Moz24h Blog Economia Governo anuncia reabilitação de mais de 3.500 quilómetros de estradas no país
Economia

Governo anuncia reabilitação de mais de 3.500 quilómetros de estradas no país

Por Quinton Nicuete

 

O Governo moçambicano prevê reabilitar e construir mais de 3.500 quilómetros de estradas em todo o território nacional no âmbito do Projecto Acelerado de Reabilitação e Construção de Estradas Nacionais 2026–2031, uma iniciativa também conhecida como “Mais Estradas – 2031”.

De acordo com informações da Administração Nacional de Estradas (ANE), o programa deverá arrancar no segundo semestre deste ano e será executado ao longo de cinco anos, com o objectivo de melhorar a mobilidade rodoviária e reforçar a ligação entre centros de produção, distritos e províncias.

A iniciativa prevê a asfaltagem e reabilitação de troços considerados estratégicos, sobretudo aqueles que facilitam o escoamento de produtos agrícolas e minerais, além de promover a integração económica entre diferentes regiões do país.

Entre as vias incluídas no projecto constam várias estradas distribuídas por diferentes províncias. Na província de Maputo, por exemplo, está prevista a intervenção no troço Porto Henrique – Catuane, com cerca de 75 quilómetros. Já em Gaza, o plano abrange as ligações Macarretane – Matchingue (65 km) e Chinhacanine – Nalazi (64 km).

Na província de Inhambane, as obras deverão contemplar as estradas Massinga – Sitila (40 km) e Sitila – Funhalouro (70 km). Em Sofala, estão programadas intervenções nos troços Casa Nova (Cruzamento da N280) – Estaquina (45 km) e Estaquina – Cruzamento da N1 (45 km).

O projecto inclui ainda intervenções na província de Nampula, com a asfaltagem das estradas Nametil – Chalaua (48 km) e Chalaua – Moma (83 km).

Para viabilizar a execução das obras, o Governo lançou recentemente um concurso público internacional destinado à contratação de empresas nacionais e estrangeiras que reúnam os requisitos técnicos e financeiros necessários para implementar os diferentes lotes do programa.

O Projecto “Mais Estradas – 2031” é promovido pelo Ministério dos Transportes e Logística e será implementado pela Administração Nacional de Estradas, que será responsável pela supervisão técnica das obras.

Cabo Delgado entre promessas e estradas degradadas

Apesar dos novos planos anunciados ao nível nacional, a realidade em Cabo Delgado continua marcada por uma acentuada degradação das principais vias rodoviárias.

Na província, várias estradas asfaltadas apresentam buracos profundos e extensos danos estruturais, situação que se agrava sempre que chegam as chuvas. Um dos casos mais evidentes é a estrada que liga Pemba a Montepuez, considerada uma das mais importantes da região por conectar as duas maiores cidades da província.

O trajecto, com cerca de 200 quilómetros, que antes podia ser percorrido em menos de duas horas, passou a exigir até oito horas de viagem, segundo relatos de automobilistas. Condutores e passageiros descrevem viagens longas, marcadas por constantes avarias mecânicas e riscos de acidentes.

Situação semelhante verifica-se nas rotas Pemba – Macomia e em várias ligações distritais, onde a circulação tornou-se cada vez mais difícil devido à deterioração acelerada das vias.

A precariedade das estradas tornou-se ainda mais evidente na ligação entre Namuno e Montepuez, onde a degradação da via provocou um aumento significativo no custo do transporte de passageiros. Com vários troços praticamente intransitáveis, especialmente na zona de Mahurussi, os utentes passaram a dividir a viagem em dois transportes, fazendo com que o preço da deslocação subisse de 200 para cerca de 500 meticais.

O agravamento da situação gerou forte indignação entre residentes, comerciantes e transportadores, que dependem diariamente da estrada para deslocações, escoamento de produtos agrícolas e acesso a serviços essenciais como hospitais e mercados.

Após a repercussão pública do problema, autoridades locais reuniram-se com transportadores para discutir a subida das tarifas. O encontro serviu para reconhecer o estado crítico da via e discutir formas de reduzir os custos suportados pelos passageiros.

Entretanto, o governador provincial voltou a classificar a estrada Namuno – Montepuez como prioridade do executivo, sublinhando a sua importância para a circulação de pessoas e para a actividade económica da região.

Distritos ricos em minerais, infra-estruturas pobres

O debate em torno das estradas ganha maior dimensão quando se observa o potencial económico dos distritos afectados. Namuno e Montepuez são zonas reconhecidas pela exploração de ouro, rubis e outros recursos minerais de elevado valor comercial, que alimentam cadeias de exportação e geram receitas significativas.

Apesar disso, as comunidades locais continuam a enfrentar infra-estruturas precárias e dificuldades de mobilidade, especialmente durante a época chuvosa.

Para muitos residentes, o contraste entre a riqueza do subsolo e a pobreza das condições de vida à superfície levanta questionamentos sobre a aplicação das receitas provenientes da exploração mineira, incluindo a parcela de 2,7% destinada às comunidades locais.

Enquanto os recursos minerais continuam a sair em grande escala da região, muitos habitantes permanecem isolados por causa das estradas degradadas, pagando transportes mais caros e enfrentando obstáculos para aceder a serviços básicos.

Entre promessas e realidade

Nos últimos meses, arrancaram também trabalhos de reabilitação na Estrada Nacional Número 14, no troço Metoro – Montepuez, numa iniciativa acompanhada pela delegação provincial da ANE. No entanto, até agora não foram divulgadas informações detalhadas sobre o custo da obra, o prazo de execução ou a empresa responsável pela empreitada.

Especialistas e activistas da sociedade civil defendem que o desenvolvimento do país exige mais do que anúncios e compromissos políticos. Para eles, a melhoria efectiva das condições de vida da população depende da execução concreta de projectos e da manutenção regular das infra-estruturas existentes.

Enquanto os grandes programas de reabilitação são anunciados, nas margens das estradas degradadas surgem soluções improvisadas. Em alguns pontos, crianças e adolescentes tentam tapar buracos com pedras e areia recolhidas no próprio local, numa tentativa precária de tornar a via minimamente transitável.

A cena ilustra um paradoxo persistente: milhões são anunciados para a construção e reabilitação de estradas, mas bastam as primeiras chuvas para que muitas dessas vias voltem a degradar-se rapidamente.

Para as comunidades de Cabo Delgado, a expectativa é que os novos projectos nacionais deixem de ser apenas promessas e se traduzam, finalmente, em estradas seguras, transitáveis e capazes de impulsionar o desenvolvimento económico e social da região. (Moz24h)

Sair da versão mobile