O silêncio imposto é o grito do medo
de quem governa sem honra, no segredo.
Calam a caneta, caçam o jornalista,
querem apagar a voz do activista.
Mas a verdade não morre na mordaça:
vive no sangue que ainda ocupa a praça.
Falta ética na mesa do banquete,
falta moral sob o cassetete;
a justiça torna-se órfã e vã
nesse poder ilegítimo e traiçoeiro,
onde a vergonha dita o batuque inteiro.
Disparam contra o povo desarmado
que exige a urna e o direito usurpado.
As vidas caídas não são tinta ou papel:
são carne, sonho, grito cruel
que tombam na memória da nação.
É hora de um basta profundo,
de peneirar até o fundo;
abanar o embondeiro do chão
até que caiam folhas sem perdão.
Que caia o corrupto, o opressor,
e quem se alimenta da dor.
Só assim se limpa a terra pisada,
num ciclo novo, firme e urgente,
onde a voz da palhota é respeitada
e o futuro pertence à nossa gente.
*Ismael Miquidade, in “Cadernos de Poesia — Faísca no Chão”

