Por Quinton Nicuete
O bispo de Pemba, Dom António Juliasse, alertou para sinais da intenção dos grupos insurgentes que actuam em Cabo Delgado de estabelecerem um califado islâmico no norte de Moçambique, defendendo uma resposta baseada no diálogo e* não apenas na via militar.
“Os sinais existem. Eles falam de califado. Quando encontram pessoas, quando capturam ou raptam, fazem esse discurso de que já estão aqui com o califado estabelecido”, afirmou o prelado, citado esta terça-feira pela fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS).
A província de Cabo Delgado enfrenta, desde Outubrode 2017, uma insurgência armada protagonizada por grupos extremistas associados ao autoproclamado Estado Islâmico, conflito que já provocou milhares de mortos e deslocados.
Dom António Juliasse criticou o silêncio das autoridades perante a evolução da violência e apelou à mobilização de todos os sectores da sociedade para impedir o agravamento da situação.
“Este é um assunto que deve preocupar as forças que governam o país, que deve preocupar também todas as forças vivas da sociedade, antes que seja tarde demais”, afirmou.
O responsável religioso manifestou preocupação com o impacto do conflito nas relações entre comunidades religiosas, considerando que a convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos começa a deteriorar-se.
“A religião, que durante muito tempo facilitou a convivência entre as pessoas, começa a ter dificuldades. A religião começa a dividir as pessoas”, lamentou.
Segundo o bispo, anteriormente era comum cristãos participarem em funerais de famílias muçulmanas e vice-versa, algo que agora começa a ser questionado devido ao ambiente de desconfiança gerado pelo extremismo violento.
Apesar da gravidade da situação, Dom António Juliasse defendeu que a solução não deve passar exclusivamente pela força militar, insistindo na necessidade de diálogo.
“O povo moçambicano precisa de dialogar para que esta guerra termine”, declarou.
O bispo de Pemba revelou ainda que, desde o início da insurgência armada, pelo menos 300 católicos foram mortos, a maioria por decapitação, além da destruição de mais de 117 infraestruturas ligadas à Igreja Católica em Cabo Delgado.
Dados recentes da organização ACLED – Armed Conflict Location & Event Data, indicam que Cabo Delgado registou 11 episódios violentos nas últimas duas semanas, 10 dos quais atribuídos a grupos extremistas ligados ao Estado Islâmico, provocando nove mortos e elevando para mais de 6.500 o número total de vítimas desde 2017. (Moz24h)

