A ENI tem planos para expandir as actividade em Moçambique, em linha com as ambições do País enquanto produtor de energia na arena global. Marica Calabrese, Administradora-Delegada da Eni Rovuma Basin, antecipa a chegada da segunda plataforma e detalha outros projectos.
Após mais de 15 anos de debates, expectativas e promessas adiadas em torno da exploração do gás natural em Moçambique, a ENI materializou, em 2022, o primeiro grande projecto do sector, no norte do País, com a entrada em operação da plataforma FLNG Coral Sul. Este marco histórico assinalou a transição das intenções para as realizações em relação à bacia do Rovuma, inserindo Moçambique numa das arenas mais competitivas do mundo — o mercado global de energia — e provando que grandes projectos de gás natural podem funcionar no País.
A completar três anos de operação, o projecto Coral Sul já gerou mais de 200 milhões de dólares em receitas fiscais, mobilizou cerca de 100 empresas nacionais, assegurou contratos de mais de 800 milhões de dólares e garantiu 1400 postos de trabalho directos e indirectos – além da aposta na formação: a ENI já colocou moçambicanos a trabalhar noutros projectos de petróleo e gás, na Argélia, Costa do Marfim, México e outros.
Até 2028, deve iniciar produção a segunda plataforma (Coral Norte), uma versão melhorada da actual. Mas há mais ambições no horizonte: as principais descobertas estão localizadas na bacia do Rovuma, no norte do País, mas Marica Calabrese, Administradora-Delegada da Eni Rovuma Basin, indica nesta entrevista à Economia & Mercado que há outras descobertas ao longo da costa, no mar e em terra e que Moçambique merece “receber investimentos em várias frentes”.
Ao completar três anos de operação, já é possível ver benefícios da operação da plataforma Coral Sul?
A operação da plataforma Coral Sul movimenta uma carga [de GNL] por semana, o que é, definitivamente, uma boa conquista. O que nos orgulha, também, é o facto de estarmos a proporcionar valor a Moçambique, não apenas pagando impostos e “royalties”, mas através de benefícios indirectos como a formação profissional. Temos vários programas de treino de jovens engenheiros moçambicanos. É incrível a rapidez com que aprendem o trabalho técnico e como estão orgulhosos por trabalhar para o seu País, num projecto desta dimensão e importância. Hoje, já temos moçambicanos a trabalhar noutros projectos de petróleo e gás, na Argélia, Costa do Marfim, México e outros.
As principais descobertas estão localizadas na bacia do Rovuma, no norte do país. Mas há, igualmente, outras descobertas ao longo da costa, no mar e em terra
Há também benefícios para a macroeconomia e para as cadeias de valor nos negócios das pequenas e médias empresas, um universo empresarial com que trabalhamos muito.
Qual tem sido a estratégia da ENI para envolver essas empresas locais na cadeia de valor do projecto Coral Sul?
Neste momento, temos contratos com cerca de 100 empresas locais num valor de cerca de 800 milhões de dólares e estamos a trabalhar para garantir que esse número cresça. Isso significa mais formação, para garantir padrões de qualidade ainda mais elevados.
Nalguns casos, ajudamo-las a obter as certificações de que precisam para trabalharem connosco. Isto contribui para a criação de empregos, alargando os benefícios do projecto Coral Sul. Estimamos que o projecto já tenha ajudado a criar cerca de 1400 empregos, tanto directos como indirectos, o que é muito.
O que os levou a avançar com o projecto Coral Norte, ou seja, uma segunda plataforma na bacia do Rovuma?
Estamos a avançar com o projecto Coral Norte, que já foi aprovado, e trabalhamos com vista à decisão final de investimento com o objectivo de iniciar a produção de GNL em 2028. O conceito é simples: quando a plataforma Coral Sul entrou em produção, em 2022, percebemos o sucesso alcançado e questionámos: porque não fazer outra?
Assim surgiu a ideia de replicar o desenho e a engenharia da Coral Sul, mas de forma optimizada. Estamos a aplicar no projecto Coral Norte todos os ensinamentos, usando a mesma base técnica, incorporando melhorias que são fruto da experiência dos últimos três anos, para colocarmos rapidamente no mercado um projecto que possa duplicar a produção.
Em termos de dimensão, investimento e produção, a plataforma será uma réplica da Coral Sul?
Será um pouco maior, graças às melhorias, em vários aspectos, incluindo a eficiência e capacidade de produção. Algumas actividades preliminares já foram feitas. A plataforma esta a ser construída por um consórcio composto pela Technip, JGC e Samsung Heavy Industries – TJS e não apenas pela Samsung.
