Por Quinton Nicuete
Assinalar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa em Moçambique é, cada vez mais, um exercício de memória e denúncia. Mais do que celebrar, é confrontar uma realidade marcada por violência, silêncio institucional e impunidade.
Desde o ano 2000, o país acumula um histórico preocupante de assassinatos, tentativas de homicídio, desaparecimentos e intimidações contra jornalistas. Não se trata de casos isolados, mas de um padrão persistente.
Tudo começa com o nome que se tornou símbolo da coragem jornalística no país: Carlos Cardoso.
A 22 de novembro de 2000, em Maputo, foi assassinado a tiros enquanto investigava corrupção ligada ao sistema financeiro. A sua morte marcou profundamente o jornalismo moçambicano e lançou um alerta que ainda hoje permanece актуal.
Anos depois, em 2015, o jornalista Paulo Machava foi morto a tiro na via pública, também em Maputo, após um histórico de denúncias sobre crime e corrupção. O caso nunca foi totalmente esclarecido.
Em 2023, o jornalista João Chamusse foi assassinado na sua residência, na zona da Catembe. Era conhecido pelas suas posições críticas. O crime voltou a expor fragilidades na protecção de profissionais da comunicação social.
Para além dos assassinatos, há casos de desaparecimento que permanecem sem resposta.
O jornalista Ibraimo Mbaruco desapareceu em 2020, na província de Cabo Delgado, após enviar mensagens indicando que estava a ser perseguido. Nunca mais foi visto e nunca o caso foi esclarecido.
Mais recentemente, em 2025, Arlindo Chissale também desapareceu em circunstâncias suspeitas, alegadamente após ser retirado à força de um transporte público na sede da localidade de Salaue, distrito de Ancuabe, em Cabo Delgado. Até hoje, não há esclarecimentos.
Os ataques continuam.
Em 2026, o jornalista Carlitos Cadangue sobreviveu a uma tentativa de assassinato após o seu veículo ter sido alvejado por homens armados na cidade de Chimoio. O ataque ocorreu depois de reportagens sobre mineração ilegal. Aqui quase as bocas das autoridades não falam… tudo em silêncio.
Estes casos revelam um padrão recorrente: investigar temas sensíveis, como corrupção, recursos naturais ou abuso de poder, pode colocar jornalistas em risco.
Organizações internacionais e nacionais têm alertado para o ambiente de medo que se instala entre profissionais da comunicação. Em muitos casos, jornalistas evitam determinados temas por receio de represálias.
O problema não é apenas a violência. É também a ausência de justiça.
Em vários destes casos: Não há responsabilização clara dos autores
Não há esclarecimentos públicos consistentes
Não há respostas institucionais eficazes
O tempo passa, os processos perdem visibilidade e a sensação de impunidade cresce.
Actualmente, em diferentes pontos do país, jornalistas enfrentam formas subtis e directas de pressão. Há relatos de intimidação, exclusão de eventos públicos, limitações no acesso à informação e ameaças veladas.
Num contexto assim, a liberdade de imprensa deixa de ser apenas um princípio constitucional e passa a ser um desafio diário.
A questão que se impõe é inevitável: até quando?
Em Moçambique, ser jornalista não é apenas informar.
É resistir.
É enfrentar riscos.
E, muitas vezes, é lutar para continuar vivo.


