Em Setembro, o mundo vai assistir à 80.ª sessão da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, sob fortes cortes financeiros e com os princípios que defende (multilateralismo) sob ameaça.
Setembro é, por tradição, o mês em que comitivas de chefes de Estado e líderes governamentais de todo o mundo se reúnem em Nova Iorque para as reuniões anuais da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). A sessão deste ano arranca a 9 de Setembro e tem um marco especial: celebram-se os 80 anos da ONU num dos momentos mais complexos da estrutura multilateral.
As reformas institucionais são um tema prioritário. A Iniciativa UN80 proposta pelo secretário-geral António Guterres visa modernizar a ONU, abrangendo várias áreas, desde a reforma do Conselho de Segurança, à eficiência operacional, com ajustes orçamentais e resposta aos cortes ao financiamento. As reformas são vistas como uma das formas de fortalecer o multilateralismo – o princípio de cooperação entre três ou mais países, com base em regras comuns e instituições partilhadas, para resolver problemas globais de forma coordenada e inclusiva.
Este princípio de cooperação está ameaçado por países que agem sozinho, ignorando acordos ou regras comuns, ou negoceiam directamente entre si, fora de fóruns multilaterais. É o reflexo de um mundo polarizado por conflitos armados (Gaza, Ucrânia, Sudão, Myanmar, entre outros), mas não só.
Os eventos extremos causados por mudanças climáticas e desigualdades alimentam atitudes de intolerância e, tudo junto, acompanhado por doses massivas de desinformação, serve de combustível para a alienação dos cidadãos e violações de direitos humanos.
Entre as críticas vorazes e papéis cruciais
A ONU chega aos 80 anos a enfrentar críticas por ineficiência, envelhecimento estrutural e problemas diversos causados por cortes nos orçamentos, especialmente dos EUA, além de impasses no Conselho de Segurança. No entanto, vários analistas consideram que, mesmo fragilizada, a ONU continua a ser uma plataforma vital de diplomacia, com agências especializadas – como a Agência Internacional de Energia Atómica (IAEA), o Fundo para a Educação e Infância (UNICEF), o Alto Comissariado para os Refugiados (ACNUR), entre outros – ainda a desempenhar papeis cruciais nas crises globais.
Kishore Mahbubani, ex-presidente do Conselho de Segurança da ONU, atribuiu às Nações Unidas a responsabilidade pela prevenção da III Guerra Mundial e, embora ainda existam guerras, as mortes estão em declínio a longo prazo “e o mundo, no geral, continua a ser um lugar muito mais pacífico”.
Será que vamos ver propostas concretas de reforma do Conselho de Segurança e do funcionamento institucional da ONU, no final da 80.ª Assembleia-Geral (mesmo que depois ainda precisem de fazer novas rondas para se chegar a um consenso)? Já falta pouco para saber.
Um Guia Para a Assembleia-Geral
O que esperar das reuniões de Setembro em torno da 80.ª sessão, em Nova Iorque?
Momentos-chave: a 80ª sessão da Assembleia-Geral da ONU (UNGA 80) vai incluir o habitual debate de alto nível com discursos dos chefes de Estado e Governo a partir de 23 de Setembro. Cada país subirá ao palco para partilhar a sua visão do mundo com o resto dos pares.
Presidência da sessão: a ex-ministra das Relações Exteriores da Alemanha, Annalena Baerbock, foi eleita em Junho de 2025 com 167 votos para presidir à 80.ª sessão da Assembleia-geral, com o tema “Better Together” (“Melhor Juntos”).
Defesa da cooperação: a defesa do multilateralismo será tema central, especialmente sob o lema “Better Together”, de Baerbock, em oposição às crescentes divisões entre potências e blocos regionais.
Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS): os ODS fazem 10 anos e espera-se também uma renovada mobilização para a implementação dos objectivos em alinhamento com as reformas da ONU e do orçamento humanitário.

