Funcionários ligados ao sector da Saúde no distrito de Ancuabe, na província de Cabo Delgado, denunciaram alegadas irregularidades na gestão de fundos destinados às brigadas móveis de saúde, financiadas por parceiros de cooperação internacional. As denúncias, feitas sob anonimato por receio de represálias, apontam para um suposto esquema de utilização de duas fontes de financiamento para uma única brigada móvel, enquanto os profissionais envolvidos alegadamente recebiam apenas o subsídio correspondente a uma única actividade.
Segundo uma das fontes, as suspeitas remontam às brigadas móveis realizadas entre os meses de abril e maio deste ano, inicialmente financiadas pelo parceiro CDC. De acordo com os relatos, meses após a realização das actividades, os profissionais continuavam sem receber os respectivos subsídios.
Os denunciantes explicam que o alegado esquema consistia na utilização simultânea de dois financiadores para uma única brigada móvel realizada na mesma comunidade, na mesma data e pela mesma equipa. Embora a actividade fosse apenas uma, os profissionais eram orientados a assinar duas guias de marcha distintas: uma referente ao projecto financiado pelo CDC e outra em nome da Solidarmed.
No entanto, apesar da existência de duas fontes de financiamento e de duas guias de marcha, os trabalhadores afirmam que apenas recebiam o valor correspondente a uma única brigada móvel.
“Assinávamos duas guias de marcha porque diziam que havia dois parceiros a financiar a actividade. Mas, no fim, só recebíamos o valor correspondente a uma única brigada móvel. Nunca nos explicavam o destino do dinheiro referente ao segundo parceiro”, revelou um dos denunciantes.
Segundo as fontes, numa gestão considerada regular, quando existem dois parceiros disponíveis para financiar brigadas móveis, as equipas deveriam ser distribuídas por comunidades diferentes, permitindo ampliar a cobertura dos serviços de saúde e beneficiar um maior número de populações.
Contudo, alegam que, em Ancuabe, ambos os financiamentos eram utilizados para justificar a mesma deslocação, a mesma equipa e a mesma actividade, levantando dúvidas sobre o destino dos recursos disponibilizados pelo segundo parceiro.
“Levávamos duas guias para a mesma actividade. Os trabalhadores acabavam por receber apenas por um parceiro, enquanto o dinheiro do outro não se sabia para onde ia”, acrescentou outra fonte.
Os denunciantes sustentam que esta prática não seria um caso isolado.
“Não é a primeira vez. Sempre que há brigadas móveis acontecem situações semelhantes. A população continua sem assistência enquanto alguns aproveitam os fundos destinados aos serviços”, afirmou um dos funcionários.
As denúncias referem ainda que um dos pontos focais do programa terá atribuído responsabilidades pelos pagamentos em atraso à anterior coordenação das brigadas móveis, enquanto outra responsável terá remetido o assunto ao sector da contabilidade.
Face às suspeitas, os denunciantes defendem a realização de uma auditoria independente para esclarecer a gestão dos recursos destinados às brigadas móveis e apurar o eventual destino dos valores alegadamente correspondentes ao segundo parceiro financiador.
Contactada pelo Moz24h para reagir às acusações, a Directora Distrital de Saúde, Mulher e Acção Social de Ancuabe, Júlia Bilana, rejeitou categoricamente as denúncias.
Segundo a directora, não existe qualquer prática de desvio de fundos ou duplicação irregular de brigadas móveis no distrito, considerando que as acusações “não constituem verdade”.
Entretanto, após os primeiros contactos feitos pelo Moz24h para recolha do contraditório, os denunciantes afirmam ter sido alvo de tentativas de intimidação.
De acordo com novos relatos, responsáveis ligados ao programa reuniram com as equipas para tentar identificar quem teria fornecido informações aos jornalistas.
“Perguntaram quem tinha ligado para a imprensa. Disseram que quem denunciou estava a colocar os chefes em risco”, contou uma das fontes.
Os denunciantes afirmam ainda que, depois da intervenção da imprensa, surgiram indicações de que os pagamentos em atraso poderiam finalmente ser efectuados. No entanto, alegam que um dos responsáveis terá inicialmente recusado elaborar os relatórios necessários para justificar os desembolsos junto dos parceiros financiadores.
As fontes consideram que a intervenção jornalística poderá ter contribuído para acelerar a resolução do problema, mas manifestam receio de sofrer represálias internas por terem exposto as alegadas irregularidades. (Moz24h)