Quando o projecto Coral Norte entrar em produção, Moçambique poderá ser o terceiro maior produtor de energia do continente. E, considerando todos os projectos de gás, pode facilmente chegar a ser o primeiro produtor de gás em África
O projecto tornou-se num modelo, servindo de referência para outros, em diferentes partes do mundo. Já em 2017, quando a unidade FLNG Coral Sul foi concebida, existiam muitas preocupações na indústria de GNL sobre o conceito de navios de energia flutuantes, porque, até então, não havia nenhuma unidade que funcionasse de forma consistente no mercado. Agora há, é uma plataforma moçambicana e é uma referência global.
Mas com todas as mudanças recentes (covid-19, guerra na Ucrânia, tensões globais e a crescente agenda de sustentabilidade) o papel do gás natural como fonte de energia não está ameaçado?
O mercado está a evoluir e nos últimos cinco anos aprendemos que é muito volátil e sensível. A guerra na Ucrânia foi um exemplo. O gás é um instrumento essencial para uma transição energética real. Essa transição não pode ser feita de um dia para o outro. É preciso tempo e um combustível que garanta essa passagem.
O gás tem provado ser limpo, eficiente e capaz de chegar a qualquer parte do mundo através da tecnologia de liquefacção. Acreditamos muito nesse papel do gás, mas também entendemos que a transição energética vai além do gás: envolve o sector de carbono, florestas e outras formas de produção como os biocombustíveis. Moçambique faz parte dessa estratégia.

De que forma é que Moçambique pode fazer parte dessa estratégia?
Definitivamente, temos outros projectos em preparação. Para já, há a plataforma Coral Norte, mas também há outros, na área agrícola, em que queremos aumentar a nossa actividade. Já realizámos alguns projectos-piloto e estamos a trabalhar com as autoridades para a expandir.
A vantagem é que, enquanto os projectos de gás são altamente intensivos em capital, o negócio agrícola é muito mais intensivo em mão-de-obra e isso é fundamental numa sociedade como a moçambicana, com muita população jovem. Para ter uma ideia: se o projecto Coral Sul criou cerca de 1400 empregos, o sector agrícola pode criar milhares e milhares de postos de trabalho, ou seja, ter um impacto ainda maior.
O investimento na agricultura é apontado como uma das soluções mais acertadas para aplicar os benefícios da exploração do gás, a par da industrialização
Acreditamos que Moçambique tem a ambição de se tornar num importante produtor de energia em África. Quando a plataforma do projecto Coral Norte entrar em produção, Moçambique poderá ser o terceiro maior produtor de energia do continente. Considerando todos os projectos de gás em curso e os previstos, o País pode, facilmente, ser o primeiro produtor de gás em África. O potencial está claramente aqui.
Só que essa perspectiva tem repetida muitas vezes, sem se concretizar…
Durante muito tempo, as pessoas diziam que, apesar das grandes descobertas de gás, não havia benefícios concretos. Esta frustração fazia sentido, porque não havia projectos em execução e o projecto Coral Sul mostra que é possível transformar descobertas em projectos reais e gerar benefícios para o País e para a população. Estamos a falar de mais de 200 milhões de dólares já transferidos para o Governo, através do Fundo Soberano, e mais receitas irão chegar com o Coral Sul e outros projectos.
Acreditamos todos que chegou a hora de investidores e autoridades garantirem que os projectos avancem e tragam benefícios concretos para o País e população.
Mas o gás foi descoberto há mais de 15 anos e a produção arrancou apenas com o projecto Coral Sul. O que falta para que os próximos projectos avancem com maior rapidez?
O ponto crucial é começar a implementar os projectos. É tempo de avançar com mais iniciativas, de modo a que a população possa sentir, no seu dia-a-dia, os benefícios desta riqueza. Quando falamos de novos projectos, também pensamos em novas iniciativas na costa de Moçambique. É natural que isso esteja no horizonte, já que as principais descobertas estão localizadas na bacia do Rovuma, no norte do país. Mas há, igualmente, outras descobertas ao longo da costa, no mar e em terra. Moçambique merece receber investimentos em várias frentes. O momento é de aproveitar esta oportunidade, tanto para o País, como para os investidores.
A ENI lidera a primeira operação na bacia do Rovuma. Quais os desafios de comandar um projecto desta dimensão?
