e apelam à população para evitar zonas de risco, numa altura em que o país enfrenta mais uma prova dura da sua vulnerabilidade climática e da fragilidade das suas infra-estruturas. Moz24h

