Por Ámido Abina Gonçalves
Começo por dizer que a culpa não é da TotalEnergies no seu todo, mas sim de um Governo que conhece as preocupações da população e não quer resolvê-las. Quer começar pelo meio sem ter passado pela base. Como vamos retirar pessoas de Cabo Delgado (Palma, Mocímboa da Praia, etc.) sem compreender os seus reais desafios? Elas enfrentam problemas de base: falta de comida, ausência de comunicação coerente em língua portuguesa e carência de literacia básica dos fundamentos do conhecimento.
Imagine retirar essas pessoas da sua terra e colocá-las numa cidade muito agressiva, onde há acesso à informação, e depois exigir resultados imediatos. O nosso Governo precisa de entender que o desenvolvimento da base é muito mais essencial do que elaborar políticas públicas que acabam por ser usadas para manipulação de resultados de trabalho.
Em particular, não acredito na narrativa de que o Instituto da Matola trará resultados para a comunidade de Cabo Delgado. Pode trazer benefícios para a Total, mas não irá contribuir para o processo de desenvolvimento local no seu todo. O desenvolvimento local exige teorias de desenvolvimento endógeno. Como é que esta decisão se enquadra nesse princípio?
Imagine os jovens de Cabo Delgado a estudar na Matola e lá terem dormitórios. Mas será que calcularam quanto isso custará para a Total? Transporte de pessoas das suas províncias, apoio médico, e sem esquecer que a empresa que fornecerá refeições será de Maputo, enquanto se poderia criar uma empresa em Palma para gerar novos empregos.
Nada me surpreende nesta gestão do Governo e da Total. A própria Total tem empresas que fazem a gestão de recursos humanos todas sediadas em Maputo. Quando avaliam currículos, não consideram os locais; apenas olham para quem já exerce funções semelhantes. Como é possível uma empresa que tem políticas de conteúdo local não priorizar a capacitação dos locais em áreas de emprego? Querem licenciados em áreas específicas, mas esquecem que nas zonas onde operam não existem faculdades.
Por outro lado, oferecem bolsas para França a estudantes moçambicanos. Mas como alguém de Palma terá acesso a essa bolsa se um dos requisitos é falar francês, se nem a própria Total oferece aulas de francês gratuitas à comunidade nas suas instalações? Como teremos jovens de Cabo Delgado a usufruir dessas oportunidades?
Conforme disse, a culpa não é apenas da Total. A maior parte recai sobre o nosso Governo. Um Governo que tem Ministros oriundos de comunidades iguais às nossas, alguns com irmãos de Cabo Delgado que hoje vivem na capital, mas que esqueceram a sua província. Em vez de ajudar, preferem puxar o tapete aos outros.
Termino dizendo: Cabo Delgado não tem advogados, mas sim escravos.