É um desafio, admito, e também é um processo de aprendizagem para mim e, creio, para toda a sociedade moçambicana. Estamos a trabalhar muito para comunicar, para que todos entendam o que fazemos. É difícil imaginar que estamos a falar de uma unidade de produção e liquefacção flutuante, localizada a 50 quilómetros da costa, com 400 metros de comprimento, 60 metros de largura e levando a bordo cerca de 250 pessoas. Desde o primeiro dia, dedicámo-nos a estabelecer uma relação baseada em confiança, especialmente com as autoridades, garantindo que aquilo que fazemos seja entendido do ponto de vista técnico e ético. Este não é um projecto fácil. Tem desafios de segurança, logística e de engenharia. Por isso, é importante que trabalhemos como uma equipa, junto das autoridades, incluindo o Instituto Nacional de Petróleos (INP) e o Ministério dos Recursos Minerais e Energia (MIREME), que são as nossas principais contrapartes para continuar a alcançar os melhores resultados para todos.
A plataforma Coral Sul foi a primeira unidade FLNG no mundo a operar em águas ultraprofundas. Isso explica parte dos desafios?
Do ponto de vista da engenharia, isso representou um grande desafio, porque são 2000 metros de profundidade, com fortes correntes. Paralelamente, temos uma preocupação constante com as emissões: o nosso equipamento foi concebido com tecnologia de ponta para garantir o menor impacto ambiental.
O gás natural processado em Moçambique tem menor teor de impurezas? Isso é uma vantagem?
Sim, o gás de Moçambique é realmente incrível. Eu sou engenheira de reservas de gás e comecei a minha carreira no departamento técnico, trabalhando em países como o Congo, Cazaquistão e Egipto.
Gostaria que todas as reservas com que trabalhei fossem como as que temos, aqui, em Moçambique. São reservas excelentes, tanto em termos de qualidade de entrega (localização geográfica privilegiada para os mercados europeu e asiático), como de qualidade do gás. A proporção de dióxido de carbono e sulfeto de hidrogénio é muito baixa, o que representa uma vantagem competitiva para Moçambique, porque o custo de produção é menor: o gás já tem uma qualidade superior e não precisa de grande tratamento para atingir o nível desejado, tornando-o mais competitivo no preço e rentável para a operação.
Para além do gás, que outros projectos e iniciativas estão a desenvolver em Moçambique para apoiar a sustentabilidade e as comunidades?
Temos vários projectos ligados à compensação de carbono, com destaque para as cozinhas limpas. O nosso objectivo é distribuir 400 mil fogões melhorados. Estes fogões, certificados por organismos internacionais, são muito mais eficientes do que os tradicionais, permitindo poupar entre 75% e 85% de lenha e carvão vegetal. Isto representa economia para as famílias, benefícios para a saúde de mulheres e crianças – que passam muito tempo em espaços fechados a cozinhar – e menor desflorestação. Estamos também a implementar um grande projecto de reflorestamento na região do Limpopo, em parceria com a Bio Carbon Partner. Trabalhamos com as comunidades para proteger e usar de forma sustentável as florestas, gerando créditos de carbono e, ao mesmo tempo, oferecendo alternativas sustentáveis de subsistência.
Outro foco é o desenvolvimento de biocombustíveis. Queremos que toda a cadeia agrícola seja feita em África, criando milhares de empregos através do cultivo de grãos destinados à produção de biocombustíveis.
A questão do conteúdo local tem sido um tema recorrente em Moçambique há mais de uma década. Para a ENI, a forma de trabalhar com empresas locais segue o mesmo modelo de outros mercados onde a empresa opera?
Privilegiar o conteúdo local faz parte da nossa estratégia. Nós chamamo-la de estratégia “dual-flag” (dupla bandeira). Basicamente, onde há a bandeira da ENI, também há a bandeira do País. O conteúdo local faz parte do nosso ADN, é o nosso compromisso com o País em que operamos.
Não há outra forma de adicionar valor a Moçambique e aos moçambicanos se não trabalharmos ao nível do conteúdo local, já que, desenvolver um país, não é apenas pagar taxas e “royalties”, mas criar oportunidades económicas. Por isso, temos vários projectos sociais junto das comunidades, porque queremos benefício rápidos e directos. Com estes projectos, suprimos as necessidades básicas em áreas que incluem a educação, a saúde, o acesso a água ou energia. Por exemplo, a inauguração, em Novembro de 2024, do Hospital de Pemba, com o primeiro e único equipamento de exames médicos com imagem de tomografia computorizada (TAC) na região. E há outros projectos, porque trabalhamos junto das comunidades e com as autoridades, procurando entender as necessidades.
Numa perspectiva mais pessoal, qual é a sua experiência favorita em Moçambique, até agora?
Sem dúvida, as pessoas. Tenho colegas incríveis e, no dia-a-dia, conheci pessoas que me marcaram muito. Há uma abertura e uma simpatia que me lembram bastante a cultura latina. Desde o início, senti-me bem recebida, e o mesmo aconteceu com a minha família. Levarei sempre estas pessoas comigo, ao longo da vida.
(DE)