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Capetine alerta que fraco investimento na defesa deixa Moçambique vulnerável apesar da riqueza em recursos

Por Quinton Nicuete

 

O antigo vice-chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), tenente-general na reserva Bertolino Capetine, defendeu que o país continua excessivamente exposto a ameaças internas e externas devido ao reduzido investimento no setor da defesa, num contexto em que Moçambique é rico em recursos naturais, mas frágil em matéria de segurança.

As declarações foram feitas durante um debate sobre defesa e segurança nacional, realizado no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo, onde o general na reserva voltou a abordar o terrorismo em Cabo Delgado, mas começou por criticar duramente a forma como o Orçamento Geral do Estado tem tratado a área da defesa ao longo dos últimos anos.

Segundo Capetine, a tendência de redução do orçamento destinado às Forças Armadas compromete seriamente a capacidade do Estado de proteger o território e garantir estabilidade. O oficial afirmou que, com exceção de 2024, quando houve um ligeiro aumento, a dotação orçamental tem vindo a cair, podendo atingir níveis mínimos nos próximos anos. Para ele, um país que investe pouco na defesa “é como uma casa cheia de bens, mas sem vedação”, aberta à entrada de qualquer ameaça.

O antigo dirigente militar defendeu que defesa e economia são pilares indissociáveis, alertando que não haverá investimento estrangeiro sustentável enquanto persistirem fragilidades na segurança. Nesse contexto, citou a paralisação do projeto da TotalEnergies em Cabo Delgado como um exemplo direto da insegurança e da falta de garantias ao investimento.

Capetine foi igualmente crítico quanto à aquisição de meios militares, que considera inadequados para os desafios reais do país. Apontou como exemplo embarcações e viaturas que, segundo ele, não respondem às exigências operacionais, sobretudo no controlo do espaço marítimo e nas zonas de conflito. Para o general, decisões dessa natureza revelam falta de rigor técnico e estratégico na planificação da defesa nacional.

Durante a sua intervenção, o antigo vice-chefe do Estado-Maior-General denunciou ainda o que classificou como falta de seriedade na comunicação institucional sobre a situação de segurança, recordando encontros regionais em que Moçambique teria apresentado um cenário de estabilidade que não correspondia à realidade no terreno. Para Capetine, essa discrepância enfraquece a credibilidade do país junto dos parceiros regionais e internacionais.

O general alertou também para a ausência de uma estratégia clara e integrada no combate ao terrorismo em Cabo Delgado, defendendo que a resposta não pode continuar a ser reativa, improvisada ou centrada apenas no envio de tropas. Sublinhou que as Forças Armadas funcionam como uma ciência, envolvendo componentes terrestres, aéreas, navais, logísticas, estratégicas e tecnológicas, e não como uma simples concentração de efetivos.

Outro ponto destacado foi a fragilidade na defesa cibernética, num momento em que o Estado avança para serviços eletrónicos e digitalização de processos sensíveis. Capetine alertou que, sem proteção adequada, o país corre o risco de paralisações graves em sistemas críticos, com impacto direto na economia e na governação.

O oficial na reserva chamou ainda atenção para a negligência do espaço marítimo, defendendo maior articulação entre a defesa naval, a investigação criminal marítima e outras instituições, de forma a combater o crime organizado, o terrorismo e o tráfico transnacional que exploram o litoral moçambicano.

No domínio da inteligência, Capetine considerou essencial reforçar os serviços de informação para cortar as linhas de abastecimento e financiamento dos grupos terroristas, alertando que a logística do extremismo violento opera muitas vezes de forma invisível, através de redes locais e internacionais.

Por fim, o general manifestou preocupação com a facilidade de atribuição de documentos moçambicanos a cidadãos estrangeiros, situação que, segundo ele, representa um risco sério para a segurança nacional. Defendeu maior rigor nos processos de identificação e nacionalidade, sublinhando que falhas nesse domínio podem abrir espaço à infiltração de interesses externos nas instituições do Estado.

O encontro decorreu no âmbito do Diálogo Nacional Inclusivo e teve como objetivo recolher contributos técnicos e experiências para o debate sobre a segurança nacional, visando a construção de consensos em torno de reformas consideradas urgentes para o reforço da defesa do Estado e da estabilidade do país. Moz24h

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