Tiago J.B. Paqueliua
Por mais que tente contorcer-se, escorregar-se, contornar os factos e reinventar narrativas, o actual governo liderado por Daniel Francisco Chapo mostra-se, de forma cada vez mais gritante, herdeiro directo do cinismo político que se tornou ADN da FRELIMO nos últimos 50 anos.
A mais recente tentativa de escapatória moral, jurídica e política prende-se com o malogrado Projecto SUSTENTA, agora oficialmente declarado morto e enterrado, sem cerimónia nem responsabilização, perante um povo cada vez mais saturado da retórica evasiva e da governação por obscuridade.
Num mal disfarçado acto de fuga à responsabilidade — ou, como o povo sabiamente diz, “fuga com a seringa no rabo” — Daniel Chapo teve o desplante de, numa conferência alusiva aos 50 anos da Independência Nacional, afirmar que o SUSTENTA “era um projecto e não um programa”, insinuando que, por essa razão, os resultados ou falhas do mesmo não lhe dizem respeito. Pior ainda, tenta convencer o povo de que “não é da responsabilidade do actual governo falar desses aspectos”. Um verdadeiro insulto à inteligência nacional.
Mas será que não é mesmo? Que dizer do princípio da continuidade do Estado, tantas vezes evocado pela mesma elite governante quando se trata de pagar as dívidas ocultas — essas que o povo, e não os bancos internacionais, continua a amortizar com o suor, o sofrimento e a fome quotidiana?
A ética republicana e o compromisso democrático exigem que quem herda o poder, herda igualmente as responsabilidades. E isso inclui expor e punir os desmandos dos seus antecessores — particularmente quando os mesmos ainda continuam vivos, activos, e influentes.
O nome que ninguém quer pronunciar — Celso Correia — continua a pairar sobre este cadáver institucional.
Correia foi o cérebro político do SUSTENTA, enquanto Ministro da Agricultura de Nyusi.
Agora, sob protecção tácita do novo Presidente, parece ser poupado a qualquer escrutínio sério. O mesmo se diga do próprio Filipe Jacinto Nyusi, cuja gestão desastrosa e alegadamente criminosa continua a ser intocável, como se pairasse acima da lei, da moral e da história.
E não é só. O actual Ministro da Agricultura, Roberto Albino, não apenas se esquivou da responsabilidade institucional, como teve a ousadia de manifestar ignorância arrogante, perguntando “que projecto?! Não sei”, referindo-se ao SUSTENTA — um programa que movimentou mais de 16 mil milhões de Meticais e envolveu 700 mil pessoas.
Isto é o cúmulo da irresponsabilidade estatal, da descontinuidade criminosa, e da malcriadez institucionalizada. Demitam -se.
Há um nome para esta forma de governação: estelionato político de Estado.
O povo vota num projecto, numa ideia de continuidade, e os novos dirigentes, uma vez empossados, recusam-se a prestar contas sobre o que herdaram — mesmo quando disso depende a dignidade e o bem-estar de centenas de milhares de famílias. E ainda se arrogam a autoridade de prometer novos projectos, novos programas, novos slogans vazios — quando nem sequer encerraram com honestidade os anteriores.
Do ponto de vista antropossociológico, estamos perante uma elite política que se reproduz a si própria através da desresponsabilização.
O novo poder não rompe com o velho — é apenas uma reencarnação do mesmo espectro que assombra Moçambique desde 1975: um Partido-Estado que age como se o país lhe pertencesse, e o povo fosse um detalhe inconveniente.
A ética política foi substituída por um pacto tácito de protecção mútua entre camaradas, e a justiça por uma cortina de silêncio ensurdecedor.
Do ponto de vista filosófico e moral, é urgente afirmar que um Estado que se recusa a prestar contas sobre as suas decisões passadas, quebra o pacto fundamental da confiança pública.
Um Presidente sério, no mínimo, viria a público dizer: “Ordenei uma auditoria completa e imparcial ao SUSTENTA.
Ninguém está acima da lei. Se houve gestão danosa, que se apurem responsabilidades, doa a quem doer.” Mas Chapo preferiu um jogo semântico: “não era programa, era projecto”, como se a nomenclatura fosse superior à vida das pessoas.
Do ponto de vista jurídico, e tendo em conta o princípio da continuidade do Estado, Daniel Chapo incorre numa falha grave.
A Procuradoria-Geral da República tem em mãos uma denúncia formal apresentada por Venâncio Mondlane, exigindo responsabilização criminal pela gestão danosa do SUSTENTA.
O Parlamento foi solicitado a criar uma Comissão de Inquérito.
A recusa do Presidente em abordar o tema de forma frontal poderá configurar obstrução política à justiça.
Do ponto de vista geoestratégico, o fracasso do SUSTENTA e o silêncio cúmplice do novo Governo comprometem a confiança internacional, particularmente a do Banco Mundial, que financiou parte do projecto.
Se Moçambique continuar a apresentar-se como um Estado incapaz de monitorar, avaliar e corrigir os seus erros, cairá ainda mais no descrédito externo.
O país perde capacidade negocial e reputacional.
Do ponto de vista psicossocial, a mensagem passada ao cidadão comum é devastadora: “nada mudará”.
O povo olha e vê os mesmos rostos, os mesmos esquemas, os mesmos silêncios. Isto aprofunda o desencanto, gera apatia, e abre espaço para o extremismo, o populismo e a desobediência cívica.
Afinal, por que razão deve o povo continuar a obedecer a leis e discursos que protegem criminosos?
Do ponto de vista cívico, o mínimo que se exige ao novo Presidente é um sinal claro de ruptura com o passado.
Chapo não pode querer o prestígio do cargo e o conforto do silêncio.
O povo de Malema — como tantos outros — exige justiça. E não haverá justiça sem que Filipe Nyusi e Celso Correia respondam criminal e civilmente pelo que fizeram.
Enquanto isso não acontecer, este governo será visto, com inteira justiça, como apenas mais um grupo de oportunistas a tentar fugir com o rabo à seringa.
Fonte da notícia:
MOZA. Daniel Chapo confirma morte do SUSTENTA: “Era um projecto e correu como correu”. Escrito por Abílio Maolela. Publicado a 23 de Junho de 2025.


